sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

Rescisão Amigável

- Então Mário, sempre ficaste?
- Não meu caro Luís, ainda pensei que a D. Rosalinda me renovava o contrato mas não tive sorte.
- Lamentou por ti amigo.
- Chamou-me ao escritório e disse que a vida não está fácil, que as finanças levam o dinheiro todo, que a crise nos Estados Unidos afectou toda a economia. Enfim, coisas de patrão.
- Claro que sim, quando podem, dispensam logo o pessoal!!!
- Talvez não tenha sido bem isso. As coisas não estão assim tão boas e, em vez de correr o risco de não me poder pagar o ordenado, preferiu não arriscar.
- Olha amigo, nos tempos que correm, ter um emprego estável, é o melhor que há.
- E tu que o digas. És funcionário público e, melhor que ninguém, sabes avaliar a vantagem de ter um ordenado fixo a fim do mês.
- Estou agora aqui a pensar se não poderíamos fazer alguma coisa para a despedida.
- Talvez um jantar, preparado pela Susana
- Exacto, feito pela Susana, e passar a noite a beber um bom vinho e a ouvir uma boa músca.
- Tipo Van Morrison...
- Isso, Van Morrison acompanhado por uma aguardente São Domingos, em copo aquecido.
- Isso Mário, uma noite inesquecível para celebrar a tua passagem por aqui e, quem sabe, antever um possível regresso à pensão.
- A partir deste momento, tudo fica em aberto. Agora, o que me apetece fazer, é saborear o repasto e preparar a minha ida para outros alojamentos e, quem sabe, preparar o meu eventual regresso.
- Acho que fazes bem. Sabes que, por vezes, é bom pararmos um pouco para redefinir objectivos.
- Também acho Luís. Quem sabe se não regressarei um dia para contar outras experiências que tragam novidades à pensão.

quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

PERDER QUILOS À VOLTA DOS MOINHOS


- Vais a Coimbra Susana?
- Tenho que ir Mário. Precisas que te traga alguma coisa?
- Não, mas se me deres boleia, aproveito para ir comprar um par de sapatilhas.
- Não me digas que vais começar a jogar à bola?
- Não, não se trata disso. Quero aproveitar a 1ª Corrida dos Moinhos de Penacova para perder um pouco de barriga.
- Engraçado, nunca tinha reparado!
- Na minha barriga ou na corrida?
- Nas duas...engraçadinho. O que eu queria dizer é que não ouvi falar de nada acerca da corrida.
- Também eu não. Não fosse o cartaz que me vieram entregar para afixar, passava-me completamente ao lado.
- E qual vai ser o percurso? Vão a todas as serras onde há conjuntos de moinhos?
- Bem, pelo que eu estou a ver aqui no prospecto, apenas vão passar pelos da Serra de Gavinhos.
- Então, nesse caso, esse evento deveria chamar-se "1ª Corrida dos Moinhos da Serra de Gavinhos".
- Lá estás tu a maldizer. Deixa lá os homens. Às tantas eles nem leram bem o prospecto.
- Talvez tenhas razão.
- Mas olha lá, levas-me contigo a Coimbra ou não?
- Claro que levo. Assim aproveito e compro também umas para mim e, com um bocado de sorte, até vais fazer muita questão em mas oferecer.
- Se é para isso, prefiro ir a pé...
- Não sejas palerma Mário. Sou até menina para ser eu a pagar-te um par.
- Nesse caso, vou rever a minha lista das compras.

quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

NOVAS ARMAS NO COMBATE À CRIMINALIDADE

A nova postura do governo face ao aumento da criminalidade violenta passa, necessariamente, pela colocação de piquetes de agentes de autoridade em todos os postos de abastecimento de combustíveis do país.
Não tarda nada, em vez do self-service a que já nos habituámos, os nossos automóveis vão ser abastecidos por um simpático agente da autoridade, armado até aos dentes, para não dizer armado noutra coisa qualquer.

terça-feira, 2 de Setembro de 2008

PAULO RESSUSCITADO

Após um longo processo de culpa movido contra Paulo Pedroso, eis que uma decisão judicial condena o Estado a pagar-lhe uma "gorda" indemnização.
Sócrates, não comentando a decisão daquele ou de outros tribunais, não esconde a felicidade de ver um dos seus companheiros de luta ser, finalmente, ilibado de um caso que, entre outras coisas, contribuiu para o desgate do Partido Socialista e para a morte política quer do indemnizado, quer de Ferro Rodrigues.
Será que o ex-deputado da bancada socialista vai retomar a sua actividade política ou, simplesmente, vai gozar o chorudo complemento de reforma agora atribuido por aquele órgão de soberania?
A meu ver não existirá decisão alguma que devolva àquele indíviduo a idoniedade e tranquilidade suficientes para voltar a desempenhar funções públicas mas, como em política tudo é possível, não me causará estranheza que, um destes dias e para que as dúvidas sobre a sua personalidade se desvaneçam, o mesmo seja nomeado director de uma qualquer instituição tutelada pelo Estado.

sábado, 30 de Agosto de 2008

ACONTECEU

- A Pensão está de luto.
- E foi prolongada.... a dor?
- Sim, creio que sofreu mais do que o suficiente....
- Então foi melhor assim. Sabe, perder alguém com quem vivemos desde pequenos, com quem aprendemos a olhar o mundo, a dar os primeiros passos....torna-se quase insuportável.
- É uma parte de nós que nos deixa para sempre...restam-nos os bons momentos passados juntos.
- A única esperança que nos resta é que ele, como espírito, como pessoa, encontre um lugar melhor para viver.

sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

O PODER DA IMAGEM

- Vais ver o filme Susana?
- Qual filme?
- O último do Oliver Stone, qual é que havia de ser?
- Sei lá, há tantos filmes a estrear que uma pessoa nem sabe muito bem a qual é que há-de ir.
- E a história é sobre o quê?
- É sobre o passado do George Bush.
- Quem o pai?
- Não, o filho!!
- Então mas o passado dele dá para fazer um filme?
- Mais ou menos, mas como se trata de um presidente, sempre se pode aproveitar qualquer coisa sobre a sua vida.
- E já viste alguma coisa sobre ele?
- Acabei de ver um making off?
- E que tal?
- Bem Susana, o homem, segundo o filme, revela-se um autêntico desastre. Desde a conduzir embriagado, até à louca sedução de mulheres, bem como o gosto pelo jogo, enfim, um bon-vivant, o personagem não se deixa ultrapassar por ninguém.
- Então e os E.U.A. acreditaram nesse personagem para os governar.
- Então tu não sabes que os americanos são estúpidos e presunçosos. Que só gostam de fast-food e de coca-cola?
- Bem, não sei se, de uma maneira geral, serão assim todos mas, a julgar pela descrição o filme não tenho dúvidas nenhumas que o homem poderia ser tudo menos presidente.
- Mas sabes como é, se por detrás de uma qualquer campanha, seja ela publicitária ou promocional de um qualquer produto que se pretenda vender, estiver um bom realizador, capaz de mostrar às pessoas a beleza de uma pessoa feia e a pureza de uma pessoa má então, aquele cuja imagem de perfeição se pretende fazer passar, ganha logo pontos suficientes para ganhar, com vantagem, qualquer desafio.
- E assim se entrega a um depravado os destinos de uma nação inteira e, ainda por cima, com responsabilidades a nível mundial.
- E bem se viu o resultado da decisão de invadir o Iraque, da teimosa em não respeitar as metas de Quioto, de manter o braço de ferro com a Al-Qaida ou de fazer questão em manter a prisão de Guantánamo....
- Olha Mário, quanto tivermos oportunidade, juro que iremos ver esse filme mas, como estiveste tanto tempo ausente, em sugeria que te deixasses de conversas, encerrasses a Pensão e subisses comigo até ao 2º andar para me mostrares os souvenirs que trouxeste dessa longa viagem que fizeste.
- Tens razão Susana, mais acção e menos conversa.

