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quinta-feira, 22 de novembro de 2007

CANTORIA DA LEGALIDADE

- Avó, posso fazer-te uma pergunta?
- Claro que sim minha filha.
- Achas que a menina Esmeralda vai ficar bem o pai biológico?
- Bom minha querida, as crianças devem estar sempre com os pais, biológicos ou não, desde que eles as eduquem, não as maltratem e nem delas abusem.
- Então, nesse caso posso concluir que concordas com a decisão do tribunal?
- Se estiver de acordo com a legalidade, sim, concordo.
- É interessante essa coisa da legalidade... Quer dizer então,
que os sentimentos das pessoas, aos olhos da Lei, pouco importam, não é?
- Olha minha querida, eu não sou jurista, mas acho que, se todas as pessoas tivessem a oportunidade de considerar de sua propriedade um ser humano que, biologicamente, sabem não lhes pertencer, creio que estaria aberto um precedente.
- Desse modo, o caso da pequena Esmeralda pode servir de exemplo?
- Sim, talvez para prevenir situações futuras.
- Olha avó, queria perguntar-te outra coisa.
- Hoje estás muito perguntadeira, o que queres saber?
- Achas que os meus pais vêm cá este Natal?
- Olha minha filha, espero que no Natal e no Fim-de-Ano.
- Estou com muitas saudades deles, dos carinhos do papá e da mamã....
- Está descansada que virão, aliás, como sempre fazem.
- Espero por eles a toda a hora.
- Também eu minha filha, também eu.....e por falar em hora, não achas que já devias estar na cama?
- Já é tarde, tens razão avó, mas ainda tenho que ir treinar um pouco a minha voz.
- Oh filha, olha que amanhã tens que te levantar cedo e, além disso, sabes como fica a Luísa quando tu a acordas com as tuas cantorias.
- Mas avó, a actuação é no Sábado às 21 horas e, começo a ficar nervosa.
- Não te preocupes com isso porque, até lá, ainda vais ter muito tempo, além disso estás a ficar constipada e tens que ir para a cama logo depois de beberes o leite quente com mel.
- Tens razão avó, acho que vou mas é descansar.
- Mas olha, se cantares, canta só para ti.
- Está bem avó, um beijo.
I

terça-feira, 20 de novembro de 2007

CHEIAS REAIS

I
- Afinal D. Rosalinda, a chuva não fez muitos estragos para a nossa zona.
- Pois não Mário, mas no Alentejo o mau tempo ainda provocou umas quantas inundações.
- Em todo o caso D. Rosalinda, o verdadeiro Inverno ainda não começou, embora as autoridades alertem para a possível ocorrência de situações adversas até amanhã.
- É perfeitamente natural que isso venha a acontecer mas, mesmo que aconteça, nunca se irá comparar aos rigorosos Invernos que ocorriam quando eu era mais nova.
- A Srª. lembra-se como eram esses Invernos?
- Óh se lembro, era tanta a chuva que as margens do Mondego invadiam as ínsuas quase entrando pela porta das casas dentro.
- Por falar nisso D. Rosalinda, ainda há pouco, quando estava a dar uma olhada nas minhas fotografias antigas, peguei numa que retratava precisamente essa época. Nela, a "Barca do Concelho" aparece rodeada de água como se duma ilha se tratasse.
- Deixe ver se me recordo Mário.
Pegando na foto, a D. Rosalinda quase chorou, não pela fotografia em si, mas pelas memórias que lhe traziam aquela imagem.
- Olha Mário, neste tempo, apenas as barcas conseguiam garantir o transporte das pessoas, eram épocas em que a pobreza ainda era uma constante, principalmente junto às zonas ribeirinhas. Hoje, com a Barragem da Aguieira tudo mudou, as cheias já não nos afectam tanto, os caudais são controlados e, claro, as pessoas andam mais descansadas.
- Mais descansadas diz a Srª., olhe que quando os técnicos fazem estimativas, muitas das vezes são apanhados desprevenidos porque não contam com a imprevisibilidade da natureza, não conseguindo por isso evitar o pior.
- Tens razão Mário, basta recordarmos o que aconteceu no Baixo Mondego em 2001 para percebermos que a natureza, às vezes, nos prega umas partidas, revelando toda a sua força e capacidade destrutiva.
- E o que é que acha relativamente à fotografia?
- Queres a minha opinião?
- Claro que sim D. Rosalinda.
- Acho que fica muito bem ao lado das outras que, na pensão, mostram as paisagens e os locais de interesse de Penacova.
- Também achei que sim mas primeiro pretendia ouvir da sua boca essa sugestão e, nesse caso vou já tratar de a emoldurar para depois a pendurar.
I

domingo, 18 de novembro de 2007

SÓ MESMO UM PADRE

- Parece que afinal vamos ter chuva amanhã.
- Finalmente vamos poder poupar um pouco mais de água D. Rosalinda.
- Olhe Mário, eu não sei onde é que isto ia parar se não chovesse por estes dias.
- Ainda não é certo mas, a julgar pelas previsões, as chuvas vão ser persistentes e fortes as rajadas de vento.
- Tomara que não venham estragar mais do que aquilo que possam vir a arranjar, pois estas chuvas tardias tendem a levar tudo por diante.
- Bem D. Rosalinda, os solos estão secos e nus e, quando assim é, as primeiras chuvadas arrastam as terras mais soltas e, em alguns casos, causam graves derrocadas e inundações.
- Pode ser que não Mário mas, à conta disso, ainda vou rezar o terço, não vá o diabo tecê-las.
Entretanto, na sala de refeições já a Cristina ultimava as mesas para o jantar. Bonitos candelabros, os melhores talheres e a melhor louça. Os vinhos já se encontravam a respirar como se esperassem a hora certa para acompanhar o cherne no forno com batatas aloiradas e uns grelinhos de nabo ou o cabrito assado no forno à padeiro que a Susana já tinha pronto a servir e cujo cheiro nos fazia crescer água na boca.
- Então Cristina esperamos por alguém importante para o jantar?
- Nem por isso Mário, se bem que hoje à tarde, dois sujeitos que não se quiseram identificar, perguntaram se era possível reservar uma mesa para o jantar.
- E não se identificaram?
- Tiveram que o fazer pois, se assim não fosse, não era possível fazer a reserva.
- E disseram os nomes?
- A mesa ficou em nome de Paulo Durão e fizeram questão de frisar que a queriam num espaço reservado da sala de jantar.
- Paulo Durão.....esse nome não me diz nada, se bem que o último me é familiar.
Se mais depressa perguntasse, mais depressa obtinha a resposta. Entraram na pensão dois sujeitos trajando com gabardina, do estilo daquelas com que os detectives se vestem. De imediato nelas peguei e com, a mesma rapidez, fui colocá-las no vestiário da pensão, cuja porta directa fica mesmo ao pé da recepção. Para meu espanto, constatei que o nome que deram à Cristina, aquando da reserva da mesa para o jantar correspondia ao primeiro e último nome de cada um deles.
- Boa noite. - disseram eles quando chegaram à recepção
- Boa noite. - respondi educadamente
- Vínhamos para jantar - disse o que tinha menos cabelo e que procurava com o pouco que lhe restava, cobrir a cabeça toda.
- Reservaram mesa?
- Sim, reservámos.
- Então façam o favor de me acompanhar.
- Olhe, se não for muito incómodo....
- Diga, diga.
- ...Se não for muito incómodo gostaria de lhe perguntar se por acaso não têm por aí uma fotocopiadora? - perguntou o que se chamava Paulo
- Fotocopiadora, scanner, fax, internet, tudo que os senhores desejarem.
- Óptimo. - respondeu alegremente.
- Só mais uma questão. - perguntou o que se chamava Durão
- Faça o favor de dizer.
- Por acaso seria muito descabido perguntar-lhe se era possível falar com um padre?
- Com um padre???
- Sim, com um padre!!!- Mas para que quer um padre a estas horas???
- Olhe meu caro, necessito de alguém que me ouça e me perdoe. - respondeu o Durão
- Mas porquê???
- Porque, não há muitos anos, fiz uma má interpretação de uma informação que me deram e, com essa interpretação, contribui para instalar o caos numa região do globo bastante cobiçada e para que milhares de pessoas fossem mortas e ainda possam vir a morrer.
- Pois, compreendo que deverá estar com um grande peso na consciência. E já agora, o seu amigo não quererá aproveitar a vinda do padre para, também ele, se possa redimir de alguns pecados que tenha cometido?
- Não, para ele não é preciso.
- Como assim? – perguntei admirado
- Não é preciso porque ele (ainda) goza de imunidade parlamentar.
- Percebi muito bem, até bem demais, vou já tratar de lhe arranjar um padre e, se calhar, também um sacristão.
I

