sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Exposição em "Séries"


- Então meu caro José vais expor na Biblioteca Municipal?
- Pois é amigo Matias, assim será, durante todo o mês de Outubro.
- Ótimo! Então, já poderei dizer a todos os hóspedes que por aqui estiverem, que se poderão o dirigir à sala de exposições da biblioteca e deliciarem-se com as tuas criações.
- Sim, claro que sim, mas não te esqueças de lhes dizer que a próxima exposição será aqui na Pensão, pelo que se não tiveres oportunidade de a visitar agora, certamente que poderás ver enquanto trabalhas.
- Melhor ainda, pois assim já poderei dizer à D. Rosalinda que mande fazer uns flyers com essa indicação, para colocar nas mesas do bar e aqui na receção.
- Que bom, e não te esqueças de dizer à D. Rosalinda que depois lhe ofereço um exemplar da minha coleção para ela colocar numa das paredes da Pensão.
- Ela vai adorar! E quanto a ti  José, espero que continues a ter grande sucesso.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Passeio inédito, com património exagerado


- Bom dia Matias!
- Bom dia Sr. Luís. Então que me diz da "Noite em Busca do Património"?
- Bem, não sei porque não pude estar presente, mas pelo que vem hoje aqui no jornal, terá sido um a noite e tanto.
- Por acaso até foi, mas também não foi assim como refere esse jornal .
- Ai não! Então conte-me lá como foi.
- Bem, notei que por parte dos protagonistas da noite, aqueles que estiveram trajados a rigor, houve grande a preocupação em se aproximarem o mais possível da realidade da época, agora no que diz respeito à organização do evento, verifiquei que o único local que realmente esteve à altura do evento, foi a Igreja Matriz, todos os outros não foram alvo de preocupação por parte dos organizadores.
- Outros? Que outros locais é que não estavam como deveriam?
- Então olhe, ao fundo das escadas, a fonte que deveria estar iluminada, não estava, a Casa da Freira, repositório de grande parte do património artífice de Penacova, encontrava-se encerrada, ao que soube, por necessitar de obras
- Então e as colchas festivas?
- Olhe Sr. Luís, a única colcha que vi ser pendurada, e à pressa, foi quando o desfile já retornava do Mirante.
- Então, quer dizer, que tudo isto é mentira!
- Não, claro que não, mas não é de todo verdade, pecando até pelo exagero. Não fossem os funcionários municipais estarem presentes, e uns quantos forasteiros terem aparecido, os habitantes contavam-se pelos dedos.
- Ora bolas, e eu a pensar que tinha perdido um grande evento.
- E perdeu, mas não foi tão grande como aí vem descrito, apesar de ter que admitir que a iniciativa foi louvável, por ter sido inédita na nossa terra.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A pontaria do voto