INAUGURAÇÕES SINTÉTICAS

- Luís, meu caro Luís. Bons olhos te vejam rapaz!!!!
- Olha o Mário, regressou à Pensão. Pensava que tinhas ficado lá pelas “europas” a gozar o dinheiro que o teu tio te deixou.
- Olha meu caro amigo, nem que quisesse não conseguia ficar por muito mais tempo pois a herança não foi nada por aí além e, além disso, é necessário fazer algumas poupanças porque o tempo é de vacas magras.
- A quem o dizes meu caro, a quem o dizes. Então já sabes das novidades?
- De algumas sim, de outras ainda não.
- Já sabes que vão ser sinteticamente relvados os campos de futebol de São Pedro de Alva, de Gavinhos e do Mocidade?
- Já tinha ouvido qualquer coisa mas nada de pormenores.
- Pois é meu caro, vai ser uma maravilha para quem lá joga.
- Até apetece ser rasteirado....E quem é que paga?
- Creio que, além da autarquia, parece que o governo lançou uma iniciativa para promover a construção e, por tal motivo, pagará alguma coisa...
- Mas Luís, achas mesmo necessário tal intervenção naqueles campos de futebol?
- Creio que é sempre uma mais valia para o desporto e para quem o quer praticar.
- Pois, és capaz de ter razão. E outra coisa, qual deles via ser eleito o "estádio municipal"?
- Está-se mesmo a ver qual será...
- O de Gavinhos?
- Claro, ou pensas que quem parte e reparte não há-de ficar com a melhor parte.
- Mas fica tão à beira da estrada, sem lugares para estacionar nem zona para se expandir...
- Meu caro Mário, se houver dinheiro tudo se consegue.
- Bem, por esse prisma, não existem dúvidas que assim será. Mas, mesmo assim, continuo a achar que o campo do Mocidade, ou da Serra como lhe chamam, reunia todas as condições para se tornar no campo municipal, dadas as características do terreno onde está instalado, da capacidade que tem para se expandir e no facto de, aí sim, se encontrar localizado num ponto mais central do concelho.
- Pois é Mário, mas não te esqueças de onde são os que decidem essas coisas. E se, nos restantes equipamentos desportivos fizeram as asneiras que estão à vista, não seria de esperar que desta vez acertassem.
- Pois, tens toda a razão, basta por exemplo ver o estado de degradação a que o "ténis" chegou e a vontade que os responsáveis pela sua manutenção têm em o recuperar.
- De facto, não é preciso ir muito longe para verificar o que ainda existem situações na nossa terra que necessitavam de um intervenção urgente para, pelo menos, as pessoas saberem que delas alguém é dono e que se esforça por delas bem tratar.
- Pois é meu amigo, aqui as coisas são como são. Os donos não querem saber das coisas velhas e que, eventualmente, lhes trazem má memória, antes preferindo construir novo e bonito para, claro, fazerem a respectiva inauguração.

O FIM DAS FÉRIAS

- Finalmente Mário, regressaste!!!
- É verdade D. Rosalinda, já tinha saudades da recepção da Pensão.
- Só da recepção?
- Claro que não. De todos vós e das nossas intermináveis conversas.
- Então conta-me lá como foi essa viagem, estou mortinha por saber por onde andaste e o que viste.
- Olhe D. Rosalinda, corri a Europa de lés a lés. Fui a Espanha, à França, Holanda, Áustria, Suíça, Grécia, Itália, enfim, quase a todos os países e capitais.
- Sabe bem receber assim uma boa quantia, de um tio quase desconhecido, e partir à descoberta das maravilhas na nossa velha Europa.
- Tem toda a razão D. Rosalinda, mas agora, por uns tempos, vou acalmar por aqui e digerir o resultado de toda essa experiência.
- Sabe bem voltar aos lençóis branquinhos da Pensão, não sabe?
- Claro que sabe D. Rosalinda mas, aquilo que mais saudades me deixou, foram os cozinhados da Susana. Sempre que comia nesses restaurantes espalhados por essa Europa, pensava naquele cabrito assado ou naquela lebre à caçador ou até mesmo na chanfana à moda de Penacova que deixei aqui na Pensão.
- Espero que os tenha divulgado bem.
- Claro que sim D. Rosalinda. Houve até um dia num restaurante grego em que, após ter tecido rasgados elogios aos escalopes de vitela da Susana, o chefe de sala quase me obrigou a escrever a receita no livro que todos utilizavam na cozinha para confeccionar as refeições.
- Por este andar ainda vamos ter que dispensar a Susana para um desses famosos restaurantes.
- Nunca se sabe D. Rosalinda, nunca se sabe....Então e novidades por aqui?
- Muitas novidades Mário. Tantas que nem imaginas.
- Assim há-de ser D. Rosalinda, numa terra onde nada acontece e, quando acontece, nunca deveria ter acontecido, parece-me fruta a mais.
- Não Mário, desta vez vão acontecer mesmo coisas diferentes. Vão construir um parque de estacionamento subterrâneo aqui no Terreiro, uma biblioteca e um auditório junto ao cemitério da Eirinha e, junto à piscinas municipais, o novo tribunal judicial.
- Obras de regime???
- Talvez, mas não deixam de ser obras!!!
- E o hotel de Penacova?
- Esse reabriu com nova gerência.
- Como assim?
- Então, desde que o irlandês voou para outras paragens, o nosso presidente pôs-se em campo para arranjar um parceiro à altura de tamanha empresa.
- E conseguiu?
- Claro que conseguiu, quando se tem maioria tudo se consegue. E arranjou um empresário da Curia para tomar conta do empreendimento.
- E com que futuro?
- Olha, provavelmente como o mesmo. Sem prometer nada a ninguém, põe lá o pessoal a servir umas refeições e a receber uns quaisquer hóspedes que se arrisquem por estas bandas e depois logo se vê….
- O costume portanto.
- Sim claro, para não surpreender aqueles que continuam a achar que não vale a pena apostar em Penacova.
- Mas já são pouco D. Rosalinda!!!
- Pois são, e logo por azar são os que mais podem…

