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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

AS ESTRELAS DE BALI

- Parece que em Bali as coisas estão um bocado "quentes", não achas Mário?
- Quentes e de que maneira Luís, principalmente depois da tomada de posição do presidente Bush em tentar protelar ainda mais as limitações às emissões de gases que contribuem para o efeito de estufa.
- Sabes Mário, acho uma perfeita parvoíce estarem a contar com aquele paspalho para decidirem alguma coisa em benefício do planeta.
- Tens razão Luís, aquele indivíduo não tem um pingo de vergonha e muito menos respeito pelo nosso futuro. A economia norte-americana está basicamente dependente do petróleo, tudo nela gira à volta do ouro negro e para ele impor regras severas às suas empresas é o mesmo que estar a ditar-lhes a morte prematura e a hipotecar o seu futuro político.
- Tudo bem, até pode ser assim Mário, mas não vamos sacrificar o equilíbrio ecológico do nosso planeta por existirem meia dúzia de energúmenos que temem pelas suas fortunas ironicamente construídas à custa dos constantes atentados contra o planeta.
- E se o presidente Bush não mudar de posição, a E.U. ameaça não comparecer na reunião agendada para o final de Janeiro no Havai.
- Alguém tem que tomar uma posição de força para ver se todos invertem a tendência poluidora a que todos estávamos habituados. Até mesmo Portugal ultrapassou em 15,8 por cento o limite de emissões estabelecidas pelo Protocolo de Quioto.
- Quando o exemplo vem de cima todos se sentem no direito de prevaricar, pena é que, para muitos e sobretudo para os mais pobres, o desenvolvimento, ainda depende das energias poluidoras e, no nosso caso, com estamos praticamente dependentes do exterior, estamos reféns dessas tecnologias que, apesar de baratas e poluidoras, contribuem para o nosso desenvolvimento.
- Olha amigo, enquanto eles não chegam a consenso, vamo-nos preparar para saborear o polvo no forno com batatas que a Susana confeccionou para o jantar e beber um espumante da "Quinta da Calçada Bruto" que a Cristina fez questão de aconselhar para acompanhar aquele magnífico manjar.
- Depois Mário, vamos esperar ter sorte com o céu para ver se conseguimos observar a chuva de estrelas que está prevista para esta noite.

foto: Yusuf Ahmed Tawil/Reuters

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

OS BURROS DO PAI NATAL

- Alice, parece que afinal também vamos ter a visita do Pai Natal.
- A sério Cristina, em que dia?
- Pelo prospecto que entregaram ao Mário, será no dia 22.
- Que beleza, pelo menos este ano vamos ter algo de diferente em Penacova.
- Diferente e de que maneira, vê lá tu que além do Pai Natal, também vai haver um espectáculo ao ar livre com vários personagens que vão percorrer as ruas da vila durante toda a manhã.
- Estou ansiosa para que chegue o dia 22.
- Mas há mais!!! O Pai Natal chegará de burro, acompanhado pelos seus ajudantes, e as crianças poderão dar umas voltinhas pelo Terreiro.
- Será um daqueles burros que normalmente são utilizados para fazer os passeios?
- Provavelmente será?
- Mas Cristina, há uma coisa que eu não compreendo, o Pai Natal não se faz transportar de trenó puxado por renas?
- Sim normalmente é o que acontece, mas numa terra em que abundam esses animais, é natural que os utilizem quando é necessário transportar alguém.
- E os ajudantes do Pai Natal, serão duendes?
- Talvez não, tudo depende do Pai Natal.
- Como assim Cristina?
- Se por exemplo o Pai Natal for o Presidente da Câmara, então os seus ajudantes serão, como é natural, os vereadores.
- E o burro?
- Bom, o burro....fica ao critério de cada um mas, a julgar pela abundância com que os vemos por aí, não será necessário puxar muito pela cabeça para imaginar quem seja.
I

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

ESTRELAS DE NATAL

- O Espírito do Natal começa a tomar conta de nós, não achas Alice?
- Acho sim Cristina. As pessoas começam a ficar mais simpáticas, mais compreensivas e mais tolerantes.
- Eu adoro quando vamos buscar os enfeites e começamos a pendurar as gambiarras e a preparar a Árvore de Natal. Todo este ambiente me faz lembrar os momentos que passava com a minha família e sobretudo com os meus irmãos, sempre ansiosos que estávamos por chegar a hora de abrir as prendas.
- Este ano a minha avó comprou uma enorme Árvore de Natal branca para colocar no centro da sala de estar, decorada com bolas vermelhas e com uma estrela igualmente grande e dourada.
- E onde vai ser construído o presépio?
- Normalmente é construído junto à recepção para que seja a primeira coisa que os hóspedes encontram quando entram na pensão. Além disso, o Mário gosta muito de ver todas aquelas miniaturas a movimentarem-se como se de uma comunidade ao vivo se tratasse e também por ali está, sempre que for necessário dar um jeito.
- Mas olha que este vai ser o fim-de-semana em que muitas localidades vão dar início aos festejos do Natal.
- Ai sim Cristina, então quais?
- Olha, por exemplo, estou a lembrar-me da Vila Natal em Óbidos da Feira de Natal na Lousã ou até mesmo do maior presépio animado do país em Penela.
- Que giro como alguns municípios se empenham em celebrar de forma diferente o Natal, aproveitando as características da sua paisagem e até mesmo a singularidade dos seus edifícios para os adaptarem à quadra festiva que se aproxima.
- E por cá Alice, como costuma ser o Natal?
- Olha Cristina, por cá as ruas são iluminadas, as crianças nas escolas têm as suas próprias festas e, além disso, pouco mais acontece. Aqui na pensão, decoramos tudo a preceito, saboreamos as rabanadas, as filhoses e as broinhas feitas pela Susana e vestimo-nos com aqueles pequenos gorros vermelhos que têm um pompom branco na ponta, sabes?
- Claro que sei e, confesso que me sinto muito bem assim. Gosto de transmitir a paz natalícia aos outros e, principalmente, aos nossos hóspedes.
- Olha, estás a ver esta Estrela de Natal?
- Sim estou, é grande e brilhante, faz lembrar a Estrela Polar.
- Foram os meus pais que ma deram para que todos os natais me lembre deles.
- E eles, onde estão?
- Estão na Suiça, país dos Alpes e da neve.
- Há muitos anos?
- Sim, há cerca de 12.
- Eras pequena então, quando eles foram.
- Sim, tinha apenas 4 anos, mas este ano vêm cá passar o Natal.
- Então, este Natal vai ser magnífico para ti.
- Assim espero Cristina.
I