O tempo está terrível e ainda por cima há hóspedes que, descuidadamente, colocam o chapéu-de-chuva fora do recipiente, fazendo com que a água se espalhe sem controlo pela recepção. Nem o aviso a sensibilizá-los para essa situação adianta. O que eles querem é entrar depressa na pensão, para se instalarem confortavelmente, sem cuidarem de deixar as coisas como devem ser. Mas enfim, são hóspedes e têm todo o direito de colocarem as coisas como lhes dá mais jeito, sabendo que haverá alguém responsável por repor a  situação.
É a segunda vez que me chamam àquela mesa e ainda não decidiram o que vão querer. Pode ser que seja desta!
- Então o que vão tomar?
- Olhe, estávamos aqui a olhar para estas deliciosas Nevadas e, se calhar, vamos querer duas, acompanhadas por um chá de cidreira, óptimo para nos aquecer neste dia de Inverno.
- Concerteza, vou já pedir.
Entretanto, não pude deixar de reparar num casal jovem que se dirigia para o salão de jogos da pensão. Falavam sobre a necessidade de votarem, ou não, nas eleições presidenciais do próximo dia 23. Ela dizia que não estava com vontade de votar, tão só porque achava que nenhum dos candidatos iria resolver a grave situação do país e, pior do que isso, aqueles que mais probabilidades têm de serem eleitos, são o produto dos nossos 36 anos de democracia.
Disse ainda, que um deles, sempre foi e continua a ser deputado da nação, eleito pelo partido socialista desde o fim da ditadura salazarista, sem que desde então algo de relevante tenha feito e o outro, que já foi ministro das finanças, primeiro-ministro e presidente da república, sem que, por via disso, o nosso país tenha melhorado, antes pelo contrário.
Quase sem palavras, o rapaz tentou defender-se com o argumento de que o voto é necessário para a manutenção da democracia, que muitas pessoas morreram ao defenderem esse direito e que agora os números da abstenção disparam, permitindo que, apenas as forças partidárias que conseguem seduzir os seus militantes, são capazes de conseguir uma base de apoio regular, daí interessar-lhes a abstenção, pois sabem que os que votarem são suficientes para continuarem a garantir-lhes a representatividade necessária no parlamento.
Bem vistas as coisas, tanto um como outro têm razão. Os mais fortes candidatos à presidência, conhecem os meandros da política. Os esquemas e os artifícios que permitem àquela classe continuar a viver de forma opulenta e apenas a pensar manter as receitas, sem se preocupar muito com as despesas.
É triste mas é verdade. Quando um povo não se revê nos seus governantes, a democracia não pode continuar a depender da vontade de uma minoria. Além disso, se a maioria insiste em não votar, permite que sejamos sempre governados pelos mesmos. Por isso, seria desejável que todos os que pudessem fossem votar, sem que obrigados a isso tivessem que ser, apenas porque, só assim, poderão depois dizer que  é “o povo é quem mais ordena”.

sábado, 1 de janeiro de 2011

O novo ano


Aos poucos começam a chegar. Não estão tão divertidos como estavam quando daqui saíram ontem à noite, mas também não trazem aquele ar carrancudo com que chegaram à pensão. Pelo menos aparentam estar mais libertos, sinal que extravasaram grande parte das suas inquietações.
Este ano não se festejou o fim-de-ano na pensão. Decidiu-se fechar durante este período, uma vez que se achou não estarem ainda reunidas todas as condições para que isso acontecesse. Instalámo-nos há relativamente pouco tempo e a clientela ainda não se apresenta regular, para além de ainda não estarmos em pleno funcionamento, sendo necessário apetrechar a sala e alguns quartos do segundo andar.
Temos que avançar aos poucos, ainda mais num ano que se adivinha difícil e tudo está ainda em suspenso, sem se saber muito bem o real impacto que as duras medidas tomadas pelos nossos governantes para este ano vão ter no bolso dos portugueses. Pelo menos aqui no jornal as perspectivas não se mostram muito animadoras, com cortes em tudo o que é benefício, afecte ou não os mais carenciados.
Para já, contento-me com o espectáculo proporcionado com as ainda frescas imagens dos vários "reveillons" que por todo lado foram acontecendo. Sem dúvida que são um espectáculo bonito de se ver, mesmo que para isso se tenham gasto uns milhares de euros que dariam para aliviar um pouco mais a dura vida de alguns mais carenciados. Mas se assim não fosse, tudo isto pareceria demasiado triste e cinzento, pelo que se perdoa o excesso, esperando que todo esse entusiasmo não se esgote numa só noite.