domingo, 8 de Junho de 2008

TABERNA ALTERNADEIRA

- Meu Deus Luís, o estado em que tu te encontras homem!!!!
- Como assim Mário?
- Então, não vês que estás completamente ébrio, a cambalear e a tropeçar constantemente em tudo o que te aparece à frente....não devias comporta-te dessa maneira.
- Olha Mário (hic), passei a tarde na Taberna a conversar (hic) e sabes como é, copo para aqui, como para ali e, claro (hic) o resultado está à vista.
-E que resultado!!! Só espero que a D. Rosalinda não te veja nesse estado porque, se assim for, é bem capaz de te expulsar da Pensão.
- Querido Mário (hic), prometo que me vou controlar ao máximo para que ninguém note que em estou alcoolicamente bem-disposto, além disso, o meu estado só comprova que o vinho era bom.
- Pois, pois, vai para lá com essa. Nem te atrevas sequer a referir que estiveste a beber vinho toda tarde, ouviste?
- Juro que nada direi.
- Juras? Quem mais jura mais mente. Mas conta-me lá onde fica essa taberna?
- Então não sabes?
- Eu não, normalmente não saio daqui e também não ando muito a par dessas novidades.
- Então, eu vou-te explicar (hic), mas primeiro tens que me dar um copito.
- Nem pensar rapaz, do que tu precisas é de um banho para ver se refrescas as ideias. Mas conta-me lá onde fica.
- Olha, se desceres por ali (hic), e cortares na primeira à direita, logo te apercebes do "palhinhas" pendurado à entrada da porta.
- Um "palhinhas", muito interessante. Então e sobre que coisas tão entusiasmantes é que vocês conversaram por lá?
- Olha, tirando a vitória da selecção sobre a Turquia, também estivemos a discutir (hic) o resultado das sondagens feita aos penacovenses (hic), sobre o destino que deve ser dado ao hotel.
- E que conclusão é que chegaram???
- Que dava uma óptima casa de alterne.
- A sério? Os penacovenses decidiram nesse sentido?
- Claro (hic), que mais poderiam ter decidido, que não fosse essa possibilidade?
- Bem, se pensarmos nas características do edifício e no local onde se encontra, não diria que esse fosse o melhor fim a dar-lhe. De qualquer maneira, para estar como está, qualquer destino que lhe seja dado será uma mais valia, pois não se admite uma unidade hoteleira daquelas permaneça ao abandono.
- Foi o que todos (hic) que lá estavam pensaram.
- E que mais é que vocês por lá falam.
- Sobre tudo Mário (hic). Política, ambiente, terrorismo, papa-reformas e sobre muitas mais coisas.
- Puxa homem, são conversas interessantes.
- Mas mesmo bom é lá estar e fazer uns comentários a condizer.
- Sabes uma coisa Luís, vou fazer uma pausa de meia hora para lá dar uma saltada.
- Então e eu?
- Tu estás bêbado e como tal, deves subir e tomar um banhinho ou então, como aconselham os mais velhos, beber um café com sal.

sábado, 7 de Junho de 2008

A CENOURA

Li e gostei do que escreveu o Eduardo. Tal como ele, concordo com a ideia de que o nosso país vive na ilusão dos grandes feitos e agarrado à saudade do imenso império que criou e não soube manter.
Vejo que, por momentos, todo o povo fica siderado com a ideia de que a "nossa" selecção vai, finalmente, vencer o Europeu e que os nossos jogadores vão regressar carregados de glória a um país cuja auto-estima, há muito que se encontra pelas ruas da amargura.

Para mim, acho que o sonho vai durar pouco, não porque os rapazes não joguem bem, mas apenas porque os acho mais interessados em andar na moda, em ter lindas namoradas e em construir o futuro numa "grande" equipa europeia do que em defender as cores da nossa bandeira.

Quanto ao resto, e sabendo que o português, por norma, é um indivíduo que ganha mal, que veste mal, que se alimenta mal, que lê mal, que escreve mal e que normalmente está sempre a ser tramado pelos seus eleitos mas que, em contra-partida, fala bem ao telemóvel, tem o melhor carro da rua, a barriga mais proeminente da vizinhança, ou a mulher mais loura do bairro, que ama o seu clube, ama a Amália e não perde um peregrinação à Cova da Iria e que até tira da boca para alimentar as suas ilusões, até acabo por compreender porque é que o Estado utiliza o Fado, Fátima e o Futebol como cenoura para obter os resultados pretendidos, com o objectivo de os mostrar a um povo que adora fogo de artifício.

quinta-feira, 5 de Junho de 2008

AS PERNAS DA CAROLINA

- Mário, caro Mário, o teu Porto lá foi penalizado com um anito....
- Olha João, se queres saber, acho muito bem-feito. Não se admite que um presidente de um clube com tão grande carisma, seja tão ingénuo a ponto de se deixar embeiçar por uma galdéria e, mais grave ainda, de permitir que ela tivesse conhecimento de tudo aquilo que se passa nos bastidores do futebol, sim porque não me venham dizer que no futebol tudo é claro e transparente.
- Segura-te Mário, pareces o gaiteiro a falar.
- Sabes João, custa-me ver as coisas acontecerem desta maneira, principalmente quando não é necessário andar a subornar árbitros, fiscais de linha e outros tais que gostam de viajar e de receber fruta porque, com um plantel como aquele, bastava terem jogado bom futebol. Só espero que o Filipe Vieira também conheça uma Carolina que lhe enfernize a vida.
- Ainda achas que foi o Filipe?
- Claro que acho, quem mais poderia ter sido?
- Mas o Pinto da Costa tem muitos inimigos, e tu sabes bem disso.
- Pois, tens razão, mas nenhum deles é mulher e muito menos prostituta. Não viste o exemplo da ex-mulher que já está com ele outra vez e desistiu de todas as queixas que apresentou contra ele.
- Imagino a que preço!!!
- O preço não interessa, o que interessa é o resultado que, no caso concreto, até veio mesmo a calhar, pois assim é menos uma dor de cabeça para o homem
- Olha amigo Mário, só te tenho a dizer uma coisa. Quem anda à chuva molha-se.
- Pois, eu sei, mas podia ser chuva miudinha João, para não magoar tanto.

DE ESPANHA COM AMOR

- Bom dia Susana.
- Bom dia Nicolau. Olha, tenho-te a informar que a entrada para a Pensão se faz pela recepção e não pela cozinha.
- Tens razão mas, sabes, venho ao cheiro.
- Ao cheiro?
- Sim, ao cheiro da comida boa. Do café e das torradas da manhã....
- Pois mas eu não sei a D. Rosalinda está sabedora da situação.
- Olha minha cara se está ou não não sei mas, agora que cá estou dentro, também não me vou embora tão depresssa, pelo menos sem tomar o pequeno-almoço.
- Pois está bem, senta-te aí então e espera. Está a suspirar porquê homem?
- Olha porque a minha profissão de gaiteiro não tem futuro nesta terra e até mesmo neste país.
- Ah sim? E para onde é que tu achas que conseguias mais sucesso?
- Olha, em Espanha, por exemplo.
- E em Espanha porquê?
- Porque em Espanha é tudo melhor. Olha só o caso dos pescadores. Desde que foram impedidos de vender o peixe que pescam em Portugal, arrancaram para Espanha e, vê só, conseguem vender o Peixe mais caro, pagam menos taxas, são mais bem recebidos e, ainda por cima, abastecem os depósitos com combustível mais barato.
- Olha, com toda essa mordomia, ainda vais fazer alguma tourné para o país vizinho.
- Nunca se sabe Susana, nunca se sabe...
I

terça-feira, 3 de Junho de 2008

PESCA EM DIRECTO

Ontem, ao ver o prós e contras na televisão da Pensão, fiquei com a agradável sensação de que todos os intervenientes no debate se esforçaram, com urbanidade, por encontrar soluções para a resolução dos problemas que afectam o sector da pesca em Portugal e, naturalmente, na Europa.
A oportunidade com que se realizou tal debate, colocou reclamantes e reclamados num frente-a-frente que teve como principal resultado o estabelecimento de compromissos e metas a alcançar, tanto por parte do governo, como dos representades do sector.
Independentemente de tal debate apenas vincular moralmente os presentes, uma coisa ficou clara. Foi bastante esclarecedor e, acima de tudo, diminuiu as crispações. Além disso trouxe para o grande ecrã um problema social, que nos afecta a todos, e que, pela sua actualidade, ajudou aqueles que o viram, a formar as suas opiniões acerca do assunto, longe do clima de violência e reivindicação que normalmente acompanha o encerramento de uma lota e que, na maior parte das vezes, se traduz na prática de actos insensatos e condenáveis.