domingo, 25 de novembro de 2007

BENFICA, PORTO E OUTRAS EMERGÊNCIAS

- Bom dia menina Alice.
- Bom dia Mário.
- Então menina Alice, correu bem o encontro de coros?
- Não correu mal Mário.
- Pelo menos, a julgar pela quantidade de carros que se encontravam no Terreiro, parece que tiveram uma plateia bem composta. E, além disso, já o salão estava aberto, com as luzes já acesas, tudo arranjadinho, o que só prova que em Penacova, o jazz não é apadrinhado pela classe política, embora se compromentam a fazer, atabalhoadamente, a sua divulgação.
- Sim, é verdade Mário mas, além disso tudo, as camisolas que o muicípio ofereceu desta vez, eram apenas camisolas e não vestidos, como no ano passado.
- Ainda bem que assim foi.
- Não foste lá Mário?
- Não menina Alice, preferi ficar aqui na pensão a ver o Benfica, ou melhor, a Académica, aquele grande clube.
Bom dia a todos, disse o Paulo quando entrou.
- Bom dia. - respondemos
- Então Mário, o Benfica lá ganhou à Académica!!!
- Parece que sim meu caro, para muita pena minha.
- Deixa lá que o Porto vai ganhar ao Setúbal.
- A ver vamos, a ver vamos.
- Então Paulo, que mandas?
- Olha, pode ser um café curto e um pastel de Lorvão.
- E novidades?
- Olha, fiquei contente por saber que o Paquistão foi suspenso da Commonwealth até regressar à democracia.
- Então, isso é fácil, agora o Musharraf vai chegar ao parlamento paquistanês e diz: "Meus amigos, a partir de agora, somos uma democracia" e ficam satisfeitas as exigências daquela comunidade e o Paquistão vê assim, pela segunda vez, a sua suspensão levantada.
- Sim, é mais ou menos assim que funciona mas, o que a Commonwealth devia ter logo feito, era impedir, ou pelo mesmo manifestar o seu repúdio, quando o Musharraf decidiu alterar as regras da democracia para se eternizar no poder decretando para isso o estado de emergência.
- E por cá meu caro amigo?
- Olha Mário, por cá achei interessante a entrevista dada ao Expresso, pelo Inspector-Geral da Administração Interna, Clemente Lima.
- Éh, eu também achei interessante, interessante e preocupante.
- Ainda há muita coisa que aqueles que são pagos para zelar pela nossa segurança têm que fazer para que nos inspirem confiança
- Olha Paulo, tenho um amigo que nunca foi à tropa, nunca disparou uma arma de fogo e, quando acabou o curso de polícia, mandaram-no para a rua fazer patrulha com uma arma à cinta com a qual apenas tinha dado tiro duas vezes. Diz-me só se esse agente da autoridade, estava em condições de defender alguém ou de se defender a ele?
- Não se admite que as coisas sejam encaradas assim com tanta ligeireza. Depois é o que se vê, mortes acidentais, tanto de um lado como do outro, excesso de autoridade com as tendências violentas que lhe estão adstritas e, por fim, o excesso de corporativismo que impede o apuramento de responsabilidades.
- É muito complicado. Então e aquele sujeito que estava aqui na quinta-feira a falar contigo acerca do caso Esmeralda?
- Aquele que reflectiu duas vezes sobre o assunto?
- Sim Mário esse, por acaso achei interessantes as posições dele acerca do assunto. Revelou-se uma pessoa esclarecida e com opinião formada, pena é que não tenha dito quem era.
- Pois é Paulo, às vezes é assim, aparecem, conversam um pouco e depois vão-se embora sem sequer dizer quem são.
- Pode ser que volte.
- Pode ser que sim, é sempre agradável ter um interlocutor tão esclarecido.
- E talvez até se identifique.
- Isso era óptimo Paulo, isso era óptimo.
- Olha Mário, que interessante, só agora reparo que na televisão da pensão está a passar mais uma daquelas iniciativas levadas a cabo pela Greenpeace para, mais uma vez, alertar o mundo para o problema do aquecimento global.
- Sim Paulo, é mais uma tentativa das muitas que aquele organismo leva a cabo para alertar ou sensibilizar, os poderosos.
- Sabes Mário, eu acho que os poderosos não são sensíveis a esse ponto, infelizmente.
I

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

CANTORIA DA LEGALIDADE

- Avó, posso fazer-te uma pergunta?
- Claro que sim minha filha.
- Achas que a menina Esmeralda vai ficar bem o pai biológico?
- Bom minha querida, as crianças devem estar sempre com os pais, biológicos ou não, desde que eles as eduquem, não as maltratem e nem delas abusem.
- Então, nesse caso posso concluir que concordas com a decisão do tribunal?
- Se estiver de acordo com a legalidade, sim, concordo.
- É interessante essa coisa da legalidade... Quer dizer então,
que os sentimentos das pessoas, aos olhos da Lei, pouco importam, não é?
- Olha minha querida, eu não sou jurista, mas acho que, se todas as pessoas tivessem a oportunidade de considerar de sua propriedade um ser humano que, biologicamente, sabem não lhes pertencer, creio que estaria aberto um precedente.
- Desse modo, o caso da pequena Esmeralda pode servir de exemplo?
- Sim, talvez para prevenir situações futuras.
- Olha avó, queria perguntar-te outra coisa.
- Hoje estás muito perguntadeira, o que queres saber?
- Achas que os meus pais vêm cá este Natal?
- Olha minha filha, espero que no Natal e no Fim-de-Ano.
- Estou com muitas saudades deles, dos carinhos do papá e da mamã....
- Está descansada que virão, aliás, como sempre fazem.
- Espero por eles a toda a hora.
- Também eu minha filha, também eu.....e por falar em hora, não achas que já devias estar na cama?
- Já é tarde, tens razão avó, mas ainda tenho que ir treinar um pouco a minha voz.
- Oh filha, olha que amanhã tens que te levantar cedo e, além disso, sabes como fica a Luísa quando tu a acordas com as tuas cantorias.
- Mas avó, a actuação é no Sábado às 21 horas e, começo a ficar nervosa.
- Não te preocupes com isso porque, até lá, ainda vais ter muito tempo, além disso estás a ficar constipada e tens que ir para a cama logo depois de beberes o leite quente com mel.
- Tens razão avó, acho que vou mas é descansar.
- Mas olha, se cantares, canta só para ti.
- Está bem avó, um beijo.
I