sábado, 17 de novembro de 2007

NÃO HÁ MISÉRIA QUE NÃO DÊ EM FARTURA

- São cansativas estas idas a Coimbra ao hiper-mercado, não são D. Rosalinda?
- Podes crer que sim Luísa, que o digam os meus joanetes.
- Mas, segundo sei, vamos ter para breve dois novos supermercados para abastecer Penacova.
- Ai sim Luísa, onde?
- Olhe D. Rosalinda, um vai abrir na Espinheira, junto ao nó do IP 3, e outro vai começar a ser construído na "Quinta do Peixes", junto à zona escolar de Penacova.
- Que maravilha Luísa, assim já não temos necessidade de ir a Coimbra às compras.
- Às compras de produtos alimentares claro está, porque há outras compras que não podem deixar de ser feitas lá.
- Logicamente Luísa, até porque gosto de ir a Coimbra comprar vestuário e calçado, além disso a menina Alice adora ir para aqueles lados de Taveiro, ao Retail Park porque, diz ela e muito bem, há mais variedade e os preços são mais acessíveis.
- E tem razão D. Rosalinda, ante de comprar devemos comparar preços e, em Penacova, embora já existam vários estabelecimentos comerciais, os preços não variam muito entre uns e outros, já para não falar no risco que se corre quando pensamos que comprámos alguma coisa única e, quando saímos da loja, parece que pertencemos a uma irmandade qualquer, tal é a quantidade de pessoas que pensa que comprou uma coisa única e original.
- É um dos problemas dos meios pequenos, por isso é que temos que, inexoravelmente, continuar a ir às compras a Coimbra.
- E aquele terramoto que assolou Bangladesh na passada quinta-feira?
- Horrível Luísa, só de imaginar o sofrimento constante de todas aquelas pessoas.
- O mundo está para acabar D. Rosalinda.
- Pelo menos para aquelas 1723 pessoas que, até agora, já perderam a vida, já acabou.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

ALIVIANDO A ESPERA

A menina Alice já vinha pedindo há uns tempos, que a D. Rosalinda providenciasse pela colocação de um televisor na recepção da pensão, para que os hóspedes não desesperassem enquanto esperavam. Sabia perfeitamente quão dura era a espera daqueles que aguardavam a sua vez, fosse para o restaurante, fosse para o S.P.A. da pensão onde, neste caso, teriam ainda que aguardar a realização de um check-up, o que naturalmente causava alguma irritação. Além disso, as crianças também gostavam de ter ali algo que as mantivesse, por momentos, distraídas, coisa que os pais muito agradeciam.
- O que é que acha Mário?
- Acho que é uma boa ideia D. Rosalinda. Uma televisão na recepção da pensão pode ser útil para quem gosta de estar informado, enquanto espera de ser recebido. Além disso também existe a possibilidade de mostrar vídeos relacionados com a nossa terra e as suas riquezas e com os eventos que nela possam vir a ocorrer, apesar de não serem muito frequentes.
- Também acho que sim. A minha neta tem muito jeito para o negócio, não acha Mário?
- Tenho a certeza que sim, aliás está-lhe no sangue e, como diz o ditado, "filha de peixe sabe nadar".
- Além disso Mário, agora que me lembro, também pode ser muito útil para informar os hóspedes das condições de alojamento e das actividades que a pensão pretende levar por diante durante o ano.
- Naturalmente que sim D. Rosalinda, tem inúmeras vantagens e, quando achar que não resulta, basta retirá-la do local em que se encontra.
- Exactamente Mário.
Entretanto chega o João, meu companheiro de há anos, sempre com disposição para falar um pouco de política e não só de política claro, mas principalmente acerca dela.
- Já reparaste na nova televisão da pensão?
- Sim Mário, já reparei, fica muito bem no sítio onde está.
- Foi ideia da menina Alice, disse à avó que os hóspedes necessitavam de algo que os distraísse enquanto esperavam e pronto, aí está!!!
- Fez muito bem. Agora reparo que estão a mostrar as imagens do puxão de orelhas que o rei de espanhol deu ao presidente venezuelano, engraçado como ainda existe coragem para manifestar (publicamente) algum descontentamento.
- Pois é Mário, independentemente de ter existido uma relação quase umbilical, ou melhor, colonial, entre uns e outros, não deixa de ser curioso que aquele ímpeto paternalista falou mais alto.
- Acerca disso João, li um texto publicado num blog que habitualmente visito e o retrato que é feito de Chávez não engana. O homem é mesmo "atravessado de gineto" e com aquele comportamento, só empurra o povo para o isolamento internacional e para o abismo do socialismo cubano que todos sabemos o que é, e no que deu.
- Mas também não é muito correcto da parte de sua majestade, repreender um público um chefe de estado.
- Claro que não João, mas talvez o chefe de estado a que te referes, não esteja assim tão preparado para o ser, tendo apenas do lado dele uma das maiores reservas petrolíferas do mundo e uma (grande) parte do povo habituado a viver com mão-de-ferro e na miséria.
- Mas, convenhamos que com o eminente desaparecimento de Fidel, o homem tem necessidade de se afirmar como o novo rosto do comunismo na América Latina e, nada melhor do que o fazer à custa de atitudes descabidas e excessivamente populistas.

