segunda-feira, 29 de março de 2010

Ecologia dispendiosa

O João mantém o hábito de ver futebol na Pensão. Só lamenta não poder estar sempre presente para  ver todos os jogos, mas faz sempre um esforço para ver a grande maioria. O meu tio Mário falou-me dele. Deu melhores referências acerca da sua pessoa e garantiu-me que seria uma boa companhia. Talvez por isso não tenha sido difícil para mim simpatizar com ele.
 - O Porto lá conseguiu fazer um brilharete. Não foi João?
- E bem merece Matias. Há um tempito que não ganha nada e uma equipa daquelas não se pode dar ao luxo de ficar abaixo do terceiro lugar....De qualquer maneira, convenhamos que o Porto este ano não tem equipa.
- Pode ser que com o regresso do Hulk as coisas melhorem para os lados do Dragão. Sim porque não tenho dúvidas nenhumas que este ano o campeonato é para o Benfica.
- Já não era sem tempo! E por falar em Benfica, aderiste à Hora do Planeta?
- Mais ou menos!! Sabes que numa casa como esta é impossível trabalhar às escuras e apagar as luzes àquela hora seria complicado.

- Pois, compreendo e aceito. Só não aceito que, pelo menos grande parte dos edifícios públicos não tenham aderido ao movimento, apesar de este ano terem aderido o dobro dos municípios em relação ao ano passado
- Tens toda a razão João!! Além disso, deviam penalizar as pessoas que não optam por iluminação mais amiga do ambiente. Se todos contribuirmos um bocadinho que seja, o resultado será bastante satisfatório e o planeta agradece.
- Penalizar não digo, porque penalizado já é quem adquire, por exemplo, uma lâmpada economizadora. O preço é uma exorbitância comparado com o das convencionais e as pessoas na hora da compra, olham para o preço, e mandam a ecologia às urtigas.
- Talvez por isso as coisas não andem mais depressa. Como é moda, e são bastante procuradas, quem as vende aproveita para as encarecer, não permitindo assim que o cidadão com menos rendimentos as instale, também ele, na sua casa. É a lei da oferta e da procura meu caro João.
- Pois, mas não deixa de ser injusta, apesar de ser de mercado.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Boa noite, vou verificar

Sempre que dá um clássico de futebol na televisão, o ambiente da Pensão fica um pouco mais animado, por vezes até animado de mais. Embora tenha as minhas preferências clubísticas, não as devo manifestar, pois como recepcionista, tenho o dever de receber com simpatia e profissionalismo todos os hóspedes, independentemente das suas militâncias.
Da sala onde se encontra a televisão, ouço alguma agitação, perfeitamente normal a meu ver, ou não fossem as duas equipas em jogo as mais rivais do futebol português. Quando posso vou pondo o olho e, tal como eles, também me detenho perante um ou outro passe mais perigoso.
Neste momento o jogo entrou nos minutos finais e parace que a equipa azul branco não consegue dar a volta o resultado. Já conta com dois golos lá dentro, sem resposta.
Entretanto senta-se na mesa junto à lareira um jovem casal. Pela forma como se apresentam só podem ser recém-casados, talvez sejam eles que vão ocupar a suite principal da Pensão a qual, decorada como está, só pode estar mesmo destinada a uma bela noite de núpcias, pena a lua que teima em não se mostrar....
O jogo lá acabou, não sem antes o Benfica ter marcado mais um golo, o terceiro. Palermas!!!
As notícias dão conta naquilo em que se transformou a chegada dos adeptos portistas ao Algarve. Tanta violência, tanta destruição! Quem é alimenta toda esta raiva? É pena que o futebol seja também isso e não consiga libertar-se dessas euforias, muitas das vezes levadas ao extremo.
- Boa noite. O que vão desejar?
- Boa noite. Fizemos reserva em nome de Inês Monteiro.
- Um momento, vou verificar.
De relance vejo o primeiro-ministro a falar. Foi correr mais uma meia-maratona de Lisboa. O homem lá continua a correr.....
- Desculpem-me, são o casal Monteiro?
- Exatamente.
- Acompanhem-me por favor à receção
- Vêm por quantas noites?
- Esta e a próxima.
- Podem subir. Têm aqui a chave do quarto. Desejo-vos uma boa noite. Se precisarem de algo, por favor, não hesitem em ligar.

domingo, 21 de março de 2010

Contra as lixeiras, limpar, limpar!