terça-feira, 20 de novembro de 2007

CHEIAS REAIS

I
- Afinal D. Rosalinda, a chuva não fez muitos estragos para a nossa zona.
- Pois não Mário, mas no Alentejo o mau tempo ainda provocou umas quantas inundações.
- Em todo o caso D. Rosalinda, o verdadeiro Inverno ainda não começou, embora as autoridades alertem para a possível ocorrência de situações adversas até amanhã.
- É perfeitamente natural que isso venha a acontecer mas, mesmo que aconteça, nunca se irá comparar aos rigorosos Invernos que ocorriam quando eu era mais nova.
- A Srª. lembra-se como eram esses Invernos?
- Óh se lembro, era tanta a chuva que as margens do Mondego invadiam as ínsuas quase entrando pela porta das casas dentro.
- Por falar nisso D. Rosalinda, ainda há pouco, quando estava a dar uma olhada nas minhas fotografias antigas, peguei numa que retratava precisamente essa época. Nela, a "Barca do Concelho" aparece rodeada de água como se duma ilha se tratasse.
- Deixe ver se me recordo Mário.
Pegando na foto, a D. Rosalinda quase chorou, não pela fotografia em si, mas pelas memórias que lhe traziam aquela imagem.
- Olha Mário, neste tempo, apenas as barcas conseguiam garantir o transporte das pessoas, eram épocas em que a pobreza ainda era uma constante, principalmente junto às zonas ribeirinhas. Hoje, com a Barragem da Aguieira tudo mudou, as cheias já não nos afectam tanto, os caudais são controlados e, claro, as pessoas andam mais descansadas.
- Mais descansadas diz a Srª., olhe que quando os técnicos fazem estimativas, muitas das vezes são apanhados desprevenidos porque não contam com a imprevisibilidade da natureza, não conseguindo por isso evitar o pior.
- Tens razão Mário, basta recordarmos o que aconteceu no Baixo Mondego em 2001 para percebermos que a natureza, às vezes, nos prega umas partidas, revelando toda a sua força e capacidade destrutiva.
- E o que é que acha relativamente à fotografia?
- Queres a minha opinião?
- Claro que sim D. Rosalinda.
- Acho que fica muito bem ao lado das outras que, na pensão, mostram as paisagens e os locais de interesse de Penacova.
- Também achei que sim mas primeiro pretendia ouvir da sua boca essa sugestão e, nesse caso vou já tratar de a emoldurar para depois a pendurar.
I

terça-feira, 13 de novembro de 2007

OS CAPRICHOS DO MINISTRO

O Luís acabava de chegar à pensão, vindo acompanhado pelo António. Ambos são funcionários públicos e, desde que provaram os magníficos pratos confeccionados pela Susana e depois de saberem que a Cristina era especialista em vinhos, tornaram-se clientes habituais da pensão. Almoçavam, quando calhava, jantavam e, de quando em vez até pernoitavam. Pelo semblante carregado que traziam, reparei que não vinham para muitas falas e, como bom recepcionista que pretendo todos os dias ser, apenas lhes dei as boas-noites sem esperar alguma resposta, que inesperadamente acabou por vir. Educadamente, acompanhei-os à mesa onde habitualmente gostam de estar, quer seja ao almoço ou ao jantar.
- Inadmissível Luís, uma coisa nunca vista!!!!
- Tens toda a razão António, e o mais caricato de tudo é que isto só acontece normalmente naqueles países africanos, com muitas riquezas no subsolo e com níveis de desenvolvimento e educação muito baixos. Nesses países é que os governantes, enquanto exigem ao povo que representam, contenção nas despesas, maior flexibilização das regras laborais, com a consequente precariedade do vínculo laboral e lhes dão cada vez mais piores remunerações, exibem os mais recentes modelos, quer de automóveis, quer de "gadgets", quer de fatos feitos por costureiros famosos, como se de uma demonstração de uma passarele se tratasse.
- E o mais ridículo e insuportável de tudo, é tratar-se de um governante cujo ministério que tutela é um dos que menos condições oferece, tanto aos funcionários que para ele trabalham, como aos contribuintes que, por obrigação, têm que frequentar os serviços públicos do seu ministério.
- Não vás mais longe António, no tribunal da nossa terra, os funcionários que lá trabalham, de tão pouco e miserável espaço que têm, estão em cima uns dos outros e movem-se com extrema dificuldade, tal é a confusão em que aquilo se encontra. Tu por acaso achas que uma qualquer empresa privada conseguiria o alvará necessário para laborar, se por acaso a sua sede tivesse aquelas condições? Nunca na vida!!!
- E anda um ministro desses num automóvel topo de gama, quando o contribuinte que lhe paga o ordenado a fim do mês, tem que andar a pé ou porque não tem dinheiro para o combustível, ou porque não tem dinheiro para o bilhete do comboio que, ao que sei, vai aumentar mais 30 cêntimos.
- Mas Luís, o edifício onde está instalado o Tribunal de Penacova, nem sequer pertence ao ministério da justiça.
- Áh não, então a quem pertence?
- À autarquia, claro!!!
- Então nesse caso, também tem "culpa no cartório".
- São tão bons uns como outros e, quando o assunto não interessa, sacodem a água do capote e saiem, ou pensam que saiem, ilesos da situação.
- Mas António, também está para breve o fecho do Tribunal em Penacova, não está?
- Claro que está Luís, mas o que mais me espanta, é que ninguém diz nada, ninguém apresenta soluções ou alternativas, admira-me, por exemplo, um concelho como o de Vila Nova de Poiares, com uma área menor à da freguesia do Lorvão, consegue em cerca de 5 anos, instalar na sede do concelho, um julgado de paz e uma esquadra de polícia municipal!!!
- Sabes porquê António, porque o Jaime Soares não se chama Maurício e, ao contrário do nosso, tem feito por aquele concelho o que este nunca faria, nem que estivesse lá a vida toda.
- Tens razão Luís, o concelho de Vila Nova de Poiares tem uma pujança que o de Penacova nem daqui a vinte anos consegue alcançar.
- E sabes porquê António, porque os que governam em Poiares são de lá e gostam de lá estar, fazendo daquele concelho um sítio agradável, enquanto os daqui são uns palermas, sempre ao olhar para o relógio a ver se chegam as horas para se irem embora.
- Podiam era ir-se embora definitivamente em vez de andarem para aí a tentar colocar piso sintético nos campos de futebol, como se isso fosse sinónimo de progresso.
- Mas não vão porque os penacovenses são uns tótós, se lhe derem umas concertinas, uma castanhas e uns pipos de vinho para se entreterem, não pensam em mais nada.
- Olha Luís, quando vim trabalhar para Penacova, há já vinte anos, gostei muito da terra quando cá cheguei. Muito pacata, como belas paisagens e gente simpática. Passados esses anos todos, continua a ser muito pacata, a ter belas paisagens e as pessoas continuam a ser simpáticas.
- Sabes António, é para não te desabituares.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