sábado, 10 de novembro de 2007

CASTANHAS AO DESAFIO

I
A Luísa já andava numa lufa-lufa terrível. Subia e descia as escadas da pensão como uma velocidade tal que eu julguei tratar-se de alguma urgência.
- Então Luísa, porque corres?
- Olha Mário, porque tenho que ter tudo pronto até às 11 horas.
- Mas vais a algum lado?
- Claro Mário, tenho que ir às compras com a D. Rosalinda, buscar as castanhas ao Chainho, dois centos de pastéis a Lorvão e outros dois centos de Nevadas à Ronqueira.
- Então, mas isso é óptimo, estará relacionado com o magusto de amanhã.
- Sim Mário, deve estar porque, além do magusto, também vêm os representantes da Casa do Concelho de Penacova, em Lisboa e sabes como a D. Rosalinda é, faz questão de lhes oferecer o almoço...
- A preços módicos, claro.
- Sim, como é óbvio, e também gosta de lhes oferecer a doçaria característica do nosso concelho.
- Pois, a ser assim, vocês as duas têm muito que fazer.
- E sabes que mais Mário, agora com carta de condução, sou o braço direito da D. Rosalinda, que nada faz sem que eu ande sempre atrás dela.
- Pois fazes muito bem Luísa, porque a D. Rosalinda é boa senhora e nós temos que lhe estar muito agradecidos.
- Tens razão Mário e tu bem sabes que, enquanto vivermos, temos para como ela uma grande dívida, por isso, tudo o que ela quiser, será por mim satisfeito com todo o prazer.
- E jeropiga, sabes de alguma coisa Luísa?
- Ceio que a Cristina já está a tratar disso.
- Claro que está, e não só da jeropiga como também da água-pé. Que bem que sabe uma boa jeropiga e um (ou dois) copo de água-pé quando estamos a comer castanhas.
- E além disso Mário, ainda vamos ter o Ruizito e as Raízes do Minho, banda que o acompanha.
- Então vai ser um festa engraçada, com aquele rapaz a puxar pela assistência para cantarem com ele à desgarrada.
- Estou convencida que sim, até o meu António cá vai estar. Ele adora estas coisas tradicionais.
- Pronto então Luísa, vai lá com a D. Rosalinda às compras e façam boa viagem, que eu vou tratando das coisas por aqui.
I

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

À MESA COM GREVE

- Não me digas que, desta vez, não vais aderir à greve geral do dia 30?
- Ainda não sei António, provavelmente nada vai adiantar.
- Pois é Luís, a pensar assim é que nunca vai resultar.
- Mas ouve lá António, tu não achas que um único dia de greve geral é pouco?
- Bom, não acho que seja muito, mas é necessário transmitir a mensagem de união e descontentamento ao governo.
- Sim, podes ter muita razão, mas união e descontentamento sem resultados práticos, não levam a lado algum. Se fosse uma greve que paralisasse os serviços durante uma semana, aí sim, era vê-los a vir comer à mão dos funcionários públicos.
- Pois é Luís, mas isso representava um arrombo no orçamento de quem a ela aderisse, e tu sabes tão bem como eu que uma semana sem receber é muito dinheiro.
- Claro que sim António, mas menos do que isso não assusta nem este, nem outro governo que seja.
- Ainda hoje o meu pai diz que quando, há uns anos, os funcionários das finanças decidiram fazer uma greve de 15 dias, o ministro da tutela veio logo com falinhas mansas perguntar-lhes afinal que exigências eram as deles.
- Naturalmente que só assim é que resultaria, mas hoje em dia, nem os sindicatos fazem exigências tão ousadas.
- Olha amigo Luís, vamos é terminar este magnífico cabrito assado que a Susana confeccionou, antes que arrefeça.
- Tens razão António, mas não sem antes pedir à Cristina que traga mais uma garrafa deste excelente tinto da "Herdade da Comporta".

MENINO MAROTO

I
«O Irão entrou na fase da escala industrial do combustível nuclear e o caminho para o progresso da nação iraniana é irreversível», lia o Paulo sentado ao balcão do bar da pensão.
- Pois, parece que sim, parece que o presidente do Irão está mesmo obcecado com o nuclear.
- Na verdade Mário, penso que nem sequer a ameaça de sanções, por parte da comunidade internacional, fazem recuar Mahmud Ahmadinejad.
- Mas Paulo, o homem insiste em dizer que é um programa pacífico e que apenas pretende criar alternativas energéticas para o país.
- Talvez ele até tenha razão naquilo que diz Mário mas, por exemplo, o estado de Israel não pensa dessa maneira e, segundo li há dias num semanário nacional, está mesmo disposto a atacar aqueles que considera os seus inimigos mais ameaçadores.
- Eu até li, que a força aérea israelita já está a fazer treinos intensos para se preparar para um (eventual) ataque ao Irão.
- Quer então dizer que poderá estar por um fio essa ofensiva.
- Tudo indica que sim Paulo e, se isso acontecer eu nem quero, ou melhor, não consigo imaginar as consequências que trará para o mundo esse confronto e penso muitas vezes se haverá potências que se irão juntar a um lado e a outro ou se, muito simplesmente, os beligerantes não ficarão sozinhos a lutar um contra o outro.
- Bem Mário, a ter que ser, que seja assim. Que eles se entendam uns com os outros e que limitem os danos àquela zona do globo, já de si tão fragilizada.
- Pois é Paulo, mas tu bem sabes que as repercussões desse (possível) confronto, se vão estender a todo o mundo e, como é bom de ver, quem vai sofrer vão ser sempre os mesmos.
- Claro, os pobres, as crianças, os idosos e todos os que, sem nada terem a ver com isso, vão levar por tabela.
- Como sempre meu caro amigo, como sempre.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

BARRICAS OLEOSAS

A Susana veio dizer-me à recepção que, caso aparecesse alguém para entregar umas barricas de plástico, a avisasse.
- Barricas como?
- Barricas grandes e cinzentas.
- Mas para que é que tu queres isso?
- Então não sabes que a nossa autarquia assinou ontem um protocolo com uma empresa que transforma óleos alimentares usados em biodiesel e agora essa empresa anda a distribuir os recipientes para, no nosso caso, colocarmos o óleo que utilizamos na pensão.
- Mas a D. Rosalinda sabe disso?
- Claro que sim Mário, até foi ela que pediu ao engº. Pedro Marceneiro que lhe fosse entregue, ainda hoje, uma ou duas daquelas barricas.
- Engº. Pedro Carpinteiro, rapariga!!!
- Ou isso, mas não interessa o nome do homem, o que interessa é que ele está muito entusiasmado com a ideia e vai oferecer barricas a todos os estabelecimentos de restauração existentes no nosso concelho.
- Bom Susana, se o entusiasmo manifestado na recolha de óleos alimentares for tão grande como o entusiasmo manifestado na recolha do papel, do vidro ou do papelão, então estamos desgraçados porque nunca, nas nossas viaturas, vamos colocar uma única gota desse biodiesel.
- Não sejas mau Mário, a nossa autarquia até se tem esforçado por pôr em prática uma política eficaz de recolha de desperdícios recicláveis.
- Não noto nada Susana. Então admite-se que, por exemplo, junto à Escola Beira Aguieira, um local onde todos os dias se produz desse lixo biodegradável, não exista sequer um ecoponto.
- Pois, realmente não se admite, mas também não podemos exigir que eles coloquem ecopontos em todo lado.
- Claro que não Susana, apenas que os coloquem nos locais onde são mais necessários.
- Pronto está bem Mário, parece que tens sempre razão. Não te esqueças é de me chamar, quando chegar o homem com as barricas.

