quinta-feira, 27 de setembro de 2007

ISSO NÃO SE FAZ

O Sr. Lopes entrou de rompante pela pensão. Não era hábito seu, sendo até uma pessoa bastante cordata e amistosa.
Sentava-se no seu canto a ler o seu jornal, enquanto aguardava pela refeição ou pelo pequeno-almoço. Por norma fazia-se acompanhar de bonitas mulheres. Às vezes lá vinha com os filhos, dois rapagões, que já ultrapassavam o pai, tanto em altura como em cabelo.
Desta vez não veio, nem com elas nem com eles. Apenas sozinho, o que não era normal acontecer. Vi logo que não podia vir com boa disposição, tanto mais que nem sequer me cumprimentou como habitualmente fazia quando entrava na pensão.
Desta vez vinha vermelho de raiva e verde de inveja.
De raiva por ter sido quase convidado a sair da entrevista para onde tinha sido convidado a entrar, apesar de ter uma agenda bastante preenchida (claro).
De inveja porque viu o seu encadeado discurso ser interrompido pela chegada de um treinador, por sinal, muito bem remunerado.
O futebol e a política têm destas coisas e ele, mais do que ninguém, estará em condições de entender o mecanismo de um e de outro, uma vez que por terras do futebol, quase se perdeu, o mesmo acontecendo por terras da política, de onde foi repescado para comentar o incomentável deserto de ideias e golpes palacianos que teimam em tomar conta da Rua de São Caetano.
- Mas isso não se faz, Sr. Lopes. - disse eu com ar pesaroso.
- Claro que não Mário - respondeu -, tanto mais que recusei um convite para jantar com a Bibá e, veja só o desplante daquele canal de televisão. Nem comi nem fui entrevistado.
- Inadmissível, Sr. Lopes. - disse eu - São coisas que seriam impensáveis acontecer na altura em que o Sr. foi 1º ministro.
- Diz bem caro Mário, diz bem. Além de ser uma completa falta de respeito, ainda por cima, dizem que o Sr. Mourinho é uma pessoa extremamente importante. Mais importante ainda que um ex-primeiro ministro. - disse ele ainda mais indignado.
- Não estará o Sr. Pinto Balsemão a fazer-se ao piso para arranjar mais uns milhões para a sua estação televisiva? - perguntei.
- Talvez não, Mário e daí, não ponho as mãos no fogo. - respondeu coçando a careca.
- Mas olhe Sr. Lopes, nada que um bom chá de camomila e umas torradas em pão de forma não resolvam. - disse-lhe eu para tentar mudar de assunto.
- Boa ideia Mário, preciso mesmo de relaxar. - respondeu.
Nisto, olho para o exterior, através da porta envidraçada da pensão e, para espanto meu, vejo que se aproxima o Sr. Mourinho. De imediato, pensei para os meus botões, que a coisa poderia ficar um pouco tensa.
Os dois ali cara a cara, um pouco incomodados pelos recentes acontecimentos, provavelmente não seria muito boa ideia mantê-los próximos um do outro.
Para tentar resolver o irresolúvel, pedi à Luísa que tratasse do chá e das torradas para o Sr. Lopes, enquanto tentava encaminhar o Sr. Mourinho para a sala de baixo, onde sei que ele gosta muito de estar, mas de maneira que ele não visse o Sr. Lopes.
Dei-lhe as boas vindas, perguntei pela família e se pretendia tomar o costume.
- A família está muito boa – respondeu com um sorriso nos lábios –, agora a S.I.C. é que se portou indecentemente. Viu a interrupção que aqueles danados, fizeram à entrevista do Sr. Lopes? - perguntou.
- Claro que vi, Sr. Mourinho. - respondi -, uma vergonha sem paralelo na história da nossa televisão.
- Já reparou Mário, que nem me deixaram dar uma entrevista num local decente? - perguntou retoricamente - Ao menos que me tivessem reservado um horário exclusivo para me entrevistarem convenientemente - continuou -, onde eu tivesse a possibilidade de me preparar para aparecer nas televisões com uma postura de quem está cheio de dinheiro, mas fingindo que não e sem interromper ninguém.
- Sem dúvida que foi muito deselegante da parte deles - respondi.
- Imagino o estado em que se encontra o Sr. Lopes. - disse em tom solidário - Aquele homem tem que ter um estômago bastante forte para aguentar tanta indiferença e tanta desconsideração.
Entretanto, a virar-se para cumprimentar a D. Rosalinda que, refastelada no seu cadeirão de verga, já se encontrava mais para lá do que para cá, reparou na presença do Sr. Lopes, fazendo questão de se sentar ao pé dele. Pensei para comigo que o caldo estava entornado mas, ainda bem que me enganei, pois o Sr. Mourinho, foi de tal maneira compreensivo e sensível, que o Sr. Lopes até fez beicinho de comovido.
Quase que podia ouvir com clareza a conversa que ambos tiveram.
O Sr. Mourinho disse ao Sr. Lopes que, da próxima vez que for convidado para ser entrevistado num qualquer canal de televisão, se certifique que ele ou, quem diz ele, a nossa selecção de râguebi, não vêm de algum sítio com destino a Portugal, porque é muito chato ser relegado para segundo plano, ainda mais quando o país está interessadíssimo em discutir os problemas do P.S.D..
O Sr. Lopes ouviu-o atentamente, sempre abanando afirmativamente com a cabeça, como que concordando com (quase) tudo que vinha da boca do treinador.
Como resposta, o Sr. Lopes disse ao Sr. Mourinho, que não se iria esquecer dos conselhos que recebeu e que, para a próxima (se houver próxima) se vai certificar que não anda nenhum desportista no ar, capaz de ensombrar uma qualquer entrevista, seja ela televisiva, radiofónica, ou até mesmo telegráfica.
Depois desta sessão de esclarecimentos, que eu julguei possível ser pouco amistosa, o Sr. Lopes, preferiu um whisky velho às torradas que já estavam prontas e que eu, com sacrifício, tive que comer consoladamente.
Horas depois, sem que estivessem com vontade de se levantar, optaram por telefonar a quem estava à espera deles, para que não esperassem mais e que ficassem descansados porque, no estado em que estavam, não podiam senão...passar a noite na pensão.

1 comentário:

Luís disse...

Quer se adore ou deteste, Santana, o Sr. Lopes tem classe e não passa em branco pela espuma dos dias.
Gostei da sua atitude na Sic-Notícias.

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