- Então Alice, tão cedo?
- Olha Luísa, começou a chover e decidiram adiar a limpeza para Abril.
- Foi pena! A Alice ía tão bem equipada. Aquelas botas de cano alto, o impermeável, a pá e aquela pinça para apanhar os papéis. Estou convencida que apanharia mais lixo do que qualquer um dos outros voluntários.
- Não exageres Luísa! Tenho pena, isso sim, de adiar por mais uns dias a recolha de toda a lixaria que por aí está espalhada. Quanto mais cedo for retirada para os locais adequados, mais depressa o ambiente agradece e mais bem cuidados ficam os nossos espaços verdes.
- Tem razão Alice. Mas eu prefiro não sujar, para não ter que limpar.
-Pois, era assim que todos os que sujam e não limpam deviam pensar. Em vez de continuarem a poluir deveriam privar-se de o fazer, porque se isso não acontecer e continuarmos a varrer o lixo para baixo do tapete, qualquer dia sufocamos com os desperdícios que por todo lado abandonamos.
- E depois já não há solução para o problema.  Provavelmente até se esgota a capacidade de regeneração da natureza.
- Não duvides Luísa! Toda este desrespeito pelo meio ambiente, já lhe provocou danos irreversíveis. São inúmeros os casos em que a capacidade de regeneração de alguns ecossistemas mais frágeis foi completamente destruída.
- Mas Alice, foi sem dúvida um movimento cívico sem igual! Foram mais de cem mil os voluntários que apareceram. Gostei muito de ver o Presidente da República a participar também na limpeza.
- Olha Luísa, só espero que valha a pena. Só espero que as pessoas tomem consciência de uma vez por todas de que não devem poluir o mundo em que vivemos, sob pena de acelerarmos ainda mais a degradação do nosso planeta. 
- Fique descansada Alice! Estou convencida que toda a gente vai mudar de hábitos. Além disso, se cada país fizer o mesmo, fica tudo limpo que é um instante.
- Olha Luísa, ainda é cedo para apurar resultados, até porque algumas localidades não puderam fazer. Porém, desde que teve início, o movimento "Let's do it!" que só no ano seguinte a ter sido criado, mobilizou cerca de 50 mil pessoas que num só dia recolheram mais de 10 mil toneladas de resíduos ilegalmente depositados. Fantástico não é?
- Só prova que o ser humano, quando quer, consegue surpreender-se pela positiva.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Excessos de confiança


Às sextas-feiras ao fim da tarde, invariavelmente se reúnem no bar da Pensão um número de habituais frequentadores. Já era assim no tempo do meu tio Mário e parece que fazem questão de manter viva a tradição. Aproveita-se para falar da semana, daquilo que de mais relevante se passou para cada um deles ou simplesmente para beberem algo na companhia de uns peixinhos do rio ou de umas enguias fritas, iguarias nossas, que muito bem casam com um bom tinto, para quem bebe claro.
Hoje ao balcão do bar da Pensão, encontrava-se o Luís, o mais assíduo dos hóspedes e o Joaquim, bancário de profissão, que também gosta de passar o final da tarde na Pensão. Às vezes pernoitam outras vezes apenas jantam , mas é sempre difícil saber o realmente pode acontecer. Para já estão por aqui e da maneira como o tempo está chovoso, podem muito bem ficar por cá até de manhã, o que não deixa de ser óptimo, tendo em conta a agradabilidade da companhia de ambos, não desfazendo claro da companhia dos outros hóspedes que, tal como eles, são muito bem-vindos à Pensão.
- Foi uma pena para o Sporting não ter conseguido passar à fase seguinte.
- Pois é, foi uma pena. Melhor sorte teve o Benfica que lá conseguiu, mais uma vez, impor o ritmo que se exigia para ganhar a eliminatória.
- Matias.
- Diga Luís?
- Tem acompanhado a polémica gerada pela morte de um indivíduo pela polícia?
- Mais ou menos Luís. Quando posso, vou deitando uma vista de olhos na televisão.
- E aqui o meu amigo Joaquim, viu alguma coisa sobre o assunto?
- Olha Luís, para ser sincero fiquei chocado com toda a situação e com a forma com que ela ocorreu. Não consigo aceitar que aqueles que existem para nos proteger se descuidem ao ponto de se tornarem nos nossos piores inimigos.
- Também acho Joaquim. Não consigo compreender como é que alguém é capaz de colocar uma arma nas mãos de um polícia sem o ter treinado primeiro a utilizá-la. É estranho que os jovens que são recrutados para serem agentes de autoridade não estejam habilitados a utilizar o equipamento que lhes é fornecido.
- É muito estranho que isso aconteça e inadmissível que ocorra nos dias de hoje. Uma coisa vos digo, ou é juventude a mais ou preparação a menos. Estou convencido que no meio disto tudo, os culpados são aqueles que têm o dever de zelar pela salvaguarda da segurança dos cidadãos e pela capacidade profissional dos elementos que compõe as instituições a quem legalmente foi atribuída essa função. Se não houver essa preocupação, então mais casos irão ocorrer concerteza.
- Mas Luís, o homem viu-se ali perante o dever de impedir a fuga do suposto meliante e a necessidade de o deter com o disparo que, provavelmente, nem soube muito bem como é que o efectuou..
- Ora aí está Joaquim. Se até aqueles que treinam com bastante frequência não têm a absoluta certeza de que o disparo que efectuam vai acertar no alvo que pretendem, como é que alguém que nem sequer conhece a arma que lhe foi distribuída pode acertar onde quer?
- Só por muita sorte é que isso acontece.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Falta de fé ou fraqueza dos homens