domingo, 4 de novembro de 2007

EM CIMA DO JOELHO

A D. Rosalinda entregou-me uns pequenos livrinhos sobre Penacova para colocar em cima do balcão da recepção e também nos outros espaços da pensão onde os hóspedes gostam de passar um pouco do seu tempo a relaxar. Depois de os desfolhar rapidamente, a primeira impressão que tive foi positiva, tinham a capa brilhante, em tons de azul e, ao tacto, senti que o papel era de qualidade, quanto ao grafismo, também houve alguma preocupação em escolher um tipo de letra agradável e adequado ao fim que se pretendia atingir com aquela edição. No que respeita à parte que ficou a cargo da empresa encarregue de produzir o trabalho, nada há a dizer porque, parto do princípio que o fez de acordo com as orientações de quem o pagou e de certeza que se preocupou em manter ou aumentar o seu prestígio. Já quanto a quem teve a ideia e forneceu os elementos e as informações que iriam constar daquele "veículo" de promoção de Penacova, não posso dizer o mesmo.
- Lamento D. Rosalinda mas, após esta breve olhadela, não os vou poder colocar à disposição dos nossos hóspedes.
- Então porquê Mário?
- Olhe D. Rosalinda, em primeiro lugar, quem forneceu as informações que neles constam não o fez correctamente, deturpando algumas delas. Em primeiro lugar, permitiu que fosse impresso um brasão de Penacova que, embora se pareça, não corresponde ao verdadeiro, o que demonstra não estar minimamente informado e, mais grave ainda, estar a prestar uma informação falsa a quem, desconhecendo, pensa ficar a conhecer. Limitou-se assim a indicar o sítio onde esse brasão (erradamente) aparece o que, naturalmente, lhe deu muito menos trabalho. Em segundo lugar, apenas são identificados, com fotografia, os autarcas de três freguesias das onze que o concelho de Penacova tem, transmitindo a sensação de que, ou os outros são todos feios e as suas caras apenas serviriam para espantar os turistas da freguesia que representam ou então a "obra" que fizeram foi de tão baixa qualidade que, pensaram eles, seria melhor não os dar conhecer, para assim evitar possíveis represálias. Em terceiro lugar, e como não podia deixar de ser, a inevitável gaffe. Em vez de se fazer referência ao EXECUTIVO da junta de freguesia de Penacova, faz-se referência à EXECUTIVA, não que eu tenha algo contra o sexo feminino, muito pelo contrário, apenas a prova de que, por parte da autarquia houve urgência em distribuir um documento sobre Penacova, sem que, previamente, tenha havido uma rectificação dos eventuais erros. Em último lugar, mas não menos importante, destaco o facto de se fazer publicidade a, pelo menos, uma empresa cuja gerência é da responsabilidade de um dos autarcas eleitos para uma das onze freguesias do nosso concelho, logo, fácil é de concluir, que, talvez não inocentemente, se tentou favorecer uma empresa que é gerida por um autarca em exercício de funções o que, naturalmente não é admissível.
Além do mais, a informação sobre Penacova em nada diverge da já existente. É feita referência aos já conhecidos monumentos que (sem dúvida) enriquecem o património do nosso concelho, às romarias que durante o ano animam a gentes de cada terra e, quanto a eventos mais ousados como o Festitradições ou a Capital da Lampreia, duas linhas chegam para os descrever e dar a conhecer portanto que, em Penacova, nada de novo.
- Se assim é Mário, tem toda a razão, arrume-os debaixo do balcão da recepção e ficaremos a aguardar pelas verdadeiras novidades, se é que algum dia isso vai acontecer. Entretanto, assim que tiver oportunidade, devolva-os à procedência.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

MESMO AO PÉ DA PORTA

- Nunca pensei que nesta pacata terra, alguma vez sentíssemos receio pela nossa integridade física e pelos nossos haveres - disse a Luísa.
- Como assim? - perguntou a Susana.
- Então não queres saber que, durante a noite passada, uns meliantes pegaram fogo a uma série de contentores do lixo e à camioneta de transporte dos "Móveis Viseu". - responde a Luísa
- Mas isso é terrível!!! - exclamou a Susana indignada - Nunca, nem no pós 25 de Abril, altura em que as coisas andavam mais agitadas, tiveram lugar tais actos de vandalismo.
Entretanto chega à cozinha a D. Rosalinda que, ao vê-las tão atormentadas, de imediato lhes perguntou o que se passava.
- Não é possível!!!! - exclamou igualmente - Mas o que é que os agentes de autoridade andam a fazer? - perguntou ela indignada.
- Olhe D. Rosalinda - disse a Susana -, andam a fazer o que sempre fizeram desde que há relatos que, no fundo da vila, recrudescem os actos de vandalismo, com arrombamento de portas, danos no património quer público que privado, distúrbios nocturnos e algazarras constantes.
- Aí mais devagar Susana - disse a D. Rosalinda -, os agentes de autoridade actuam quando para isso são solicitados e, claro, não podem adivinhar o que vai acontecer.
- Claro que não D. Rosalinda mas, se já sabem da frequência com que acontecem esses incidentes, então, a meu ver, deviam levar a cabo acções de vigilância para evitar que se repitam situações dessa natureza. - disse a Susana
- Ninguém os vê durante a noite - disse a Luísa -, apenas durante o dia, à caça da multa e da ocorrência fácil.
- Sim, aí tens razão - disse a D. Rosalinda -, não existe prevenção, apenas reacção e, depois queixam-se quando as pessoas se insurgem contra o estado das coisas e vêem para a rua manifestar-se contra tudo e contra todos.
- Mas D. Rosalinda, não é o presidente da autarquia quem deve zelar pela manutenção da ordem pública e pela estratégia para dissuadir a criminalidade.
- Não sei se é a ele que cabe zelar pela manutenção da ordem pública mas, pelo menos, é ele quem preside ao conselho municipal de segurança, a quem cabe formular propostas de solução para os problemas de marginalidade e da falta de segurança dos cidadãos do município, bem como participar em acções de prevenção através da consulta entre todas as entidades que o constituem. - explicou a D. Rosalinda.
- Puxa D. Rosalinda, a Srª. está muito bem informada!!! - disse a Cristina muito admirada.
- Sabe minha cara, nesta coisa das competências e do funcionamento dos municípios, temos que estar sempre atentos e bem informados para que, quando chegar a altura de olharmos pelos nossos interesses, não sermos apanhados desprevenidos. Além disso - continuou a D. Rosalinda -, as questões da segurança afectam-nos a todos e principalmente a quem tem uma casa aberta e acolhe os que nos pretendam visitar, sejam conhecidos ou desconhecidos.
- Pois é - disse eu entretanto chegado à cozinha, preocupado com a demora do jantar -, o desconhecimento das leis não aproveitam a ninguém, por isso, quando dizemos que não fizemos determinada coisa por desconhecermos as normas que nos regem só nos prejudicamos, pois temos obrigação de as conhecer.
- Ainda bem que chegou Mário - disse a Susana -, estávamos aqui a falar acerca da balbúrdia que foi a noite passada.
- Pois é, foi uma situação muito desagradável e, mais uma vez, coincide com a abertura do ano lectivo, até parece que estamos num subúrbio citadino, onde reina a Lei do mais forte e onde as pessoas se escondem atrás das cortinas com medo de serem identificadas pelos prevaricadores não denunciando, por isso, os atentados à sua segurança e tranquilidade. - disse eu
- Coincidências a mais para meu gosto e que contrariam tudo aquilo que fundamentou a minha educação. No meu tempo, quando o meu pai falava, apenas o ouvia, cabisbaixa, sem me atrever a olhar-lhe nos olhos. - disse a D. Rosalinda enquanto se afastava para receber os novos hóspedes que, entretanto, acabaram de chegar.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