segunda-feira, 2 de Junho de 2008

RIO LARANJA

Não tenho dúvidas absolutamente nenhumas, que o próximo candidato que o partido social democrata vai apresentar ao eleitorado português para ganhar as próximas eleições legislativas vai ser, tão só, o edil da câmara da cidade do Porto, pois só ele tem arrogância necessária e suficiente para agitar os poderes instalados e para trazer uma nova ordem ao país, só não avançando de imediato, porque ainda há muito trabalho mau para fazer até que ele se apresente como o homem ideal para acabar com a hegemonia socialista.
Escusado será dizer que o partido socialista vai ser, de novo, o eleito pelo povo português para governar o país durante mais quatro anos e, a ser assim, só depois desses passados, é que o maior partido da oposição vai conseguir cativar um eleitorado já farto de ver as mesmas caras e consciente de que está na hora de colocar em prática a alternância democrática. Portanto, não me espanta o resultado obtido pela ex-ministra das finanças nem sequer me espanta que os militantes do partido laranja não decidam, para já, lutar pelo poder porque, melhor do que ninguém, sabem não ter hipóteses para o ganhar. Assim, preferem manter em lume brando a vontade de governar, até que, por desgaste, o partido socialista comece a ficar demasiado agarrado ao poder, não por ter vontade de governar, mas apenas por ter vontade de o manter.

O PRAZER DE ESCREVER PARA O PÚBLICO

I

- Olha Mário, estava aqui a dar uma navegadela na internet e vi que um artigo publicado no blogue de São Paio de Mondego também foi contemplado na edição impressa do Público do passado dia 31 de Maio.
- A sério, não me diga que foi como o nosso em 15 de Outubro de 2007 menina Alice? Estou tão feliz por em Penacova se "produzirem" textos que, pela sua qualidade, são eleitos para publicação num órgão de comunicação tão conceituado como aquele.
- Eu não me admiro tanto Mário porque, esta coisa de escrever não é propriedade só de alguns, mas sim de muitos que, só não são conhecidos e não exercitam a sua escrita porque, muitas das vezes, não têm meios para o fazer.
- Seja como for menina Alice, é sempre bom ver aquilo que escrevemos está acessível a um número considerável de pessoas, que depois se tornam assíduos leitores daquilo que se vamos continuando a escrever.
- Claro Mário, tens toda a razão e, acima de tudo, como tu disseste, tal situação não deixa de ser uma promoção da nossa terra.
- Olhe menina Alice, em nome da Pensão Viseu, para o blogue de São Paio, para os seus colaboradores e para quem que, daquela equipa, dá o melhor de si nesta causa, que é a divulgação da nossa terra através da blogosfera, dirijo as melhores felicidades e que continuem esse trabalho magnífico.
- Também acho Mário, eles merecem.

sexta-feira, 30 de Maio de 2008

PATRIMÓNIO DA JUVENTUDE

I

- De regresso à Pensão Matias?
- É verdade Mário, de vez em quando perco-me por aqui.
- Mas perdeste-te por alguma coisa em especial ou apenas por ter tido saudades da terrinha?
- Olha Mário, pelas duas coisas. Aproveitei o facto de, durante este fim-de-semana, decorrer em Penacova a Festa da Juventude e, não nego, também um pouco de saudade desta terra, paisagisticamente, maravilhosa.
- Fizeste muito bem em optar por Penacova este fim-de-semana, porque a coisa promete. A D. Rosalinda é que não vai gostar muito do barulho mas, paciência, porque sem barulho não se faz nada, não achas?
- Caro amigo, Festas da Juventude sem barulho, são impossíveis de acontecer seja em que parte do mundo for!!!
- A Susana está boa?
- Sim, está tudo bem, a Susana, a Luísa, a Cristina, a menina Alice. Muita saúde e, acima de tudo, o negócio não tem corrido mal, apesar da crise.
- Pois, a crise é geral. Greves por todo o lado, preços exorbitantes, salários medíocres, enfim, o costume.
- Parece que, apesar das constantes lutas por uma melhor qualidade de vida, não evoluímos nada, não achas? As pessoas continuam com os mesmos problemas de falta de liquidez, precariedade no trabalho, deficiente assistência médica e tantas outras coisas, que diariamente nos incomodam, e nos fazem andar sem disposição nenhuma para alegrias.
- Olha Mário, não me apetece falar de tristezas. Queria perguntar-te uma coisa.
- Força Matias, desembucha.
- Li no Notícias de Penacova que o Mirante Emídio da Silva faz 100 anos?
- Pois, parece que sim, mas é só amanhã. Também viste aquelas fotografias?
- Magníficas, mas eu gostaria de oferecer uma outra fotografia, que encontrei no baú do meu avô, e que poderá ficar pendurada na parede da Pensão para celebrar esse acontecimento.
- Por mim acho óptima ideia, mas tens primeiro que falar com a D. Rosalinda.
- Claro que sim Mário!!! Aliás até posso falar já, uma vez que ela se dirige para aqui.
- Olha que rapagão que cá está?
- Bons olhos a vejam D. Rosalinda, a senhora está com bom aspecto!!!
- Tu é que vês mal Matias, o que eu estou é cada vez mais velha, isso sim.
- Não está nada D. Rosalinda, está é mais sábia.
- Muito obrigada pelo lisonjeio. Fico muito agradecida.
- Olhe D. Rosalinda, antes de falarmos sobre outras coisas, gostaria que a senhora aceitasse um presente meu.
- Um presente? Adoro presentes!!! Então de que se trata?
- Bom D. Rosalinda, como eu sei que a senhora gosta de ver expostas fotografias sobre Penacova, quer sejam antigas ou actuais, trouxe-lhe uma que, no fundo, servirá para celebrar os 100 anos do Mirante.
- Mostra cá Matias. Olha, nunca a tinha visto o Mirante desta perspectiva!!! E dizes tu que vai quê, fazer 100 anos?
- É verdade D. Rosalinda. Foi inaugurado no dia 31 de Maio de 1908.
- Bom, nesse caso, vou mesmo aceitar o teu presente para pendurar na parede. Só é pena que os responsáveis pela promoção, divulgação e conservação do nosso património, não se tenham lembrado dessa efeméride na nossa terra e, em vez disso, façam uma festa cheia de barulho, mesmo ao pé da nossa porta.
- Olhe D. Rosalinda, mas também é preciso haver eventos dessa natureza na nossa vila. É sinal que está viva.
- Sabes Mário, só é pena que o Dr. Araújo já não viva em Penacova.
- Então porquê D. Rosalinda?
- Porque, ao mínimo barulho no Terreiro, chamava a G.N.R. e acabava logo com a festa.
- Então, se assim é, ainda bem que ele foi viver para Oliveira do Mondego...
I

