sábado, 17 de abril de 2010

Chá com bolos


A hora do chá na Pensão é óptima para restaurar energias. A sala é aberta para todos os que pretendam lanchar confortavelmente. Para os hóspedes que ainda não conhecem os doces tradicionais de Penacova, temos o prazer de os propor como acompanhamento. Para os que nos visitam habitualmente, não necessitamos sequer de os sugerir.
De quando em vez, abrimos algumas excepções e podemos optar por sugerir outros doces que por algum motivo nos chame a atenção ou que nos sejam indicados por um ou outro hóspede habitual.
- Continuo a achar que nada se compara às Nevadas.
- Eu também concordo contigo, mas temos que nos ir adaptando à realidade. E essa realidade é aquilo com que temos de contar. Por isso, devemos tentar ver como é que funciona.
- Mas tu já viste o preço de cada um? É uma exorbitância!
- Pois é, mas por isso mesmo é que se vendem...
- Achas?
- Não imagino!!!
- Nem eu, mas tenho a certeza que, daqueles que para cá vêm, nenhum fica por vender. Põe uma coisa na cabeça, na sociedade em que vivemos, as coisas caras vendem-se sempre.
- Quer dizer então que vais deixar estar.
- Claro.
- E as Nevadas?
- Já te disse que Nevadas são Nevadas. Portanto, não há comparação possível. Quem vem para comprar Nevadas não compra outra coisa.
- Em princípio...
- Pois. Mas olha que não me importava nada que vendessem Nevadas numa boa pastelaria de Lisboa.
- Nem eu, pois claro.
- Então. não vejo qual o inconveniente em ter para os hóspedes uns cupcakes fresquinhos.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Um dia de cada vez



- Está, por assim dizer, instalado o caos nos aeroportos europeus, não é verdade Matias?
- E de que maneira sr. Luís. A quantidade de cinzas vulcânicas que por acção dos ventos se foram espalhando pela Europa, levaram ao cancelamento de inúmeros vôos, com os consequentes atrasos. Só aqui na Pensão, 20 por cento dos hóspedes não conseguiram chegar a tempo de se alojarem quando pretendiam. Esperemos que consigam fazê-lo amanhã.
- Não sei Matias, a julgar pelas notícias que nos vão chegando, não se perspectivam melhoras no estado do tempo, na próximas 48 horas.
- Se assim for, a coisa vai complicar-se ainda mais. Não quero sequer imaginar como vai ficar a D. Rosalinda quando souber que a situação se vai manter durante mais dois dias.
- A natureza é assim Matias. Nada a consegue controlar por muito tempo. Quando terminam os “ciclos”, as coisas começam a alterar-se para depois voltarem a estabilizar durante centenas ou milhares de anos.
- Ciclos sr. Luís, que ciclos?
- Os ciclos que marcaram a evolução geológica do nosso planeta e que causaram profundas alterações, tanto a nível morfológico como a nível biológico.
- Mas isso é um bocado assustador, não acha? Faz-me lembrar aquela profecia dos Maias que aponta para 2012 o fim do mundo.
- Sim, essa é uma das muitas teorias que têm atormentado o ser humano. Mas há outra de Leonardo da Vinci que aponta para 4006, portanto, vá-se lá saber quem tem razão.
- Essa última é bem mais simpática. Pelo menos já nos permite pensar num futuro mais longo.
- Pois é Matias, mas temos que ter sempre presente que catástrofes naturais vão existir sempre, com todas as perdas que delas advêm, sejam elas materiais ou humanas.
- Olhe sr. Luís, para mim tudo isso é um pouco assustador, mas não creio que venha a concretizar-se. Já viu as consequências que tinha para todos nós?
- E achas que a natureza está preocupada com isso Matias? Pensas que o homem consegue controlar a sua fúria?
- Obviamente que não sr. Luís, basta vermos o que aconteceu recentemente na Madeira ou na China, em que, em minutos, tudo desapareceu.
- Ora aí está Matias. Se tiver que acontecer acontecerá. O que eu faço é viver um dia de cada vez, sem estar muito preocupado com esse tipo de profecias. Sou da opinião que o mundo acaba todos os dias para milhares de pessoas, conhecidas ou não, e que se acontecer algo que modifique radicalmente as coisas que nós conhecemos, então pegarei na máquina fotográfica e captarei imagens dessa nova realidade.
- Mas isso acontecerá se por acaso o sr. Luís sobreviver!
- Obviamente Matias.
- E se as coisas não acontecerem com espera que aconteçam?
- Nesse caso, como te disse, continuarei a viver um dia de cada vez.
I