BARRICAS OLEOSAS

A Susana veio dizer-me à recepção que, caso aparecesse alguém para entregar umas barricas de plástico, a avisasse.
- Barricas como?
- Barricas grandes e cinzentas.
- Mas para que é que tu queres isso?
- Então não sabes que a nossa autarquia assinou ontem um protocolo com uma empresa que transforma óleos alimentares usados em biodiesel e agora essa empresa anda a distribuir os recipientes para, no nosso caso, colocarmos o óleo que utilizamos na pensão.
- Mas a D. Rosalinda sabe disso?
- Claro que sim Mário, até foi ela que pediu ao engº. Pedro Marceneiro que lhe fosse entregue, ainda hoje, uma ou duas daquelas barricas.
- Engº. Pedro Carpinteiro, rapariga!!!
- Ou isso, mas não interessa o nome do homem, o que interessa é que ele está muito entusiasmado com a ideia e vai oferecer barricas a todos os estabelecimentos de restauração existentes no nosso concelho.
- Bom Susana, se o entusiasmo manifestado na recolha de óleos alimentares for tão grande como o entusiasmo manifestado na recolha do papel, do vidro ou do papelão, então estamos desgraçados porque nunca, nas nossas viaturas, vamos colocar uma única gota desse biodiesel.
- Não sejas mau Mário, a nossa autarquia até se tem esforçado por pôr em prática uma política eficaz de recolha de desperdícios recicláveis.
- Não noto nada Susana. Então admite-se que, por exemplo, junto à Escola Beira Aguieira, um local onde todos os dias se produz desse lixo biodegradável, não exista sequer um ecoponto.
- Pois, realmente não se admite, mas também não podemos exigir que eles coloquem ecopontos em todo lado.
- Claro que não Susana, apenas que os coloquem nos locais onde são mais necessários.
- Pronto está bem Mário, parece que tens sempre razão. Não te esqueças é de me chamar, quando chegar o homem com as barricas.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

RESISTENTES

Quando hoje, a caminho do meu atelier, passei perto da vila de Penacova, no IP3 e sobre o rio Mondego, fui sobrevoado por um bando de Patos ou Gansos que, numa formação em V, subiam o rio, enfrentando uns farrapos de nevoeiro que resistia à secura destes dias.
No IP3, carros e camiões faziam o exercício diário da paciência, uns rumando Norte, outros rumando o Sul, mas todos eles artificiais, envoltos em fumos, alguns deles a roer as unhas, outros a praguejar destinos e a mimar os outros condutores com palavras amargas de volante.
Quis ir com os patos, mesmo enfrentando o frio matinal, mas sobrevoando as águas e as árvores em silêncio.
O líder abria caminho sem hesitação e atrás dele, algumas dezenas de semelhantes batiam asas em ritmo certo, buscando boas paragens ignorando o ruídos dos homens e a sua ganância.
Bichos resistentes que desafiam a paulatina entrega ao caos do mundo em que (ainda) vivemos, num jogo de possíveis que recomeça todos os dias enquanto a vontade e a força assim o quiserem.
Resistir, mesmo sendo difícil, é sinal de vida!
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Crédito da foto: aqui