terça-feira, 27 de Maio de 2008

ACONTECEU

- Foi realmente um pena.
- Pois foi D. Rosalinda, principalmente porque era uma pessoa muito divertida que, quando entrava pela cozinha da Pensão, começava logo a contar aquelas estórias divertidas que se passaram com ele.
- Lembras-te Susana, quando ele contava aquela do pousio e do catrapanázio?
- Se lembro D. Rosalinda. Era uma cobra que era dona de um terreno, ou uma coisa assim parecida!!! E quando íamos de táxi a Coimbra às compras e ele conhecia toda a gente por quem passava?
-E todos o cumprimentavam também. Era mais uma das pessoas divertidas que nos deixou para sempre.
- Olhe D. Rosalinda, o que eu costumo dizer quando isto acontece, é que ficam os bons momentos que em vida passámos e as recordações com que ficámos.
- É verdade Susana, costuma-se dizer que "a vida são umas férias que a morte nos dá".
- E é bem verdade D. Rosalinda porque, afinal, não valemos nada e, neste mundo, devemos andar sem nos chatearmos uns com os outros porque a nossa passagem por aqui é demasiado curta.
- Estão falar de quê afinal?
- Olha Mário, estamos a recordar aquelas coisas engraçadas que o Sr. Alípio Costa dizia.
- Então porquê?
- Não ouviste os sinais?
- Claro que ouvi, mas estava tão atarefado com as minhas ocupações que nem tive curiosidade em saber quem foi.
- Pois faleceu hoje.
- Que pena, era bom homem e gostava de fazer os outros felizes com aquelas estórias que contava que pareciam saídas de um filme do Mr. Bean.
- Pois era Mário, contava aquelas coisas com uma graça que era impossível não rirmos às gargalhadas.
- Olha Susana, fica a memória das coisas boas.
- Era exactamente disso que estávamos a falar.
- O funeral é quando?
- Creio que é amanhã às 18 horas.
- Vou fazer os possíveis para o acompanhar na última morada.
- Sim, é o mínimo que podemos fazer.

domingo, 25 de Maio de 2008

O DITO POR NÃO DITO

- Boa tarde senhor, dá-me licença?
- Concerteza meu caro, faça favor. Então, o que o traz por aqui?
- Sabe senhor, eu sou funcionário da autarquia e vim aqui tentar corrigir um equívoco.
- Diga lá então.
- Há dias, a propósito do Parque Patrimonial do Mondego, foi aqui dito por alguém que os funcionários da autarquia andavam a despejar o limpa-fossas directamente no rio.
- E é falso meu caro?
- Completamente falso. O que se tem acontecido é muito simples de explicar. Desde que recomeçaram as obras do LIDL são inúmeros os limpa-fossas que se dirigem ao rio para abastecer de água a fim de manter limpa a estrada utilizada pelos camiões que, como sabe, está toda enlameada por causa da chuva que tem caído.
- Ah, agora compreendo, o que parecia ser um despejo, é afinal um abastecimento, não é verdade?
- Exactamente.
- Então e por tal motivo deslocou-se o senhor aqui à Pensão para desfazer tal equívoco.
- É verdade, e olhe que o meu chefe está muito chateado com essa insinuação.
- Diga ao seu chefe que está tudo esclarecido e que tal equívoco não volta acontecer. Mas diga-me cá outra coisa. Não é verdade que há uns tempos o conteúdo dos limpa-fossas era despejado em pinhais e até no próprio rio?
- Sim, nos pinhais eram despejados, mas só a pedido dos donos, e no rio também acontecia mas não me lembro há quanto tempo, em que sítios, nem quantas vezes.
- Então, não foi tão descabida a conclusão que se tirou quando os limpa-fossas foram vistos junto ao rio, não é verdade?
- Sim é possível tirar essa conclusão, mas juro-lhe que isso não acontece há muito tempo, pois as normas que regem o ambiente, são totalmente respeitadas.
- Então, nesse caso, onde é que despejam?
- Nas E.T.A.R's, pois então!!!
- Ainda bem que assim é, e que agora estamos bem melhor esclarecidos acerca do destino que é dado a tal efluente. Agora meu caro, uma vez que estamos perfeitamente elucidados e que tudo não passou de um mal-entendido, diga-me se vai tomar alguma coisa.
- Olhe senhor, só se for um tintito.
- Lamento meu caro, mas na Pensão não servimos vinho à taça.

LUTAS DE VIDA

- Arrepiei-me toda D. Rosalinda, foi uma coisa nunca vista...
- Estás a falar de quê rapariga?
- Do festival da canção, do que é que havia de ser?
- Olha Luísa, nem sequer estava a pensar em tal coisa, mas também eu me arrepiei. Há muito tempo que não se ouvia canção tão bonita a representar Portugal.
- Também acho D. Rosalina, ainda bem que houve a Operação Triunfo para descobrir todas as bonitas vozes que por este país cantam.
- Olha Luísa, a julgar pelo resultado, continuamos a ser um país pequeno de grandes cantores. Por muito bonita que seja a canção que nos vai representar, ficamos sempre aquém das (nossas) expectativas.
- Deixe lá D. Rosalinda, ao menos vamos lá e mostramos a nossa raça!!!
- Pois pois Luísa, o que nos vale é a nossa raça.
- Olhe D. Rosalinda, vem aí a menina Alice e eu aproveitou para ir andando para o andar de cima arrumar os quartos.
- Vai lá Luísa que é quase meio-dia e ainda tens muito que fazer. Então minha filha, dormiste bem?
- Mais ou menos avó. Com esta chuva toda a noite a cair, não consegui pregar olho.
- Dormes durante a tarde Alice.
- Olha Avó, quero perguntar-te uma coisa, conheceste o Dr. Homero Pimentel?
- Claro que conheci. Todos em Penacova com a minha idade e com a idade do teu pai, conheceram o Dr. Homero. Uns como professor, outros como pessoa boa que era.
- Pois devia ser um boa pessoa, para darem o seu nome à rua junto das escolas.
- Junto às escolas cuja construção ele iniciou, convém frisar, porque foi ele que há trinta e tal anos colocou a primeira pedra no edifício onde hoje funciona o ciclo.
- Ainda bem que a nossa terra reconhece os seu filhos e, principalmente, aqueles que por ela fizeram algo de relevante.
- Não será bem assim mas, no caso concreto, acaba por ser uma justa homenagem o que não quer dizer que todas o tenham sido ou até mesmo que todos aqueles que por Penacova alguma coisa fizeram, tenham sido homenageados.
- Pois avó, mas para esses fica a memória daqueles que fazem questão de não os deixar esquecer. Quanto aos outros, se não houver quem tome a iniciativa de lhes prestar o justo reconhecimento, acabam por cair no esquecimento.
- É a vida Alice. Às vezes, mais do que todos desejariam, os que mais fizeram por uma nobre causa, são os ficam esquecidos, ou porque se tornaram incomódos em demasia ou porque, os que cá ficaram, não souberam, ou não lhes foi permitido, lutarem por esse reconhecimento.
- Olha Avó, a propósito disso estava aqui a ler um poema de Brecht que nos faz pensar precisamente na importância da obra das pessoas que nunca abandonam o objectivo pelo qual lutam durante toda a vida.
- Então Alice, porque esperas?
- Aqui vai avó:
Há homens que lutam uma hora e são bons,
Há homens que lutam um ano e são melhores,
Há homens que lutam muitos anos e são muito melhores,
Mas há homens que lutam toda a vida: Esses são os imprescindíveis.
I

