quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O REGRESSO DA MENINA DOS CINCO OLHOS

A menina Alice perguntava à avó, D. Rosalinda, se nas redondezas existia alguma escola católica que pudesse frequentar. Espantada, a D. Rosalinda perguntou-lhe porque motivo fazia aquela pergunta já que sempre estudou em Penacova, desde a pré-escola até ao liceu, e com resultados bastante positivos.
- Sabes avó, o que me leva a fazer-te tal pergunta, tem a ver com o facto de as cinco escolas privadas que alcançaram a média mais alta na primeira fase dos exames nacionais do ensino secundário serem todas católicas.
- Pois é minha querida, mas também são aquelas onde se pagam propinas mais elevadas, portanto, desde logo, uma opção secundária .
- Pois, sendo assim - disse a menina Alice -, não será muito boa ideia ir estudar para uma dessas escolas.
- Além disso - disse a D. Rosalinda -, essas escolas têm características que tu não irias gostar.
- Como assim avó? - perguntou a menina Alice.
- Então repara - respondeu a D. Rosalinda -. O estudo da religião e moral é obrigatória desde o primeiro ano e as meninas e os meninos frequentam turmas independentes, isto é, meninas com meninas e meninos como meninos.
- Quer então dizer que não podia partilhar, por exemplo, a minha carteira com o João ou com o José. - disse algo triste a menina Alice
- Exactamente. - retorquiu a D. Rosalinda
- Mas isso é muito desagradável, parece que uns prejudicam os outros e que só é possível alcançar bons resultados se os rapazes estiverem afastados das raparigas e vice-versa. - disse a menina Alice
- Assim parece minha filha, assim parece. - disse a D. Rosalinda
Ao ouvir a preocupação que a menina Alice manifestava em relação às escolas que mais garantias futuras lhe podiam dar, vieram-me à ideia as conclusões a que chegou o sociólogo americano Cornelius Riordan, e a sua equipa, acerca das vantagens que, no ensino, o formato unissexo tem em relação ao sistema misto.
Tais resultados, revelaram que o sistema unissexo é mais vantajoso, pois não existem problemas de assédio sexual, o plano de estudos é especial, existe mais carga horária e o envolvimento dos pais dos alunos é maior.
- D. Rosalinda, peço desculpa por me intrometer na conversa mas não resisto a manifestar a minha opinião.
- Avance Mário, não tenha problemas - disse a D. Rosalinda -, as suas opiniões são sempre bem-vindas.
- Olhe D. Rosalinda, para mim o formato unissexo poderá ter as suas vantagens relativamente àquele que hoje em dia vigora em maior número no nosso sistema educativo. Do lado das vantagens, pesa a falta de possibilidade que as meninas (adolescentes) têm para se encontrarem com os meninos (adolescentes), quer nos intervalos quer fora deles, evitando assim os encontros sexuais, fortuitos ou não, a partir dos 14 anos de idade no recinto escolar. Do lado das desvantagens, pesa a questão da exclusividade e essa mentalidade traz-me à ideia os colégios internos, as fardas e o (aparente) ar bem comportado dos alunos que os frequentam. Além disso, como a D. Rosalinda muito bem referiu, tal clivagem conduz ao encarecimento do ensino, já de si quase incomportável para uma família de rendimentos médios, criando a ideia de que a aprendizagem e o sucesso está reservado a meia dúzia de privilegiados.
- Tem razão Mário - disse a D. Rosalinda -, o tema, já de si polémico, promete longos e, quiçá, inconclusivos debates, os quais levarão à inevitável conclusão que, se fosse assim tão bom, o sistema unissexo não teria sido abandonado.
- Preferências à parte, o que é certo é que cada vez mais países estão a adoptar o que anteriormente foi banido por ser considerado desadequado. - disse eu -, dessa forma – continuei -, se a tendência for a de dar preferência às escolas unissexo em detrimento das escolas mistas, não me espantará que, daqui a uns anos, as professoras só possam casar com autorização do responsável máximo do ministério da tutela, tal como acontecida no tempo da antiga senhora.
- Tudo pode acontecer - disse gracejando a D. Rosalinda -. Não se esqueça que já houve alguém que previu (magnificamente) o regresso do botas, portanto, não se admire que as coisas possam a voltar ao que eram antes, se esse for considerado o caminho para o sucesso escolar.
- Só espero que não seja com recurso à menina dos cinco olhos que os alunos aprendam, por exemplo, todos os afluentes dos rios portugueses, a tabuada, as províncias ou as estações ferroviárias, como acontecia nesse tempo em que as crianças sabiam, porque a isso eram obrigados. Contudo, não esqueçamos, que na lancheira só levavam um pedaço de pão, que nem sempre era do dia, e metade de uma sardinha da cor da fome.

4 comentários:

papalagui disse...

Obrigada pela referência.

Leonor Barros disse...

Eu e a papalagui somos a mesma pessoa ;-)

recepcionista disse...

Parte da nossa/minha inspiração surge da leitura que fazemos/faço nos vários textos que se escrevem nos inúmeros espaços/fóruns a que temos oportunidade de aceder. O Geração-Rasca faz parte de um leque, não muito alargado, de sítios que privilegio nas minhas consultas/visitas, e é sem dúvida um espaço de referência, onde os que nele colaboram conseguem dar a quem os lê outra perspectiva, mais enriquecedora, da cultura humana, tanto no seu pior como no seu melhor, portanto, as referências que a outros e a ele faço nesta pensão só demonstra a ligação que tenho com ele(s) e aquilo que nele(s) contribuiu para a minha própria formação.
Bem-haja.

Leonor Barros disse...

Muito obrigada :-)

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