RADICAIS LIVRES

Como habitualmente acontece, gosto de visitar o site do nosso município para ficar ao corrente dos eventos que vão tendo lugar neste concelho de Penacova. Na visita que hoje por lá fiz, fiquei agradavelmente surpreendido ao ter conhecimento que, no próximo fim-de-semana junto ao açude do Rio Mondego, quase em frente do Porto da Carvoeira, se vai realizar um evento radical. Designa-se por Freestyle Kayak e a organização está a cargo da Federação Portuguesa de Canoagem, em colaboração com outras entidades a quem caberá, naturalmente, proporcionar o sucesso daquela iniciativa.
Lembrei-me das primeiras "pagaiadas" que dei em cima de um kayak. Na altura, há mais de 20 anos, com outros rapazes da minha idade, recebíamos do prof. Canhão e dos seus assessores, os necessários ensinamentos para nos mantermos o mais tempo possível a flutuar em cima daquela coisa que teimava em não se equilibrar (tipo touro de rodeo). Depois, era como andar de bicicleta, nunca mais de desaprendia e passava a ser um divertimento para todos nós e um desassossego quando ficávamos na areia à espera da nossa vez.
- Imprima um exemplar desse cartaz a cores para afixar no placard da pensão.- disse a D. Rosalinda.
- É já de seguida D. Rosalinda. - respondi de imediato.
- E não se esqueça de o colocar num lugar de destaque, para que os nossos hóspedes tomem conhecimento desse acontecimento. - disse a D. Rosalinda.
- Concerteza D. Rosalinda. - respondi novamente, preocupado em alinhar as folhas na impressora.
- E não se esqueça de avisar a Luísa para preparar os quartos do 2º andar, pois queremos que os participantes fiquem confortavelmente instalados. - continuou a D. Rosalinda
- Fique descansada D. Rosalinda que já está tudo a ser tratado. - respondi eu já com dois pioneses numa mão e com o cartaz na outra em direcção ao placard da pensão.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

CORTANDO O MATO

A Cristina já tinha dado uns passeios por alguns dos sítios mais bonitos de Penacova. Foi ao Reconquinho, ao Penedo do Castro e também ao Mirante, disse-me que andava a tentar construir mentalmente um percurso onde pudesse praticar o seu corta-mato diário. A Cristina é natural de Vildemoinhos, Viseu, terra que viu nascer o nosso mais internacional atleta, Carlos Lopes, por isso, não é de estranhar, que também ela se dedique a praticar a modalidade que fez daquele extraordinário atleta o campeão mundial em 1976, 1984 e 1985.
Hoje, sem excepção, a Cristina saiu por volta das 17 horas em direcção a um desses percursos que entretanto consegui elaborar. Penacova com montes e vales a perder de vista e frescos planos à beira do rio, é óptima para a prática dessas e doutras modalidades fazendo as delícias de qualquer atleta. Em tempos, destacaram-se nesta terra indivíduos que, do nada, conseguiram competir ao lado de importantes nomes do atletismo português, lembro-me do Mário Marcelo, do Mário Linhares e do Fernando Sêco, quando corriam com as cores da Casa do Povo, no tempo do Sr. José Pimentel, eu próprio ainda consegui um 2º lugar numa prova de atletismo que decorreu nas Torres do Mondego, à custa, diz a minha mãe, de um cão que não parava de ladrar atrás de mim (coisas de mãe). Hoje, os clubes dedicam-se mais ao futebol, talvez à procura de uma forma mais rentável que os ajude a sobreviver neste presente incerto para tantas colectividades.
Quando a Cristina saiu, eu e a menina Alice jogávamos a nossa habitual partida de xadrez, reparei que o equipamento que vestia, denotava alguma preocupação em se proteger e em tirar o melhor rendimento do seu desporto de eleição.
- A Cristina vai muito bem equipada! - exclamava a menina Alice
- Claro - disse eu -, se o que ela pretende é obter o máximo rendimento sem se prejudicar fisicamente, então tem que se equipar convenientemente.
Escusado será dizer que o meu pensamento foi com a Cristina o que, naturalmente, provocou um ataque furtivo ao meu Rei, mal protegido, por um (simples) Bispo e um posterior xeque-mate com a Rainha, inocentemente deixada à vontade.
Quando chegou, isto passado 1 hora e meia, a Cristina vinha como devia vir, toda suada e algo cansada, mas não muito, o que me levou a concluir que o seu organismo já estava habituado a percorrer grandes distâncias. Subiu para tomar um duche e, quando desceu, já vinha fresca como um alface, perguntando que obras eram aquelas que estavam a decorrer junto aos bombeiros.
- Olhe Cristina, para lhe ser franco, nem lhe sei dizer muito bem. - respondi
- Parece-me um circuito de manutenção. - disse algo entusiasmada.
- Sim, creio que sim, creio que é algo desse género - esclareci -, mas mesmo que a queira ajudar não consigo porque, no local, não fazem qualquer referência ao que dali vai sair.
- Bom...., mas se estão com intenções de fazer algo desse género, pelo menos, deveriam colocar no local um painel informativo acerca do objectivo daquele movimento de terras, acerca de quem o projectou, por quem está a ser levado a cabo e para quando se prevê a finalização da obra. - disse a Cristina.
- Sabe Cristina, em Penacova pouco se sabe acerca daquilo que se passa, os responsáveis vão fazendo o que consideram mais prioritário e os munícipes, um pouco alheios ao que se passa, vão vendo e tentando adivinhar o que vai acontecendo para depois avaliarem o impacto da nova realidade que, de certa forma, lhes é imposta. - disse eu.
- Sim compreendo, ou melhor, não compreendo mas, tudo bem, para mim é suficiente poder aproveitar estas condições que por aqui existem e praticar o meu desporto preferido, é pena que não exista informação suficiente para quem, não sendo de cá, pretenda aproveitar estas magníficas condições. - disse a Cristina enquanto se afastava para tratar da vida dela, ou melhor, do bem-estar dos nossos hóspedes.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