quarta-feira, 21 de Maio de 2008

BONITAS MULHERES SEM POLITIQUICES

- Então rapaz, bom olhos te vejam!!!
- É verdade Mário, há algum tempo que não passava por aqui.
- Tens andado ocupado?
- Muito ocupado meu caro, tenho que andar de um lado para o outro, todos os dias sem parar, e por isso não tem sido fácil dispor de algum tempo para passar por aqui e conversar contigo.
- Pois, imagino que não seja fácil. E a vida corre?
- Tem que correr, apesar da crise, o dinheiro não se ganha se ficarmos em casa, se bem que, ao preço que estão as coisas, não compensa muito andar de um lado para outro a tentar ganhar algo mais.
- Está terrível esta vida, não está Luís?
- Se está Mário, então a julgar pelo preço dos combustíveis que não para de aumentar.
- Olha amigo, mais vale não pensar nisso porque senão não saímos de casa e tu bem sabes que em casa não ganhamos dinheiro.
- Pois está bem, mas também não o gastamos.
- Falemos de coisas mais alegres. Por cá está tudo bem?
- Olha amigo, tivemos um fim-de-semana em cheio. Um desfile de moda e um festival de fanfarras.
- Fogo, tanta coisa em dois dias?
- É verdade Luís e digo-te uma coisa, não imaginas as beldades que por aqui temos.
- Nem tu imaginas o quanto eu imagino Mário. Sei muito bem que Penacova é uma terra de bonitas mulheres que, quando se cuidam, ficam tão bonitas como qualquer modelo de capa de revista.
- E este fim-de-semana, vai haver alguma coisa por aqui?
- Claro que vai, ultimamente tem sido uma coisa fora do comum. Todos os fins-de-semana há qualquer coisa nas diversas localidades do nosso concelho e este não é excepção.
- Então conta lá.
- Olha amigo, a partir de amanhã, vai ter lugar em Lorvão a Feira de Artes e Cultura que se vai prolongar até Domingo.
- Bom, nesse caso, vou ficar por aqui mais uns dias e aproveitar para visitar a vila do mosteiro.
- Se ficares por cá, vais ter a oportunidade de assistir ao IV Encontro de Coros na Casa do Povo.
- Ena pá, tanta coisa em quatro dias!!!!
- É para tu veres. Não há fome que não dê em fartura.
- É sinal que a sociedade está activa e a funcionar e que as colectividades demonstram ter capacidade para organizar eventos interessantes.
- Sem politiquices.
- Exactamente. Apenas com objectivo de valorizar a terra onde vivem e contribuir para preservar o património que a todos pertence.

quarta-feira, 14 de Maio de 2008

COMPARAÇÕES DE MERDA

- Desculpe Sr. Joaquim mas, como bem sabe, é proibido fumar em recintos fechados.
- Tem razão Mário mas, perante a notícia hoje tornada pública, a proibição afinal pode ser contornada.
- Pois é meu caro Joaquim, mas apenas por ministros.
- Então quer dizer que se o Sr. Sócrates e o Sr. Pinho entrassem pela pensão dentro de cigarro na boca, o meu amigo até lhe ia levar o cinzeiro, não era?
- Bem, o cinzeiro não lhe levaria mas, provavelmente ficava um bocado embaraçado.
- Mas tinha que, pelo menos, fazer algum reparo.
- Poderia, por exemplo, começar a limpar os avisos que se encontram nas várias salas da pensão, assim como quem não quer a coisa mas sempre a querê-la.
-Já percebi Mário. Você limitava-se a provocar um situação que os alertasse para a infracção que estavam a cometer.
- Exacto.
- Então porque é que eu não tenho o mesmo tipo de tratamento?
- Então meu caro Joaquim, é fácil de perceber porquê.
- Vá, diga lá.
- Muito simplesmente porque o nosso primeiro-ministro não entraria na pensão a fumar um cigarro mas sim um charuto e, por tal motivo, as regras a aplicar seriam outras uma vez que se tratava de algo que, pelas suas características, não podia ser comparado a um simples cigarro.
- Olhe Mário, sabe uma coisa?
- Diga Joaquim.
- Vá à MERDA.

quarta-feira, 7 de Maio de 2008

GUERRA DAS CAPELINHAS

- Conta-me cá Leonardo. Tu, que foste polícia, achas que foi boa a escolha de Almeida Rodrigues para director nacional da Polícia Judiciária?
- Acho que sim Mário, até acho que já devia ter sido assim há muito tempo.
- Mas normalmente quem é investido nesse cargo, é um magistrado judicial ou do ministério público.
- Pois, assim tem sido e se calhar é por causa disso que os problemas teimam em não ser resolvidos.
- E achas que agora vão desaparecer de um dia para o outro?
- Isso não direi Mário, mas sou da opinião que poderá ser uma boa solução para, pelo menos, restituir à polícia judiciária o estatuto de que sempre gozou.
- Sim, na verdade a PJ sempre foi a menina dos olhos do ministério da justiça e sempre foi tida como uma das melhores do mundo, do tipo que resolvia os casos mais bicudos e aparentemente irresolúveis.
- Olha Mário, eu creio que o grande problema da PJ foi não ter conseguido lidar com as vozes que se levantaram contra o método utilizado no caso Madeleine. Até ali nunca tinham sido questionados porque os resultados iam aparecendo de forma positiva, sem muito mediatismo, sempre com a prata da casa, obtendo confissões alegadamente à força, enfim, tudo na maior das tranquilidades. Depois do caso da menina McCann, as coisas nunca mais foram iguais.
- Sim Leonardo, também me apercebi que eles não estavam muito à vontade para esclarecer as dúvidas, quer dos advogados dos pais da menina quer dos jornalistas e dos peritos ingleses.
- Por tudo isso amigo Mário, por acharem que não tinham que prestar esclarecimentos a ninguém é que se começaram aperceber que não eram assim tão infalíveis e depois disso, começaram a aparecer os pontos mais fracos daquela polícia, com a substituição dos responsáveis pela investigação, enfim uma grande trapalhada.
- E achas que vai resolver alguma coisa?
- Acho que sim Mário, mas para mim o ideal era que todos pertencessem a um só organismo, tutelado por um só ministério.
- Tal como defendia o Alípio Ribeiro?
- Exactamente!!! Assim acabavam as capelinhas e todos trabalhavam para o mesmo sem andarem a esconder as coisas uns dos outros e a ver a quem é que cabe fazer isto ou aquilo.
- E sempre à custa dos contribuintes...
- Claro, como se os problemas do dia-a-dia não bastassem para nos incomodar, ainda temos que andar preocupados em saber se as polícias desempenham convenientemente o papel para que foram criadas.
- Olha amigo, vamos mudar de assunto e beber mais uma imperial, acompanhada por um pires de tremoços da Luz para desanuviar um pouco e para arranjar apetite para o jantar.