- Porque razão é que estás a mudar de canal Matias?
- Olhe D. Rosalinda, não só porque o restaurante da Pensão está cheio, mas também porque os comensais não têm, a meu ver claro, que estar sujeitos a ver os espectáculo degradante que está a pssar naquele canal.
- E é tão degradante assim?
- Olhe D. Rosalinda, para mim não tem palavras que o descrevam. Só de imaginar fico todo perturbado?
- Ai homem, não me assustes!!! O que é que estava a dar exactamente?
- Era a notícia sobre os actos de pedofilia praticados por alguns sacerdotes da Igreja Católica...
- Pois, eu sei Matias. Também tenho acompanhado como posso o desenrolar dos acontecimentos ligados a esse escandaloso processo.
- E para si deve ser muito doloroso saber que tudo isso se passou e, pior ainda, que tudo foi abafado pelos responsáveis daqueles que praticaram tão hediondos actos.
- Eu sempre fui muito devota, e continuo a ser, mas tudo isto me incomoda sobremaneira.
- E abala a sua fé?
- Claro que não Matias! A minha fé não está condicionada pelos actos que o ser humano pratica, seja ele padre ou não. A minha fé é para com Cristo e apenas tenho o compromisso para com ele, daí que não saia abalada, apenas triste com a fraqueza dos homens que se comprometeram com a Igreja, agir de acordo com os seus ensinamentos
- Mas ressente-se de alguma maneira, como é óbvio.
- Ressinto-me principalmente na maneira como passei a olhar para os sacerdotes. Não quero, nem devo, acreditar que todos são culpados, mas também não sou inocente ao ponto de achar que todos estão isentos de culpa.
- Todos!?
- Claro que sim. Seria muita ingenuidade da minha parte acreditar que não há um conhecimento geral acerca daquilo que se passou. Sei perfeitamente que uns escondem os outros e as coisas não se souberam há mais tempo, da forma como hoje de sabem, porque estavam todos convictos que tudo acabava por ser esquecido.
- Mas não isso que aconteceu.
- Claro que não e ainda bem. Nem eu, como fiel, me poderia sentir cúmplice dessa atrocidade, como aliás se sentem todos os verdadeiros fiéis. Sinto-me defraudada isso sim. Não consigo aceitar que, por detrás da batina se esconda um criminoso e, principalmente, alguém a quem a maior parte das mães confiou em algum momento da sua vida, a guarda dos seus filhos.
- E preconizaria algum tipo de castigo para tais meliantes?
- Olha Matias, não costumo ser radical, até porque tenho por norma respeitar o próximo mas, num caso desses, não me chocaria que esses pseudo-sacerdotes fossem castrados quimicamente e arredados definitivamente do sacerdócio.
- Não está mal não senhora. Eu até iria mais longe, mas provavelmente o castigo que eu proporia, seria mais fácil de suportar do que aquele que a Srª. tinha em mente.
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