ACIMA DAS NUVENS


A D. Rosalinda faz questão de manter intactas as máquinas fotográficas que o Sr. Ricardo possuía enquanto fez parte do mundo dos vivos. Era um hobby que exercitava constantemente tirando fotografias a tudo aquilo que o rodeava, desde que, como é natural, lhe interessasse e de preferência se o motivo fosse Penacova e as suas belezas.
Depois de cada sessão fotográfica, corria até ao laboratório mais próximo e, sem perder tempo, regressava de imediato à pensão para pendurar as fotos que considerava mais belas porque assim, dizia ele, "os hóspedes poderiam apreciar a beleza de Penacova, sem ter de sair da pensão".
Desde que nos deixou, as fotografias que se encontram penduradas nas diversas paredes da pensão, nunca mais foram substituídas, fazendo com que, desde essa altura, Penacova tivesse parado no tempo, tal como a bela adormecida, contudo não perdeu a beleza com o passar dos anos porque, acima de tudo, o Sr. Ricardo preocupava-se em escolher o papel fotográfico de melhor qualidade para que as fotografias se mantivessem lindas e brilhantes como no primeiro dia.
A D. Rosalinda já tinha tocado no assunto. Disse que, em conversa com a menina Alice, gostava de voltar ver fotografias sobre Penacova para, por um lado, renovar as fotos e, por outro, dar a conhecer aos hóspedes uma Penacova mais actual. Ao saber pela Susana do meu fraquinho pela fotografia, perguntou-me se eu estava na disposição de continuar o "trabalho" que o seu defunto esposo havia começado, respondi-lhe que sim, que o fazia com todo o gosto mas que não prometia uma qualidade tão boa como a do Sr. Ricardo.
- Vá lá Mário - disse a D. Rosalina -, você sabe tão bem quanto eu, que tem fotografias muito interessantes na sua colecção e que podia partilhar connosco.
- Bem sei D. Rosalinda, mas não prometo substituir todas as que existem na pensão de um dia para o outro. - disse-lhe eu.
- Claro que não Mário, nem é esse o objectivo, porém se o for fazendo aos poucos, de certeza que, qualquer dia, vai conseguir criar uma boa colecção e quem sabe até fazer uma exposição na pensão com os seus amigos que, tal como você, gostam de fotografia. - disse ela -
Então está bem D. Rosalinda - disse-lhe eu -, nesse caso, vou começar já hoje a expor aquelas que tenho.
Corri a buscar a minha pequena máquina digital e, de imediato, imprimi uma foto sobre Penacova, por sinal uma daquelas que eu mais gosto.


II

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O SR. ARQUITECTO

- O Sr. arquitecto é muito boa pessoa, não acha Mário? - perguntava a D. Rosalinda.
- É sim, D. Rosalinda - respondi eu -, conheço-o há mais de 20 anos e sempre o achei uma pessoa cordata, inteligente, amigo do seu amigo e, como acabou por dizer, esclarecido acerca destas coisas do ambiente e da forma como pode ser aproveitado para a realização de eventos futuros nesta terra que igualmente bem conhece.
- E também acerca de como nós podemos contribuir para o melhorar. - disse a menina Alice enquanto comia a sua fatia de pão de forma, torrada e barrada com manteiga.
- Ainda bem que ele decidiu passar mais vezes na pensão, talvez necessite de um pouco de tranquilidade e conforto e essas duas coisas, nesta pensão, são aquilo que mais temos para oferecer. - disse eu enquanto dava uma goladinha no chá de camomila ainda quente.
A Susana ouvia-nos enquanto preparava o molho bechamel e, curiosa, perguntou se o Sr. arquitecto por cá iria ficar durante uns tempos.
- Concerteza que vai - respondeu a D. Rosalinda -, não foi por acaso que reservou um quarto na pensão. Além disso - continuou -, é uma pessoa bem distinta, capaz de contribuir para manter o bom nome da pensão.
- Tem toda a razão D. Rosalinda - disse eu não tirando os olhos da Cristina -, estou completamente de acordo consigo, quanto à personalidade do Sr. arquitecto e quanto ao facto da sua presença, enriquecer ainda mais a pensão.
Entretanto a Cristina escolhia o vinho para acompanhar o jantar de hoje. Manejava cuidadosamente as garrafas, bem sabendo que, quanto mais velho for o vinho, mais frágil se torna.
- Então Cristina, qual vai ser o vinho que vais escolher para hoje? - perguntei.
- Olha Mário, como a Susana nos vai presentear com um magnífico lombo de novinho com cepes, optei por um tinto ribatejano de 2003 da Quinta do Falcão, ideal para pratos de carne bem condimentados.
- Muito bem - dissemos todos em uníssono, já a pensar na sorte dos hóspedes que optaram por cá jantar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O PÚBLICO DA PENSÃO

Hoje, como em qualquer segunda-feira, regressam os hóspedes do fim-de-semana. A agitação é sempre maior do que o normal, todos vêm carregados com malas e malinhas, casacos e casaquinhas e, com muito carinho, trazem alguma coisa que lhes faça lembrar a terra, principalmente a partir de quarta-feira, dia em que a saudade mais aperta. Escusado será dizer que, tanto no bar como na recepção ou até mesmo na sala de jantar ou de jogos da pensão, o número de hóspedes é muito maior. Na cozinha a Susana tem que contar em confeccionar mais refeições, a Luísa tem que dedicar mais tempo aos quartos e a Cristina, que se estreia na pensão, tem a oportunidade de mostrar aquilo que apreendeu enquanto se formou como chefe de sala.
Até ver, as coisas estão a ir muito bem. Todos os hóspedes estão satisfeitos, tanto com o serviço da pensão como com a nova aquisição. Dizem eles que a Cristina "é a cereja em cima do bolo" ou "o elemento que faltava para completar a equipa de profissionais extraordinários que trabalham na pensão".
A D. Rosalinda não resistiu a tanto elogio e, como agradecimento, fez questão de oferecer um "Pastelinho de Lorvão" aos hóspedes que se mantiveram na sala de jantar para além das 14 horas.
Entretanto, o telemóvel da pensão emite o sinal de mensagem recebida. Hoje em dia, por norma, todos os que querem contactar com a pensão, ou para reservar ou para cancelar ou para enviar facturação, fazem-no para a caixa do correio do telemóvel ou do computador. Os tempos do suporte de papel, já quase fazem parte do passado o que, só por si, muito contribui para um ambiente mais saudável, contudo, esta não era uma mensagem habitual, nem eu estava à espera de receber tão importante informação via sms (short message system) - "A Pensão Viseu já chegou aos Blogues de papel do Público. Edição de hoje. Parabéns" - O remetente era o Luís que, ao desfolhar aquele jornal, verificou que nele se fazia referência a esta unidade hoteleira. De imediato fui ter com a D. Rosalinda que, ao ler tão inesperada mensagem, tratou logo de mandar a Luísa ao quiosque comprar a edição impressa daquele diário.
É uma muito importante referência, sinal de que a pensão já é um local onde muitas pessoas encontram algo de especial a ponto de a sugerir a outras que, tal como elas, procuram algum conforto e relaxamento junto às águas calmas e silenciosas do Mondego.
A menina Luísa fez questão de, delicadamente, destacar a folha onde estava a mensagem da pensão para, segundo disse, colocar no livro de recortes da pensão ou, quem sabe, fazer um poster para colocar numa suas das inúmeras paredes. Quanto a mim, sinto-me muito lisongeado por contribuir para o sucesso deste lugar onde, acima de tudo, podemos contactar com um sem número de pessoas que fazem questão de voltar.