terça-feira, 6 de Maio de 2008

DESPUDORADAMENTE EMBRIAGADOS

O Riças andava extremamente inquieto, não parando de se coçar e de lamber aquelas partes que só os cães gostam de lamber despudoradamente, como se não soubessem o significado do termo, ou talvez por isso mesmo.
Com o tímido chegar do tempo quente, a esplanada já acolhia os hóspedes que adoravam apreciar a vista sobre o Mondego.
Uns eram ingleses, outros finlandeses, alguns espanhóis e outros portugueses. Por norma, nem uns nem outros gostam de exagerar no consumo de bebidas alcoólicas, não que às vezes não lhes apeteça mas, ao olharem para o aspecto respeitável da pensão, logo pensam duas vezes antes de iniciarem uma viagem com um regresso quase sempre conhecido mas esquecido. Em todo o caso a D. Rosalinda fez questão de me advertir da necessidade de "controlar" os casais com filhos pequenos, para a eventualidade de cometerem alguns excessos do tipo daquele que aconteceu em Vilamoura.
I
- Oh D. Rosalinda, fique descansada que ao primeiro sinal de embriaguez vou logo direito à pessoa na tentativa de a dissuadir de tal comportamento.
- Fazes bem Mário, não quero cá crianças embaraçadas a olhar para os pais embriagados.
- Sabe uma coisa D. Rosalinda, os papéis parece estarem a inverter-se.
- Achas Mário?
- Claro que sim D. Rosalinda. Se até aqui eram os pais que ficavam embaraçados com o comportamento dos filhos agora são os filhos que ficam embaraçados com o comportamento dos pais.
- Tens toda a razão Mário. Parece que à medida que crescem ficam mais irresponsáveis.
- É do stress D. Rosalinda.
-Bom, hoje em dia o stress é desculpa para tudo.
- Para quase tudo D. Rosalinda, porque para a estupidez e para a irresponsabilidade não é desculpa concerteza.
- Olha Mário, cá para mim a culpa principal é do alcoól.
- Como assim D. Rosalinda?
- Então, se eles não beberem não fazem asneiras.
- E se calhar também não vinham para Portugal?
- És capaz de ter razão Mário mas, pelo sim e pelo não, vai deitando o olho àquele casal de inglês com os dois meninos que estão na mesa 9 da esplanada.
- E se eles se portarem mal?
- Nesse caso tens que ser tu a levá-los para a cama.
- E os meninos?
- Chamas a Luísa que ela leva-os para a cozinha onde, com a Susana, tratará muito bem deles.
- Eu vi logo que ia sobrar para mim. A partir de agora só bebem água ou cerveja que não embebede.

sábado, 3 de Maio de 2008

ESPIRITUALIDADES

- D. Rosalinda, então que cara é essa?
- Olha Mário é cara de cansada....Sabes que vir a pé desde a "Rotunda da Roda" e depois estar ali em pé uma data de tempo já não é bem para a minha idade, não achas?
- Bom D. Rosalinda, costuma-se dizer que quem corre por gosto não cansa...
- Pois está bem, já sei, mas não tenho tempo para essas conversas pois tenho que ir para a cama descansar as pernas.
- Faz bem D. Rosalinda, daqui a nada vou fazer o mesmo porque a noite está fresca demais para estarmos lá fora na esplanada.
- Então, fica cá dentro e vê se chegam clientes.
- É o que vou fazer D. Rosalinda. Durma bem!!!
- Até amanhã para vocês os dois.
- Até amanhã D. Rosalinda - responderam em uníssono.
- Esteve muita gente no Terreiro esta noite, não esteve Mário?
- Se esteve Luís!!! Dúvidas não existam de que este padre sabe cativar os católicos da nossa terra...
- Soube unir o rebanho, queres tu dizer.
- Sim, pode ser visto dessa maneira, mas também é certo que o rebanho necessitava de outro pastor.
- Olha meu caro Luís, nunca gostei muito dessas coisas de rebanho, parece que cada um não sabe tomar conta de si.
- Pelos vistos, a julgar pela quantidade de pessoas que lá estavam!!!
- Pois tens razão amigo, mas o que eu acho estranho, e até difícil de aceitar, é que a igreja na nossa terra é a única "organização" que consegue atrair o interesse das pessoas a ponto de reunir num só espaço uma quantidade significativa de fiéis.
- Isso só acontece porque as outras "organizações" da nossa terra, não estão reunidas à volta de um interesse comum e talvez por isso não sejam tão atraentes aos olhos dos que procuram algo mais para além dos problemas do dia-a-dia muitas das vezes tão extenuantes.
- Estás então a dizer que todos aqueles que lá estavam, faziam-no apenas pela busca do conforto e da paz de espírito, do reencontro com Cristo, despojados das riquezas aparentes, da vaidade, da hipocrisia ou até mesmo da avareza ou da mentira?
- Bem....não direi que toda a gente estivesse lá imbuída desse espírito mas, pelo menos um devia estar.
- Quem?
- O Sr. Padre, pois claro.

quinta-feira, 10 de Abril de 2008

UMA QUESTÃO DE RECIPIENTE

- Estavas à espera que houvesse resposta?
- Não, claro que não, mas é uma vergonha todos admitirem que isso acontece e nada fazerem para o impedir!!!
- Não te esqueças meu caro, que os partidos políticos têm necessidade de ter em lugares chave da nossa economia, e não só claro, indivíduos que, a qualquer momento, estabeleçam a ponte entre quem governa, os patrões e os governados.
- Até há quem diga que, em política, só os porcos é que mudam porque, relativamente à maceira, essa é, e será sempre a mesma.

PARQUE PATRIMONIAL DO MONDEGO - UMA (PRECIOSA) CONTRIBUIÇÃO

- Então D. Rosalinda, também tem ouvido falar no Parque Patrimonial do Mondego?
- Sim Mário, claro que sim. Até te digo que o rapaz que está à frente dessa iniciativa, tem olho para o assunto e a ideia de (re) criar todo o ambiente que rodeava a vida dos barqueiros, das lavadeiras e de todos aqueles que do rio tiravam o seu sustento tem pernas para andar.
- Foi o que eu pensei D. Rosalinda, sé espero que todos cumpram a sua quota parte na "construção" desse parque.
- Digo-te uma coisa Mário, enquanto todos continuarem a pensar que o rio é um caixote do lixo, esse projecto não vai em frente.
- Também sou da sua opinião, mas também lhe digo que se não houver uma fiscalização eficaz, essa iniciativa não passará de um processo de boas intenções, tanto mais que, quem devia fiscalizar, não dá o melhor exemplo aos munícipes.
- Estás a falar dos responsáveis pela área do ambiente (se é que existe), da autarquia?
- Claro que sim D. Rosalinda, ainda na passada 3ª feira o limpa-fossas da Câmara Municipal estava a descarregar o seu conteúdo directamente para o leito do rio, não crendo eu que, com tal atitude, a autarquia contribua para o sucesso dessa iniciativa.
- A não ser que seja a forma que os nossos autarcas encontraram para fertilizar a flora e a fauna existentes no rio, ou então, para participar na construção desse bendito parque.....