quarta-feira, 21 de abril de 2010

Predisposição típica



O jantar tinha acabado de ser servido. O pato estufado estava com um aspecto magnífico!
Depois de ler a carta de vinhos pediu um Quinta dos Termos, Selecção Tinto da colheita de 2007. 
- Boa escolha! - pensei eu - De facto tudo parecia combinar. Na televisão passava a Grande Reportagem. Existe corrupção em Portugal e não se pense que é menos ou mais importante que nos outros lados, é exactamente igual. Com os mesmos contornos e com a mesma precisão. Os protagonistas podem ser diferentes mas o código de conduta é o mesmo para todos, ou seja, não existe!
-Todos sabemos que o crime compensa....
- Mas é disso mesmo que eles estão a falar. Só com grande espírito de missão e com uma fé inabalável nos valores de uma sociedade justa é que alguém se dispõe a denunciar casos de corrupção.
- E é que vão desde o maior ao mais pequeno!
- Claro que sim! É tipo uma máfia, com violência e extorsão à mistura. Esquemas que a todos passam despercebidos, ou por puro desconhecimento, ou então simplesmente porque não é nada connosco.
- Nos meios pequenos não se passa tanto. As coisas acabam por se saber todas rapidamente. Mas nas cidades, ou perto delas, já funciona de diferente maneira.
- Tens razão, é tudo em ponto grande.
- E muita gente disponível. E nos sítios com muita gente com muito dinheiro em jogo, as tentações são maiores.
- E depois todos querem  ter boa vida sem trabalhar. Querem bons carros, grandes casas, viagens para todo o lado, tudo do bom e do melhor. Enfim, anda meio mundo a enganar outro meio.
- Mas agora está pior!
- Claro, não há dinheiro para nada.
- E as previsões não apontam para melhorias, apesar de Cavaco ter vindo dizer que a coisa não está assim tão má.
- Então, é a única coisa que ele deve dizer. Não ia à televisão dizer que isto está mau, que devemos todos preparar-se para o pior.
- Pois não, claro que não podia! Tu já viste o que é que seria?
- Vira essa boca para lá. Nem quero imaginar no que iria acontecer!!
- Mas isso é um mal que afecta toda a gente. As pessoas têm que ter liquidez suficiente para consumir aquilo que uma sociedade de consumo produz, senão o mercado não funciona. E não funcionando, tudo pára. Os stocks aumentam, as coisas não se vendem, as fábricas fecham por não haver quem compre, o desemprego aumenta ainda mais e tudo acaba por se transformar numa autêntica crise social, onde a maior parte se vê privada de rendimentos que permita ter uma vida com dignidade.
- E olha que uma crise social não vinha mesmo nada a calhar neste momento!
- Nem neste nem noutro. Mas digo-te uma coisa, se os governos não derem prioridade às pessoas, as coisas podem ficar demasiado tensas e dificilmente controláveis.
- Nesse caso a corrupção acaba por contribuir para dar aos menos abonados a possibilidade de também eles se aproximarem mais um bocadinho dos que tem muito.
- E mais facilmente num país onde a corrupção é quase sempre encarada como um comportamento natural de quem tem o poder de decidir.
- Sobretudo se for supostamente perpetrada em benefício de uma comunidade ou por alguém cuja reputação nunca foi contestada, muito pelo contrário.
- Portanto, se durante todo um percurso de sucesso, houver a tentação de aproveitamento da situação em benefício próprio, inferior ao proveito de todo um conjunto de interesses, apesar da condenação,  é considerado perfeitamente normal.
- Por isso é que se torna muito difícil de combater o fenómeno da corrupção. Há um ou outro caso que escapa e se torna numa verdadeira dor de cabeça, mas no geral as coisas acabam sempre por acontecer.
- Além disso, convém não esquecer que somos portugueses, muito dados ao improviso e à solução imediata, por vezes mais onerosa, mas com aquele sabor a pequena vitória do tipo "já te lixei" ou “já enganei outro”.
- E sempre à espera da gorjeta, da ajuda financeira do Estado, da oportunidade para ganhar uns cobres sem declara porque "o Estado é um ladrão" e "são todos uns comedores".
- Somo tipicamente latinos. Parece que nascemos no meio de tudo e não pertencemos a nada. Conseguimos ser invariavelmente aqueles a quem puxam sempre as orelhas.




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