domingo, 4 de novembro de 2007

EM CIMA DO JOELHO

A D. Rosalinda entregou-me uns pequenos livrinhos sobre Penacova para colocar em cima do balcão da recepção e também nos outros espaços da pensão onde os hóspedes gostam de passar um pouco do seu tempo a relaxar. Depois de os desfolhar rapidamente, a primeira impressão que tive foi positiva, tinham a capa brilhante, em tons de azul e, ao tacto, senti que o papel era de qualidade, quanto ao grafismo, também houve alguma preocupação em escolher um tipo de letra agradável e adequado ao fim que se pretendia atingir com aquela edição. No que respeita à parte que ficou a cargo da empresa encarregue de produzir o trabalho, nada há a dizer porque, parto do princípio que o fez de acordo com as orientações de quem o pagou e de certeza que se preocupou em manter ou aumentar o seu prestígio. Já quanto a quem teve a ideia e forneceu os elementos e as informações que iriam constar daquele "veículo" de promoção de Penacova, não posso dizer o mesmo.
- Lamento D. Rosalinda mas, após esta breve olhadela, não os vou poder colocar à disposição dos nossos hóspedes.
- Então porquê Mário?
- Olhe D. Rosalinda, em primeiro lugar, quem forneceu as informações que neles constam não o fez correctamente, deturpando algumas delas. Em primeiro lugar, permitiu que fosse impresso um brasão de Penacova que, embora se pareça, não corresponde ao verdadeiro, o que demonstra não estar minimamente informado e, mais grave ainda, estar a prestar uma informação falsa a quem, desconhecendo, pensa ficar a conhecer. Limitou-se assim a indicar o sítio onde esse brasão (erradamente) aparece o que, naturalmente, lhe deu muito menos trabalho. Em segundo lugar, apenas são identificados, com fotografia, os autarcas de três freguesias das onze que o concelho de Penacova tem, transmitindo a sensação de que, ou os outros são todos feios e as suas caras apenas serviriam para espantar os turistas da freguesia que representam ou então a "obra" que fizeram foi de tão baixa qualidade que, pensaram eles, seria melhor não os dar conhecer, para assim evitar possíveis represálias. Em terceiro lugar, e como não podia deixar de ser, a inevitável gaffe. Em vez de se fazer referência ao EXECUTIVO da junta de freguesia de Penacova, faz-se referência à EXECUTIVA, não que eu tenha algo contra o sexo feminino, muito pelo contrário, apenas a prova de que, por parte da autarquia houve urgência em distribuir um documento sobre Penacova, sem que, previamente, tenha havido uma rectificação dos eventuais erros. Em último lugar, mas não menos importante, destaco o facto de se fazer publicidade a, pelo menos, uma empresa cuja gerência é da responsabilidade de um dos autarcas eleitos para uma das onze freguesias do nosso concelho, logo, fácil é de concluir, que, talvez não inocentemente, se tentou favorecer uma empresa que é gerida por um autarca em exercício de funções o que, naturalmente não é admissível.
Além do mais, a informação sobre Penacova em nada diverge da já existente. É feita referência aos já conhecidos monumentos que (sem dúvida) enriquecem o património do nosso concelho, às romarias que durante o ano animam a gentes de cada terra e, quanto a eventos mais ousados como o Festitradições ou a Capital da Lampreia, duas linhas chegam para os descrever e dar a conhecer portanto que, em Penacova, nada de novo.
- Se assim é Mário, tem toda a razão, arrume-os debaixo do balcão da recepção e ficaremos a aguardar pelas verdadeiras novidades, se é que algum dia isso vai acontecer. Entretanto, assim que tiver oportunidade, devolva-os à procedência.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

POR FIM, ENFIM, NUNCA MAIS

A D. Rosalinda abordou-me no sentido de me perguntar se eu estaria interessado em aprender algo mais acerca do "maravilhoso mundo dos vinhos".
- Bom D. Rosalinda, como recepcionista que sou, não vejo que me possa ser muito útil adquirir conhecimentos mais alargados nessa área.
- Mas está redondamente enganado Mário, hoje em dia, qualquer pessoa que trabalhe numa pensão com as características na "nossa", deverá estar preparado para acorrer a qualquer situação, sempre que lhe seja solicitado.
- Tem toda a razão D. Rosalinda, mais do que nunca, ter um conhecimento alargado sobre as práticas de bem servir e receber que fazem parte do mundo da restauração e do alojamento, são uma necessidade face à concorrência cada vez maior.
- Mas Mário, não se preocupe com a concorrência porque, a maior unidade hoteleira da nossa terra, o Hotel Palacete do Mondego, vai encerrar definitivamente.
- Não diga uma coisa dessas D. Rosalinda!!!
- Verdade Mário, as negociações que estavam a decorrer entre a Santa Casa da Misericórdia e o grupo de ingleses que se mostrou disponível para gerir aquele complexo, não levaram a lado algum por, segundo se diz, aquela instituição ter pedido um preço demasidado elevado.
- Bom, nesse caso, não existe esperança para aquele magnífico hotel.
- Pelo menos é essa a realidade ventilada.
- Mas D. Rosalinda, a Cristina, como chefe de sala da pensão, não satisfaz as exigências dos clientes na área da restauração?
- Claro que faz Mário, não o vai é fazer aqui por muito mais tempo porque está decidida a emigrar para a Inglaterra, onde irá trabalhar para um grande grupo hoteleiro.
- Pois agora percebo porque motivo é que a Srª. está a propor-me um aprofundamento de conhecimentos acerca do "néctar dos deuses".
- Naturalmente que sim meu caro e, se aceitar, poderei inscrevê-lo, desde já, no Curso de Iniciação à Prova de Vinhos que vai decorrer nos dias 23 e 24 de Novembro no Hotel Moliceiro em Aveiro.
- Bom D. Rosalinda, nesse caso, aceito o convite com todo o gosto.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

OUTONO

A D. Rosalinda é uma daquelas pessoas cheias de palavras e gosta de as libertar quando elas lhe enchem o saco das conversas.
- Sabe, Sr. Arquitecto, eu não gosto do Outono. Está tudo muito quieto. Parece que os dias nos andam a dizer para ficarmos mais frios, mais mal dispostos, menos atentos à paisagem... É quase como se nos tivessemos embebedado com o Verão e agora estamos a curar a ressaca dos excessos do estio.
- Oh D. Rosalinda, a senhora faz-me lembrar uma música do Fausto! Não, eu não vou cantar para não a assustar. Deixo-lhe os versos:
"Rosalinda se tu fores à praia,
Se tu fores ver o mar,
Cuidado não te descaia,
O teu pé de catraia,
Em óleo sujo à beira mar!"
- Mas oh senhor Arquitecto, aqui não há mar, só há o Mondego!..
- Bem sei, disse. Mas olhe que junto a ele, tenha cuidado. Ele já esteve mais limpo! Mesmo que não haja óleo, pode haver latas, frigoríficos, fogões, plásticos e outras utilidades...
D. Rosalinda sorriu um pouco amareladamente e vergou-se a um silêncio estranho e com que não contava! Ainda assim, eu rematei para a tentar sossegar:
- Olhe, para combater a sua "azia" outonal, partilho consigo esta imagem, obtida há 2 ou 3 dias, junto ao Mondego, e que nos mostra que esta Penacova é bonita em qualquer altura do ano. Até no Outono que a D. Rosalinda gosta pouco.
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(c) Arquitecto

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terça-feira, 23 de outubro de 2007