sábado, 13 de outubro de 2007

SENSAÇÕES (DE)GUSTATIVAS

Já passava das 17 horas quando vejo a atravessar a porta da pensão, uma elegante Srª, com cabelos pretos e de média estatura. Na mão esquerda trazia uma imprescindível "necessaire" e na direita, uma mala trolley, semi-rígida, bastante útil e funcional para quem viaja.
Sem qualquer estupefacção encarei com naturalidade a situação, ou não fosse este sítio uma pensão.
A Srª. entrou, deslocou-se até à recepção onde eu me encontrava e, tirando os óculos escuros que lhe escondiam os olhos grandes e negros, perguntou se podia falar com a D. Rosalinda.
- E quem devo anunciar? - perguntei.
- Diga-lhe por favor que é alguém que respondeu a um anúncio para ocupar um lugar de chefe de sala da pensão.
Muito surpreendido, pedi que se sentasse e que aguardasse um pouco enquanto procurava a D. Rosalinda e, muito educadamente, aquela Srª. aguardou junto à recepção.
Pelo caminho, pensava que, finalmente, e após várias insistências, a D. Rosalinda lá tinha aceite que, a qualidade do serviço que se pretende prestar na pensão tem que acompanhar a evolução dos tempos, a bem da qualidade e da concorrência.
Desci à cozinha, procurei no 1º andar e no escritório e, por fim, no jardim onde a D. Rosalinda se encontrava a cuidar das suas rosas preferidas.
- D. Rosalinda, finalmente encontrei-a. - disse eu.
- Credo Mário, você vem ofegante, que raio de bicho lhe mordeu? - perguntou.
- Não foi bicho nenhum D. Rosalinda, apenas lhe venho dizer que se encontra na recepção, a Srª. que respondeu ao anúncio para chefe de sala. - respondi.
- Mas....a Cristina disse que apenas viria amanhã à noite e por isso andava para aqui descansada!!! - disse a D. Rosalinda muito admirada.
- Pois é, mas a Srª. chegou hoje e está à sua espera por isso, não deve demorar-se. - disse eu já de volta à recepção.
- Olhe Mário, leve a Srª. Cristina até ao escritório, sirva-lhe algo, ponha-a à vontade que eu estarei lá num minuto. - disse a Dª. Rosalinda colocando a tesoura de poda na caixa de jardinagem e limpando as mãos sujas de terra ao avental.
Foi o que fiz logo que regressei à recepção. Disse à Srª Cristina para me acompanhar ao escritório, onde iria aguardar pela D. Rosalinda e servi-lhe, tal como me pediu, uma água sem gás, natural.
A notícia depressa se espalhou pela pensão.
A menina Alice gostou de saber da nova contratação, pois podia aprofundar o seu gosto pelas coisas (boas) da restauração, a Luísa encarou com (alguma) indiferença a chegada da nova colega, já a Susana não viu com bons olhos a contratação de uma pessoa que, a partir de dali, poderia interferir no seu trabalho, pois é sobejamente conhecida no meio, a rivalidade entre o chefe de cozinha e o chefe de sala mas, como tratei de lhe explicar, isso são coisas do passado e, tendo em conta que a Susana é uma excelente profissional, depressa entenderá que ambas se vão completar, a bem do serviço a prestar pela pensão. Quanto a mim, e tendo em conta a extrema necessidade em contratar alguém que, além de se preocupar com a conjugação entre os aromas e os paladares das refeições, também recomendasse, provasse, servisse e garantisse a boa qualidade e a adequada temperatura dos vinhos e das outras bebidas que servimos, achei muito oportuna a decisão da D. Rosalinda. Assim, conseguimos garantir a manutenção de uma boa clientela e, principalmente, fazemos com que outros, igualmente bons, nos visitem, e fiquem também eles nossos clientes, uma espécie de turismo gastronómico. Além disso, a não ser que me engane, fiquei com a sensação que me vou dar muito bem com a nova aquisição.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

A MELHOR FEIJOADA DO MUNDO

A Susana preparou para o jantar uma sopa de cação e uns lombinhos de javali com framboesas. O cheiro "subia" pela escada acima e invadia levemente a sala de jantar. Os hóspedes, esses, estavam impacientes de tanto esperar pelo momento em que seria servido tão delicioso manjar, notava-se pela ansiedade com que constantemente olhavam para a campainha que era costume tocar, quando o jantar estava pronto a ser servido.
Nesta pensão sempre assim foi. A campainha toca quando alguma refeição está a ser servida, sendo que, se for doçaria, toca sempre duas vezes.
No tempo do Sr. Ricardo, havia dias em que a campainha estava sempre a tocar. Eram momentos de muita diversão, muitos hóspedes e muita confusão, tanta, que às vezes não acreditava que a campainha tocasse por haver comer, mas tão só, porque todos gostavam de puxar o cordel. Hoje as coisas estão ligeiramente diferentes mas a diferença não se nota em relação à campainha, apenas quanto ao número de hóspedes.
Depois de todos estarem servidos, volto até ao pequeno escritório onde me encontrava a preparar a lista das compras que, todas as sextas-feiras, tenho que fazer. Desta vez a D. Rosalinda fez questão de me lembrar de trazer algumas limas, uns quilos de feijão preto e farinha de mandioca.
- Mas para quê D. Rosalinda? - perguntei eu.
- Olha Mário, porque na quinta-feira chega à pensão um hóspede muito especial. - respondeu.
- Mas tão especial como? - perguntei curioso.
- Especial porque, além de ser brasileiro, canta muito bem. - respondeu entusiasmada.
- Bom - disse eu -, se é brasileiro e canta muito bem, provavelmente também gostará de comer bem e, nesse caso, penso que não há necessidade de comprar feijão preto, bastando dizer à Susana que mantenha o nível que tem vindo a manter até aqui.
- Tens razão Mário mas feijoada à brasileira como a Susana, ninguém mais sabe fazer e, como é bom de ver, quero que esse, quase, convidado, saia daqui bem tratado, com vontade de cá voltar e, convenhamos que um pouco de (boa) publicidade nunca é de mais. - disse a D. Rosalinda.
- E as limas D. Rosalinda? - perguntei.
- Essas são para tu fazeres a caipirinha, que tanta fama tem dado à pensão. - respondeu com um sorriso engraçado.
- Mas D. Rosalinda, estou cheio de curiosidade acerca do hóspede/convidado, que a Srª. faz tanta questão de receber dessa maneira, diga-me por favor de quem se trata. - pedi eu não aguentando mais o mistério.
- Olha Mário, quem vem cá passar o fim-de-semana é o Caetano Veloso. Aproveita o facto de estar em Coimbra no dia 17 deste mês e já me contactou para reservar a suite principal e para eu providenciar pela "melhor feijoada à brasileira do mundo". Além disso, a Susana e a menina Alice, quando souberam, deram pulos de alegria só de pensarem que iriam ter, de novo, uma noite como aquela que ele tão bem soube dar na última vez que cá esteve. - disse a D. Rosalinda.
- Lembro-me bem como foi - disse eu -, à média luz, aquelas melodias que só ele poderia cantar, adornadas com aquelas letras que só ele podia escrever, enfim, um momento único e inesquecível.
- Exactamente por isso é que eu o quero receber ainda melhor do que da última vez. - disse a D. Rosalinda cheia de convicção.
- Assim será - disse eu -, não me posso é esquecer de comprar as duas cordas que me faltam na guitarra de Coimbra, para o acompanhar na canção com o mesmo nome e, se calhar, até vou convidar uns amigos fadistas para virem cá fazer-nos companhia.
- Fazes bem Mário, para que ele se sinta em casa. - disse a D. Rosalinda já a caminhar em direcção à cozinha, mas não sem antes insistir acerca do feijão preto.