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Os problemas do (v)Bento


A conversa que os dois hóspedes, que se encontravam sentados na mesa que está ao pé da sacada, estavam a ter era tão interessante, que nem eu próprio tive coragem de a interromper, apesar de ter indicações expressas que deveria fazê-lo logo que se sentassem, pois não era hábito da Pensão fazer esperar desnecessariamente os hóspedes.
- Quer dizer que agora vais mesmo ver o papa.
- O papa, porquê!?
- Então, porque o governo vai dar tolerância de ponto nesse dia a todos os funcionários públicos.
- E o que é que te leva a pensar que eu vou ver o papa.
- Nada me leva a pensar que isso vai acontecer, mas certamente irás aproveitar a folga para, pelo menos, ires passear com a família.
- Estás enganado quanto a isso. Se realmente houver tolerância de ponto nesse dia, garanto-te que não vou ver para nenhum.
- Mas deves.
- Não devo nada porque nem sequer me revejo nesse senhor.
- Então devias ir trabalhar em vez de gozar tal tolerância.
- Nada disso meu caro, vou aproveitar essa benesse que tem como objectivo permitir que os féis se desloquem a ver o supra sumo da igreja católica e como eu não me incluo nesse grupo, não lhe devo qualquer tipo de obediência. Além disso, e mesmo que eventualmente me sentisse nessa obrigação moral, depois de ter lido, ouvido e observado acerca do envolvimento do clero em questões relacionadas com a pedofilia e a homossexualidade, não me sentia minimamente motivado para ir ver desfilar quem quer que fosse da igreja católica.
- O que eu condeno acima de tudo é a forma como foi encarada toda a situação. Em primeiro lugar, depois de detectado o problema, procurou-se não dar muita às consequências que o mesmo poderia trazer às vítimas de abusos, depois os casos aumentaram de número e mesmo assim manteve-se a política do silêncio, como se os actos praticados não constituíssem um crime hediondo, por último assiste-se por parte das hierarquias da igreja católica a um esforço em tentar transformar uma questão de polícia numa coisa sem grande importância, procurando com outros assuntos, como o aborto por exemplo, desviar a atenção dos fieis do problema.
- E como se não bastasse, ainda se atrevem a vir dizer que “muitos psicólogos e psiquiatras mostram que não há ligação entre celibato e pedofilia, mas muitos outros revelam que existe uma relação entre homossexualidade e pedofilia”, tudo isto para tentarem afastar a ideia de que o celibato dos padres não aumenta a tendência para a pedofilia.
- Acho uma grande estupidez andarem a tentar explicar o inexplicável, mas quanto a essas declarações e tendo em conta as reacções que entretanto ocorreram, o Vaticano já veio “esclarecer” as declarações do seu secretário.
- Éh, para por água na fervura, como tão bem sabem fazer.
- Mas a coisa não fica por aí.
- Então?
- Já há quem queira deter o papa quando ele for ao Reino Unido.
- Mas isso nunca irá acontecer porque poderia desencadear uma onda de vingança contra todo o clero o que, naturalmente, não é de todo desejável que aconteça, até porque não é razoável julgar a parte pelo todo.
- Mas o problema é que essa parte é também responsável pela educação religiosa de cerca de 1/6 população mundial, que é o número de fiéis com que conta actualmente a igreja católica o que, convenhamos, é muita gente.
- Olha, sabes uma coisa?
- Não, diz lá.
- Eu acabava com o problema que era um instante.
- Então como?
- Começava por acabar com celibato, para que os padres soubessem dar o devido valor à família e ao matrimónio, experimentando também eles serem maridos e pais sem terem que andar por aí quase às escondidas com as “irmãs” e depois entregava todos os prevaricadores à polícia para que fossem julgados pelas leis dos homens e não continuassem impunes a coberto das leis de Deus.
- Com toda essa convicção para resolver um problema bastante antigo, tenho a certeza que até Ele ficava contente com o teu despacho.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A hora de (continuar a) pagar