RADICAIS LIVRES

Como habitualmente acontece, gosto de visitar o site do nosso município para ficar ao corrente dos eventos que vão tendo lugar neste concelho de Penacova. Na visita que hoje por lá fiz, fiquei agradavelmente surpreendido ao ter conhecimento que, no próximo fim-de-semana junto ao açude do Rio Mondego, quase em frente do Porto da Carvoeira, se vai realizar um evento radical. Designa-se por Freestyle Kayak e a organização está a cargo da Federação Portuguesa de Canoagem, em colaboração com outras entidades a quem caberá, naturalmente, proporcionar o sucesso daquela iniciativa.
Lembrei-me das primeiras "pagaiadas" que dei em cima de um kayak. Na altura, há mais de 20 anos, com outros rapazes da minha idade, recebíamos do prof. Canhão e dos seus assessores, os necessários ensinamentos para nos mantermos o mais tempo possível a flutuar em cima daquela coisa que teimava em não se equilibrar (tipo touro de rodeo). Depois, era como andar de bicicleta, nunca mais de desaprendia e passava a ser um divertimento para todos nós e um desassossego quando ficávamos na areia à espera da nossa vez.
- Imprima um exemplar desse cartaz a cores para afixar no placard da pensão.- disse a D. Rosalinda.
- É já de seguida D. Rosalinda. - respondi de imediato.
- E não se esqueça de o colocar num lugar de destaque, para que os nossos hóspedes tomem conhecimento desse acontecimento. - disse a D. Rosalinda.
- Concerteza D. Rosalinda. - respondi novamente, preocupado em alinhar as folhas na impressora.
- E não se esqueça de avisar a Luísa para preparar os quartos do 2º andar, pois queremos que os participantes fiquem confortavelmente instalados. - continuou a D. Rosalinda
- Fique descansada D. Rosalinda que já está tudo a ser tratado. - respondi eu já com dois pioneses numa mão e com o cartaz na outra em direcção ao placard da pensão.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

CORTANDO O MATO

A Cristina já tinha dado uns passeios por alguns dos sítios mais bonitos de Penacova. Foi ao Reconquinho, ao Penedo do Castro e também ao Mirante, disse-me que andava a tentar construir mentalmente um percurso onde pudesse praticar o seu corta-mato diário. A Cristina é natural de Vildemoinhos, Viseu, terra que viu nascer o nosso mais internacional atleta, Carlos Lopes, por isso, não é de estranhar, que também ela se dedique a praticar a modalidade que fez daquele extraordinário atleta o campeão mundial em 1976, 1984 e 1985.
Hoje, sem excepção, a Cristina saiu por volta das 17 horas em direcção a um desses percursos que entretanto consegui elaborar. Penacova com montes e vales a perder de vista e frescos planos à beira do rio, é óptima para a prática dessas e doutras modalidades fazendo as delícias de qualquer atleta. Em tempos, destacaram-se nesta terra indivíduos que, do nada, conseguiram competir ao lado de importantes nomes do atletismo português, lembro-me do Mário Marcelo, do Mário Linhares e do Fernando Sêco, quando corriam com as cores da Casa do Povo, no tempo do Sr. José Pimentel, eu próprio ainda consegui um 2º lugar numa prova de atletismo que decorreu nas Torres do Mondego, à custa, diz a minha mãe, de um cão que não parava de ladrar atrás de mim (coisas de mãe). Hoje, os clubes dedicam-se mais ao futebol, talvez à procura de uma forma mais rentável que os ajude a sobreviver neste presente incerto para tantas colectividades.
Quando a Cristina saiu, eu e a menina Alice jogávamos a nossa habitual partida de xadrez, reparei que o equipamento que vestia, denotava alguma preocupação em se proteger e em tirar o melhor rendimento do seu desporto de eleição.
- A Cristina vai muito bem equipada! - exclamava a menina Alice
- Claro - disse eu -, se o que ela pretende é obter o máximo rendimento sem se prejudicar fisicamente, então tem que se equipar convenientemente.
Escusado será dizer que o meu pensamento foi com a Cristina o que, naturalmente, provocou um ataque furtivo ao meu Rei, mal protegido, por um (simples) Bispo e um posterior xeque-mate com a Rainha, inocentemente deixada à vontade.
Quando chegou, isto passado 1 hora e meia, a Cristina vinha como devia vir, toda suada e algo cansada, mas não muito, o que me levou a concluir que o seu organismo já estava habituado a percorrer grandes distâncias. Subiu para tomar um duche e, quando desceu, já vinha fresca como um alface, perguntando que obras eram aquelas que estavam a decorrer junto aos bombeiros.
- Olhe Cristina, para lhe ser franco, nem lhe sei dizer muito bem. - respondi
- Parece-me um circuito de manutenção. - disse algo entusiasmada.
- Sim, creio que sim, creio que é algo desse género - esclareci -, mas mesmo que a queira ajudar não consigo porque, no local, não fazem qualquer referência ao que dali vai sair.
- Bom...., mas se estão com intenções de fazer algo desse género, pelo menos, deveriam colocar no local um painel informativo acerca do objectivo daquele movimento de terras, acerca de quem o projectou, por quem está a ser levado a cabo e para quando se prevê a finalização da obra. - disse a Cristina.
- Sabe Cristina, em Penacova pouco se sabe acerca daquilo que se passa, os responsáveis vão fazendo o que consideram mais prioritário e os munícipes, um pouco alheios ao que se passa, vão vendo e tentando adivinhar o que vai acontecendo para depois avaliarem o impacto da nova realidade que, de certa forma, lhes é imposta. - disse eu.
- Sim compreendo, ou melhor, não compreendo mas, tudo bem, para mim é suficiente poder aproveitar estas condições que por aqui existem e praticar o meu desporto preferido, é pena que não exista informação suficiente para quem, não sendo de cá, pretenda aproveitar estas magníficas condições. - disse a Cristina enquanto se afastava para tratar da vida dela, ou melhor, do bem-estar dos nossos hóspedes.