domingo, 7 de outubro de 2007

SERPENTE LUMINOSA

Enquanto não começa o jogo mais esperado desta noite (Académica de Coimbra/F. C. do Porto), vou navegando pela internet, ou para procurar novidades ou para voltar ver aquelas coisas boas que, por mais tempo que passe, gostamos sempre de rever.
O ambiente por aqui está calmo. Os hóspedes estão acomodados. Uns esperam pelo jantar, outros, que já jantaram, esperam pelo futebol. Os que ainda não chegaram, telefonaram para dizer que vinham a caminho e para lhes guardarmos uma refeição, pois estavam ansiosos para jantar na pensão.
Da sacada da sala de jantar, consigo ver o trânsito no IP3. As dezenas e dezenas de carros que se deslocam no sentido Viseu/Coimbra, formam uma fila compacta que faz lembrar (se existir) uma enorme serpente luminosa, tal é a quantidade de luzes que, devagar, se dirigem para o destino ou de volta à origem.
A D. Rosalinda lá continua com o seu, enorme, tapete de arraiolos. Diz que é para a sua neta mais velha, a menina Alice portanto, para quando ela decidir arranjar um companheiro.
- Sim porque hoje já não se fala em casamento. - diz com a cara virada para a fotografia, a preto e branco, do seu saudoso marido, o Sr. Ricardo, falecido há dez anos com uma doença daquelas que nos leva de repente. Boa pessoa que ele era.
Para a D. Rosalinda, fazer arraiolos é mais do que um passatempo, é uma obsessão. Faz carpetes, tapetes, tapetinhos, almofadas e painéis para pendurar. As paredes da pensão, já para não falar do chão da sala, do hall e dos quartos, estão decoradas com muitas dessas "obras de arte", como simpaticamente gosto de lhes chamar. É assim desde que eu a conheço, já lá vão 30 anos, e concerteza que já não muda.
Continuando pela internet, vou agora passar por alguns dos blogues que habitualmente visito. Um escreve sobre a farsa das eleições cubanas, outro escreve acerca dos lobbies e do poder que têm em relação ao Estado, outro ainda, escreve sobre palavras curiosas que abundam no nosso léxico e outro escreve sobre uma determinada geografia. Gosto de passar por estes e por outros para os quais agora não tenho tempo. Porém, existe um que, todos os dias, faço questão de visitar, e nele li um post que dava conta do nascimento de um novo blogue em Penacova.
- Que bom - disse eu para mim -, finalmente vamos ter um blogue que poderá ocupar um lugar de destaque, tal como aconteceu com um chamado Jogo de Possíveis, fazendo as delícias de alguns e causando amargos de boca a outros. Para já, segundo o seu criador, pessoa por quem nutro especial simpatia, trata-se de um blogue "ainda em fase tão embrionária como experimental", que poderá corresponder às expectativas ou ficar aquém do esperado, mesmo assim, e partindo do princípio que o autor é uma pessoa com capacidades mais do que suficientes para levar aquele projecto por diante, tenho quase a certeza que vai ser um blogue com "cabeça" para pensar nas várias situações dignas de referência, "tronco" para aguentar as investidas a que (de certeza) vai estar sujeito, e "membros" para caminhar em frente, sem vergar ou ziguezaguear.
Da minha parte, faço votos para que tal iniciativa resulte e seja um sucesso, pois Penacova (e o mundo) precisa de vozes com qualidade, que olhem e comentem os seus destinos, zelando para que nenhuma crítica seja abafada ou que nenhuma voz seja calada.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O DIA DO "RIÇAS"

O Riças está connosco desde que, há 10 anos, a D. Rosalinda o encontrou a vaguear pelo Terreiro. Na altura, a menina Alice, que já ia no seu 4º aniversário, manifestou, de imediato, o seu afecto pelo bicho, insistindo com a avó para que o acolhesse na pensão.
De início não foi fácil mantê-lo no espaço que a D. Rosalinda me incumbiu de lhe arranjar. Estava demasiado habituado à liberdade e à ausência de coleira e, não encarava com muita facilidade o facto de ter sentir o seu raio de acção (bastante) limitado. Apenas encarava a pensão com um sítio para comer e não para viver, tal como alguns dos nossos clientes que apenas cá vêm tomar as suas refeições. Não que isso faça deles maus clientes, pelo contrário, alguns até são bem melhores do que certos que cá temos alojados. Mas, voltemos ao Riças.
Mal começou a "frequentar" a pensão e a comer os restos da comida que a Luísa lhe deitava na taça comprada propositadamente para o efeito, logo se tornou "hóspede" permanente, não sei se pelo comer, se pelo conforto das instalações que lhe foram atribuídas.
Quando por todos nós, e muito especialmente pela menina Alice, foi acolhido, não pesaria mais que 6 quilos e, pela aparência, não comia uma refeição "decente" há já alguns dias, pois tal era a forma com que as suas costelas sobressaíam na sua pele rosada e brilhante. Os seu olhos eram tristes mas, ao mesmo tempo, bonitos e negros como a noite. Talvez por isso nos tivesse cativado a todos.
Depois de lavado, escovado, vacinado e microchipado, o veterinário passou a respectiva caderneta de identificação. Dela constava o nome, a (possível) idade e todos os outros elementos relativos às características exteriores do animal. Quanto à raça não houve a mais pequena dúvida, tratava-se de um Cão d'Água Português. Com aquele pêlo comprido e luzidio, todo enrolado e a cair para a frente dos olhos que lhe davam-lhe em aspecto terno e fofo, era concerteza um exemplar de uma das nossas mais conceituadas raças. Quanto à idade, a julgar pelo tamanho dos dentes, pelo tamanho das patas e do crânio, o veterinário "apontou " para os 2 anos. Se fosse humano, teria 22 anos, a julgar por uma das muitas tabelas que podemos consultar na internet.
Com 12 anos já não é necessária a vigilância cerrada que inicialmente se impunha. Já não estraga as pernas das mesas da sala de jantar, já não rói os sapatos ou as pantufas que, distraidamente, os hóspedes deixavam cair dos pés quando se deixavam dormitar no conforto do sofá ou quando, por não quererem estar com os pés apertados durante as refeições, os deixavam cair para debaixo da mesa. Quanto às flores, é melhor nem sequer falar. Os dedos das duas mãos não chegam para contar as vezes que a D. Rosalinda via o seu jardim despedaçado pela necessidade que o Rifas tinha de roer alguma coisa, e que era superior à beleza das plantas e à extrema dedicação que aquela Srª. demonstrava ter, e que tinha, por aquele tão belo e singular espaço de lazer da pensão. Enfim, momentos passados que, olhando para trás, nos deram algumas alegrias e nos ajudaram a passar a monotonia dos dias (não todos) e de algumas noites que, quando ficavam mais frias, ele adorava passar junto à lareira a ouvir a lenha crepitar.
Hoje o Rifas vai ter uma surpresa. A Susana fez questão de pedir ao senhor do talho umas aparas mais bem guarnecidas com carne para lhe oferecer uma refeição especial, não que ele faça anos, mas tão simplesmente, porque se comemora o dia Mundial do Animal.
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