sexta-feira, 14 de setembro de 2007

DU BOCAGE

Já durante a manhã tinha ouvido alguém a trautear uns versos no andar de cima da pensão. Estranhei porque as únicas pessoas que eu tinha conhecimento que lá se encontravam eram a D. Rosalinda, a sua neta Alice e a minha colega Luísa, responsável pelo arrumo dos quartos.
A D. Rosalinda não seria porque, para ela, o tempo dos versos já tinha passado, a Luísa também não porque, além de falar mais alto e em tom mais grosso, apenas cantarolava as canções românticas do Tony Carreira, portanto só restava a menina Alice, menina bonita com 14 anos, acabada de entrar para o 9º ano de escolaridade, e cuja voz era a mais bonita delas as três.
Daquela cantoria toda, as poucas palavras que percebi eram "triste", "Inês", "clamores" e "Mondego", imaginando eu que se tratava de algum verso sobre Inês de Castro, por também ter ouvido a palavra Mondego só podendo ser o rio que, além de Penacova, também banha Coimbra. Claro que não me detive a tentar perceber tudo aquilo que a menina Alice dizia, eram coisas dela e, claro, eu também tinha as minhas para resolver, não podendo por isso dedicar muita atenção ao que estava a acontecer.
Minutos depois, ouço passos leves descendo a escada, com eles aquele continuo trautear mais nítido e completo do que da parte da manhã - "Da triste, bela Inês, inda os clamores Andas, Eco chorosa, repetindo..."
- Menina Alice, boa tarde, que anda a menina a dizer com tanto entusiasmo? - perguntei.
- Boa tarde Mário, ando a tentar decorar um poema que tenho que apresentar no Domingo, numa peça de teatro em que vou participar - respondeu.
- E porque motivo escolheu a menina um poema que fala de catástrofe e choros? - perguntei algo admirado.
- Sabe Mário, o poema que estou a tenta fixar, é da autoria de Bocage que, como sabe, nasceu no dia 15 de Setembro de 1765, portanto há 242 anos. - disse ela.
- Confesso que não sabia a data do seu nascimento mas sei que foi um poeta português que, tal como Camões, Pessoa e tantos outros, não foi muito acarinhado pelos governantes seus contemporâneos, constando-se até que morreu na miséria, para não variar. - respondi.
- Para não variar como?. - perguntou .
- Sabe menina Alice, o nosso povo e muito em particular os nosso governantes, nunca foram muito apreciadores daqueles que possuíam e possuem dotes criativos. Na maioria dos casos, só depois de atingirem notoriedade no estrangeiro é que a sua reputação é tida em consideração no país que os viu nascer. Nessa altura, já a sua capacidade criativa terá atingido o auge. Tenho a sensação que Portugal e as artes não conjugam muito bem. Creio que a nossa natureza fechada, tacanha e, de certo modo conservadora, não permite a convivência com as pessoas que têm um espírito criador e empreendedor. Como já deve ter tido a oportunidade de reparar, todos os nossos "patrícios" que partiram em busca de melhores condições para realizar os seus sonhos, ou porque não lhes era dada a liberdade necessária ou porque os meios que tinham à disposição não eram suficientes, quer em quantidade, quer em qualidade, conseguiram obter o que pretendiam no estrangeiro. - disse
- Quer então dizer que, apesar de gostar muito do seu país, e desta terra onde vive, tem consciência que conseguiria muito mais se optasse por partir para outras paragens? - perguntou.
- Sim e não. - respondi.
- Como assim? - perguntou.
- Ambas têm vantagens e desvantagens mas, claro, as oportunidades são completamente diferentes. No fundo são opções e, quando as tomamos, temos que ter em conta muitas situações que fazem parte da nossa vida. O fundamental, creio eu, é a idade com que surge essa possibilidade e a força que aqueles com quem vivemos nos dão. Essas são as duas únicas coisas que realmente importam, a partir daí, a decisão de sair (ou ficar), torna-se mais fácil. - respondi.
- Quer então dizer que deverei pensar na possibilidade de, um dia, tentar ir além fronteiras? - perguntou.
- O que quero dizer é que a menina tem todas as condições para poder fazer da sua vida aquilo que bem entender. É bonita, inteligente, corajosa e, acima de tudo, tem bom coração. Todos os ingredientes necessários para ter sucesso na sua vida futura. - respondi.
- Obrigado Mário, é muito amável da sua parte. Agora, vou continuar a ler este lindo poema que fala de um amor que nem a morte conseguiu separar e que, imagine, aconteceu bem perto de nós. - disse ela com candura.
- Faz bem menina Alice, mantenha essa chama acesa, para que o futuro lhe sorria. - disse-lhe eu pensando que é bom ter oportunidades em devido tempo.

2 comentários:

Isabela disse...

Excelente ideia, esta da Pensão Viseu. Dá para tudo. E num português irrepreensível em estrutura e estilo, muito longe do que é habitual num(a) principiante. Parabéns.

recepcionista disse...

Obrigado em bem-haja.
S� tenho pena n�o ter "descoberto" o seu blogue h� mais tempo.
Seja bem-vinda � Pena�o Viseu.

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