domingo, 21 de outubro de 2007

DE LORVÃO ATÉ AO MAR

A Luísa desceu toda aperaltada como se para uma festa fosse. Perguntei-lhe se ia para algum casamento e ela respondeu (muito bem) que não era necessário um casamento para se "produzir" assim.
Confesso que, por momentos, não conhecia a Luísa que todos os dias vejo vestida de bata e com o cabelo apanhado, hoje parecia-me mais solta, mais fresca e com uma carinha mais laroca. Ainda dizem que um pouco de baton, rímel e alguma maquilhagem não realça aquela beleza que todas as mulheres têm.
- Olhe Mário, vou à missa ao Mosteiro do Lorvão. - disse a Luísa
- Mas a que propósito? - perguntei eu
- Então Mário, não sabe que, naquela vila, durante todo o fim-de-semana, estão decorrer as Festas das Rainhas Teresa e Sancha e que hoje, pelas 11 horas, vai ter lugar uma solene eucaristia, presidida por S. Reverência o Bispo D. Ximenes Belo
- Bom...- disse eu -, que estão a decorrer as festas em honra das santas rainhas eu sei, não sabia era que iria ter lugar, na igreja daquele mosteiro, uma eucaristia presidida por tão distinta personalidade.
- É verdade Mário - disse a Luísa -, e é para lá que eu vou mal chegue o meu António.
- Quer dizer que não vens almoçar à pensão. - depressa conclui.
- Lógico Mário. Depois vou passear com o António até, quem sabe, à Figueira da Foz para ver o mar. - disse a Luísa
- Fico muito contente por vós e parece que vão ter sorte pois o dia está solarengo, coisa que normalmente não acontece nos meses de Outubro. - disse-lhe eu, enquanto preparava a taça de ração para o Riças que, de tanta vontade de comer que tinha, não saía da porta da cozinha só para sentir o cheirinho da chanfana que já começava a tomar conta de (quase) toda a pensão e que nos deixava a todos com água na boca.
I

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

ACIMA DAS NUVENS


A D. Rosalinda faz questão de manter intactas as máquinas fotográficas que o Sr. Ricardo possuía enquanto fez parte do mundo dos vivos. Era um hobby que exercitava constantemente tirando fotografias a tudo aquilo que o rodeava, desde que, como é natural, lhe interessasse e de preferência se o motivo fosse Penacova e as suas belezas.
Depois de cada sessão fotográfica, corria até ao laboratório mais próximo e, sem perder tempo, regressava de imediato à pensão para pendurar as fotos que considerava mais belas porque assim, dizia ele, "os hóspedes poderiam apreciar a beleza de Penacova, sem ter de sair da pensão".
Desde que nos deixou, as fotografias que se encontram penduradas nas diversas paredes da pensão, nunca mais foram substituídas, fazendo com que, desde essa altura, Penacova tivesse parado no tempo, tal como a bela adormecida, contudo não perdeu a beleza com o passar dos anos porque, acima de tudo, o Sr. Ricardo preocupava-se em escolher o papel fotográfico de melhor qualidade para que as fotografias se mantivessem lindas e brilhantes como no primeiro dia.
A D. Rosalinda já tinha tocado no assunto. Disse que, em conversa com a menina Alice, gostava de voltar ver fotografias sobre Penacova para, por um lado, renovar as fotos e, por outro, dar a conhecer aos hóspedes uma Penacova mais actual. Ao saber pela Susana do meu fraquinho pela fotografia, perguntou-me se eu estava na disposição de continuar o "trabalho" que o seu defunto esposo havia começado, respondi-lhe que sim, que o fazia com todo o gosto mas que não prometia uma qualidade tão boa como a do Sr. Ricardo.
- Vá lá Mário - disse a D. Rosalina -, você sabe tão bem quanto eu, que tem fotografias muito interessantes na sua colecção e que podia partilhar connosco.
- Bem sei D. Rosalinda, mas não prometo substituir todas as que existem na pensão de um dia para o outro. - disse-lhe eu.
- Claro que não Mário, nem é esse o objectivo, porém se o for fazendo aos poucos, de certeza que, qualquer dia, vai conseguir criar uma boa colecção e quem sabe até fazer uma exposição na pensão com os seus amigos que, tal como você, gostam de fotografia. - disse ela -
Então está bem D. Rosalinda - disse-lhe eu -, nesse caso, vou começar já hoje a expor aquelas que tenho.
Corri a buscar a minha pequena máquina digital e, de imediato, imprimi uma foto sobre Penacova, por sinal uma daquelas que eu mais gosto.


II

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O SR. ARQUITECTO

- O Sr. arquitecto é muito boa pessoa, não acha Mário? - perguntava a D. Rosalinda.
- É sim, D. Rosalinda - respondi eu -, conheço-o há mais de 20 anos e sempre o achei uma pessoa cordata, inteligente, amigo do seu amigo e, como acabou por dizer, esclarecido acerca destas coisas do ambiente e da forma como pode ser aproveitado para a realização de eventos futuros nesta terra que igualmente bem conhece.
- E também acerca de como nós podemos contribuir para o melhorar. - disse a menina Alice enquanto comia a sua fatia de pão de forma, torrada e barrada com manteiga.
- Ainda bem que ele decidiu passar mais vezes na pensão, talvez necessite de um pouco de tranquilidade e conforto e essas duas coisas, nesta pensão, são aquilo que mais temos para oferecer. - disse eu enquanto dava uma goladinha no chá de camomila ainda quente.
A Susana ouvia-nos enquanto preparava o molho bechamel e, curiosa, perguntou se o Sr. arquitecto por cá iria ficar durante uns tempos.
- Concerteza que vai - respondeu a D. Rosalinda -, não foi por acaso que reservou um quarto na pensão. Além disso - continuou -, é uma pessoa bem distinta, capaz de contribuir para manter o bom nome da pensão.
- Tem toda a razão D. Rosalinda - disse eu não tirando os olhos da Cristina -, estou completamente de acordo consigo, quanto à personalidade do Sr. arquitecto e quanto ao facto da sua presença, enriquecer ainda mais a pensão.
Entretanto a Cristina escolhia o vinho para acompanhar o jantar de hoje. Manejava cuidadosamente as garrafas, bem sabendo que, quanto mais velho for o vinho, mais frágil se torna.
- Então Cristina, qual vai ser o vinho que vais escolher para hoje? - perguntei.
- Olha Mário, como a Susana nos vai presentear com um magnífico lombo de novinho com cepes, optei por um tinto ribatejano de 2003 da Quinta do Falcão, ideal para pratos de carne bem condimentados.
- Muito bem - dissemos todos em uníssono, já a pensar na sorte dos hóspedes que optaram por cá jantar.