- Eu sabia que iria sobrar para nós.
- Estás a falar sozinho Luís?
- Olha Joaquim, estava aqui a olhar para as notícias e a lamentar o facto de também nós termos que contribuir para ajudar a Grécia a suportar o estado caótico em que se encontram as suas contas públicas.
- E é muito dinheiro?
- Bem, segundo aqui se pode ler, são 73 euros por português.
- E para quando é que está programado esse pagamento?
- Não te preocupes que nem vais sentir que estás a pagar.
- Mas há uma coisa que eu não estou a perceber,
- Qual?
- Então, ainda há dois meses disseram que Portugal e Grécia estavam em situações semelhantes e agora vamos ter que contribuir para resolver o problema deles? E quem é que nos resolve o nosso?
- Os gregos não são de certeza!!!
- Mas está mal, alguém nos devia ajudar neste momento de dificuldades.
- Aprende uma coisa Luís, a partir do momento em que entrámos para a Europa, assumimos os prejuízos e os lucros daí decorrentes, por isso, aquilo que recebemos durante estes anos todos vai ser pago mais tarde ou mais cedo.
- Isso eu sei, mas não estava à espera que acontecesse tão cedo.
- Pois, é para tu veres que quando se está no mesmo barco, devemos remar em sintonia e sempre na expectativa de que quando começar a correr mal, os pequenos são sempre os primeiros a sofrer as consequências. Por isso, vale mais não nos cegar-mos com a hipotéticas facilidades e nos resumir-mos à nossa situação de país periférico e totalmente dependente.
- Uma coisa te garanto, se fosse hoje acho que emigrava para o Luxemburgo.
- Para o Luxemburgo, então porquê?
- Olha, acho que é um país simpático e onde vivem muitos portugueses.
- Pois, mas para tua informação, cada luxemburguês contribui com 157 euros para ajudar a Grécia.
- Bom, nesse caso, prefiro ficar por aqui. Além disso não creio que lá exista a Pensão Viseu.
- Vês, pelo menos aqui ainda tens com quem desabafar. Se por acaso mudasses de país, não terias a oportunidade de sentir o prazer de contribuíres para a recuperação económica de um governo gastador.

Inebriante


Finalmente o sol decidiu aparecer. Quase que parece um fim-de-semana de Verão. Estava-se mesmo bem na esplanada da Pensão, tão bem que não havia uma única mesa vaga, pois os hóspedes, mal almoçaram, foram de imediato para lá. Os que não conheciam ficaram deslumbrados com a vista sobre o vale do Mondego. Os que se tornaram hóspedes assíduos da Pensão, estavam como se estivessem em casa e cultivavam a cordialidade com os que, pela primeira vez, tiveram a oportunidade de desfrutar tal beleza, na sombra proporcionada por esta pérgola delineada por Raúl Lino.
- É bom para o negócio Matias. Vai-te habituando à confusão porque de Verão vai ser todos os dias assim.
- O meu tio Mário já tinha contado como eram os dias de Verão na Pensão. Muitos hóspedes, muitos amigos de longos anos e as noites que reservavam sempre alguma surpresa.
- E tinha razão o teu tio. É muito agradável o Verão na Pensão. Olha Matias, vai lá fora ver o que quer o hóspede da mesa 7.
- É para já D. Rosalinda. O sr. vai desejar mais alguma coisa?
- Basta-me este cheiro que me inebria. Este aroma que perfuma o ar é um bálsamo para qualquer pessoa. São fantásticas estas Glicínias.
- Estão aqui há cerca de 90 anos e ambas estão catalogadas como árvores de interesse público.
- Isso é óptimo!!! Será que também farão parte das comemorações do dia internacional dos monumentos e sítios?
- Bom, isso aí já não sei mas pela lógica penso que deviam, quanto mais não fosse uma breve referência.
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