QUARTO COM VISTA

Gosto de vir a Penacova.
É um local pacato, que contrasta fortemente com o barulho da cidade onde habito e trabalho.
Esta pensão enche-me, por isso, as medidas do descanso e da tranquilidade.
Numa cadeira posta na varanda, vejo o rio Mondego a correr vagaroso para a foz, vejo um areal agora jazido de vazios, depois de um Verão com gambiarras, piscinas infantis e a animação dita possível.
O recepcionista, atento e simpático, sempre que aqui venho, lá me avisa da pasmaceira do costume e de como as coisas ou não correm ou correm devagar. Às vezes não me importo e até o desejo. O progresso (uma palavra com tão diversas aparências) nem sempre é bom sinal. Há por aí muita modernidade miserável a tentar explicar que não o é...
Voltando à varanda, admiro a paisagem recortada de serras e vales e pelo errático traçado do mondego. Respiro fundo e lanço o olhar para o infinito.
Para nós, Arquitectos, todas as formas da natureza são potencial para a criação de espaços e ambientes. E aqui em Penacova, a Arquitectura tem mil e uma razões para poder ser bela.
Pelo que vejo e conheço, pouco é!

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O PÚBLICO DA PENSÃO

Hoje, como em qualquer segunda-feira, regressam os hóspedes do fim-de-semana. A agitação é sempre maior do que o normal, todos vêm carregados com malas e malinhas, casacos e casaquinhas e, com muito carinho, trazem alguma coisa que lhes faça lembrar a terra, principalmente a partir de quarta-feira, dia em que a saudade mais aperta. Escusado será dizer que, tanto no bar como na recepção ou até mesmo na sala de jantar ou de jogos da pensão, o número de hóspedes é muito maior. Na cozinha a Susana tem que contar em confeccionar mais refeições, a Luísa tem que dedicar mais tempo aos quartos e a Cristina, que se estreia na pensão, tem a oportunidade de mostrar aquilo que apreendeu enquanto se formou como chefe de sala.
Até ver, as coisas estão a ir muito bem. Todos os hóspedes estão satisfeitos, tanto com o serviço da pensão como com a nova aquisição. Dizem eles que a Cristina "é a cereja em cima do bolo" ou "o elemento que faltava para completar a equipa de profissionais extraordinários que trabalham na pensão".
A D. Rosalinda não resistiu a tanto elogio e, como agradecimento, fez questão de oferecer um "Pastelinho de Lorvão" aos hóspedes que se mantiveram na sala de jantar para além das 14 horas.
Entretanto, o telemóvel da pensão emite o sinal de mensagem recebida. Hoje em dia, por norma, todos os que querem contactar com a pensão, ou para reservar ou para cancelar ou para enviar facturação, fazem-no para a caixa do correio do telemóvel ou do computador. Os tempos do suporte de papel, já quase fazem parte do passado o que, só por si, muito contribui para um ambiente mais saudável, contudo, esta não era uma mensagem habitual, nem eu estava à espera de receber tão importante informação via sms (short message system) - "A Pensão Viseu já chegou aos Blogues de papel do Público. Edição de hoje. Parabéns" - O remetente era o Luís que, ao desfolhar aquele jornal, verificou que nele se fazia referência a esta unidade hoteleira. De imediato fui ter com a D. Rosalinda que, ao ler tão inesperada mensagem, tratou logo de mandar a Luísa ao quiosque comprar a edição impressa daquele diário.
É uma muito importante referência, sinal de que a pensão já é um local onde muitas pessoas encontram algo de especial a ponto de a sugerir a outras que, tal como elas, procuram algum conforto e relaxamento junto às águas calmas e silenciosas do Mondego.
A menina Luísa fez questão de, delicadamente, destacar a folha onde estava a mensagem da pensão para, segundo disse, colocar no livro de recortes da pensão ou, quem sabe, fazer um poster para colocar numa suas das inúmeras paredes. Quanto a mim, sinto-me muito lisongeado por contribuir para o sucesso deste lugar onde, acima de tudo, podemos contactar com um sem número de pessoas que fazem questão de voltar.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

AMBIENTALIDADES ELEGÍVEIS

- O homem que eu gostava que tivesse sido o presidente do E.U.A., aquele Sr. alto e bem constituído, com olhar cândido e bondoso, que concorreu com Bush à presidência daquele grande país, foi galardoado com Nobel da Paz. - disse a Susana muito satisfeita.
- Também sou da opinião que foi muito bem atribuído o galardão que destaca aqueles que mais se esforçam (ou esforçaram) por trazer a paz ao mundo sendo que, neste caso, se trata de uma paz ambiental, mais importante do que qualquer outra, pois garante a sobrevivência de todas as espécies que conhecemos ou tal como as conhecemos. - disse eu abanando a cabeça afirmativamente.
A menina Alice tinha acabado de chegar das aulas. Para ela o fim-de-semana já tinha começado e, com este solinho a brilhar, vinha muito bem disposta, como normalmente, aliás.
- De que estão vocês a falar? - perguntou.
- Daquele a quem foi atribuído o Nobel da paz. - respondeu a Susana.
- Bem sei, o Al Gore. Também acho que foi bem atribuído, só não sei se o efeito prático dessa nomeação não vai esbarrar contra a posição dos que mais poluem e, com isso, mais ganham. - disse a menina Alice bastante segura de si.
- Pois é menina Alice mas, também é verdade, que "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura" e, a julgar pela água que aí vem, provocada pelo degelo, então é que, com toda a certeza, as coisas vão mudar. - disse eu ironizando
- Não seja írónico Mário, sabe muito bem onde quis chegar. - disse a menina Alice.
Entretanto, a menina Alice vai cumprimentar a D. Rosalinda e esta entrega-lhe uns documentos que, durante a manhã, alguém veio trazer à pensão. Era um assunto, também ele relacionado com a natureza, que se destinava a lançar um concurso de ideias para um logótipo e slogan da floresta e ambiente do Município de Penacova.
A menina Alice achou aquela iniciativa muito interessante e oportuna, tanto mais que ainda agora tinha estado a falar acerca do ambiente, mostrando-se de imediato disponível para participar. Só não tinha a certeza se valia a pena o esforço, não fosse tratar-se de um concurso de ideias semelhante àquele que ocorreu por altura da escolha do logótipo para o comércio local, cujos candidatos, o vencedor e a utilidade do mesmo, nunca alguém conheceu. Quanto aos prémios, até é melhor não falar (a pobreza continua).
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