quarta-feira, 9 de Abril de 2008

CAÇADORES (DES)AFORTUNADOS

- Então Alice, ainda não falámos de como correu o dia no parque verde de Penacova.
- Ai Susana, nem me fales!!! Olha, o parque de verde não tem nada. Em vez de lá colocarem uma árvores já crescidas, com algumas folhas para decorar, colocaram lá uns paus virados ao ar que não dá para perceber muito bem se são árvores ou se são simplesmente umas estacas.
- Mas tens que compreender que, provavelmente, não tinham disponíveis árvores maiores e mais "decoradas" como tu dizes para lá colocarem e, por tal facto, tiveram que se remediar com as que lá estão.
- Lérias Susana, são só lérias que eles todos têm. O "Parque Verde" como lhe chamam, é a prova que nesta terra nada muda. Fazem tudo para poupar e, depois, dizem que não era possível fazer melhor.
- Sim, tens razão. Se pensarmos no pavilhão gimnodesportivo, nas piscinas municipais, é fácil perceber que aqui tudo nasce torto e tarde ou nunca se endireita.
- Depois Susana, por os responsáveis pela autarquia não fazerem as coisas como deve ser, têm que os clubes pôr mãos à obra para colmatar as deficiências das infra-estruturas existentes, como em Chelo por exemplo.
- E, às tantas, com subsídios da autarquia!!!!
- Isso não sei Susana mas, pelo menos, vão ser convidados para a inauguração as mais distintas entidades do nosso concelho e arredores.
- Então Alice, não digas mais nada.
- Como assim Susana?
- Então, está bom de ver, abriu a caça ao voto e quanto mais inaugurações tiverem lugar, mais votos amealham.
- És capaz de ter razão, olha que não tinha pensado nisso.

quinta-feira, 27 de Março de 2008

O DILEMA DO SEXO

A menina Alice, muito surpreendida, perguntou à avó se apenas às mulheres estava concedida a faculdade de terem filhos.

- Claro que sim minha filha. Porque é que perguntas?
- Sabes avó, é que eu vi na televisão uma notícia sobre um homem que vai ter uma filha em Junho!!!
- Credo filha, como é que pode ser possível???
- É verdade avó.
- Olha minha filha, também há uns anos, ainda tu não eras nascida, deram notícia de um homem que ía ser mãe, tudo não passou de um farsa.
- Mas desta vez é verdade, o rapaz conseguiu engravidar de uma menina!!!
- Mas ele nunca foi mulher? Sim porque estas coisas não acontecem por acaso. O ser humano tem que ter determinadas caraterísticas para conceber uma criança.
- Pois está bem. Mas este já foi mulher!!!
- Então, só podia....não há milagres!!!
- Então....quer dizer que o rapaz já foi mulher, mudou de sexo para ser homem e agora tem um filho como as mulheres?!?!
- Pois é Alice, as pessoas são muito esquisitas. Já imaginaste o dilema daquela criança? Quando crescer, não sabe se há-de chamar pai ou mãe.
- Muito complicado avó. Vale mais sermos como somos e não ligar muito a estas transsexualidades.

sábado, 22 de Março de 2008

LIBERDADE - UNS COM TANTA OUTROS COM TÃO POUCA

O Luís é um amigo de longa data. Faz da Pensão a sua 2ª casa e, sempre que pode, vem cá tomar o cafezinho do almoço. Hoje, tal como nos outros dias, aparece por esta hora para tomar o dito e conversar um pouco.
I
- Então Mário, tudo bem?
- Tudo na maior Luís. Queres um café?
- Sim claro. Pelo que estou a ver também vais jogar.
- Claro que vou, aliás, tenho a sensação que o jogo nem se realizaria se eu não jogasse.
- Era melhor.
- Estou a brincar. E novidades amigo?
- Olha Mário, estou muito apreensivo com a situação no Tibete.
- E não é para menos, tanto mais que a China ameaçou os manifestantes de tomar medidas drásticas para evitar qualquer manifestação de protesto contra aquela ocupação ilegal.
- Faz-nos recordar Tianmen. Todas aquelas mortes.
- São assim as ditaduras meu caro Mário. A opressão mistura-se com o progresso, fazendo-nos pensar por momentos que é tudo um mar de rosas e que as manifestações de descontentamento são episódios pontuais levados a cabo por loucos descontentes e sem razão.
- Propaganda pura e dura. E cá dentro Luís, as coisas também não estão muito bem pois não?
- Não, claro que não, principalmente no ensino.
- Nem me fales Luís. Chocaram-me as imagens daquela aluna a agredir a professora, em plena sala de aula, por causa de um telemóvel.
- Inadmissível Mário. Nunca vi tamanha situação. É a completa degradação do ensino.
- Os pais também não ensinam os filhos a respeitar os professores.
- Claro que não Luís. São demasiado permissivos, havendo casos em que até incentivam os filhos a terem aqueles comportamentos.
- Sabes Mário, eu não consigo compreender como é que um pai que não é professor, que não está dentro dos programas e ainda por cima não acompanha o percurso escolar dos seus filhos, se sente com legitimidade para julgar a capacidade profissional dos professores?
- Mas os professores também têm culpa no cartório.
- Como assim?
- Basta ver a forma como alguns se relacionam com os alunos. Dão-lhes toda a liberdade do mundo, depois quando querem impor autoridade, já não vão a tempo de recuperar o que quer que seja.
- E o ministério também não ajuda.
- Claro que não, depois, ao verem toda esta "perseguição" à classe, os alunos pensam que também lhes é legítimo agirem como se de um colega deles se tratasse.
- Tens razão Luís, tudo isso contribui para que se instale a confusão e depois ninguém sabe quem manda em quem e os casos problemáticos aparecem.
- Até que alguém tome uma posição de força e depois é um 31 porque vêm logo uns sabichões dizer que não se devia agir assim, que deviam ter sido tomadas medidas preventivas, que os meninos são novos, não pensam, ou que os professores são uns “calões”, que só querem greves e tachos….
- Acaba sempre por ser tardia qualquer medida com vista à resolução da situação. E além disso hão-de depois aparecer aqueles que aproveitam toda a confusão para se armarem em vítimas e para reclamarem alguma coisa mais, como de costume.
I

quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

TIRO AO ALVO

- Olhe D. Rosalinda, afinal os hóspedes não queriam nada. Sentaram-se para falar um pouco sobre a actualidade.
- Humm!!! Estou a perceber. Já não tenho é tanta agilidade com os dedos, mas ainda consigo acertar num ou noutro.
- D. Rosalinda, não me diga que também está a tentar sair da garagem?
- Não Mário, agora estou a tentar acertar nos políticos.
- Ah...esse jogo também é muito engraçado. Volta e meia estão a mandar-me mails. É bom saber que temos pessoas que se lembram de nós, nem que seja por mail.
- Então Mário, enviar um mail é como escrever uma carta.
- Exactamente D. Rosalinda, sem ter que pagar sêlo.
- Lógico. E com a vantagem de nos podermos rir um bocado.

CONDUTOR DESENRASCADO

- Então Mário, não vê que chegaram pessoas?
- Óh D. Rosalinda, peço imensa desculpa mas estava aqui a tentar sair da garagem?
- Da garagem Mário!?
- Desculpe D. Rosalinda. A Srª. até há-de pensar que eu sou maluco....
- Se não é parece. Que raio de coisa é essa que está para aí a dizer???
- Olhe D. Rosalinda, um amigo enviou-me um jogo por mail, que me estava a deixar tão entusiasmado que eu nem sequer estava com atenção aos hóspedes.
- Pois isso reparei eu, vá lá então Mário e depois pode continuar a "brincar" às garagens.

segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

FLUVIÁRIO MEDIEVAL

- Ai Susana, já não aguentava o cheiro à lampreia.
- Também eu não Luísa, ainda bem que o Fim-de-Semana dela já acabou.
- Olha Susana, confesso que nem dei por ele ter passado.
- Com assim Luísa?
- Então rapariga, o tempo esteve uma porcaria, o movimento foi o habitual e os visitantes ficaram-se pelos restaurantes.
- Mas a lampreia é para se comer mulher, não me digas que pretendias ver os visitantes a andar por aí de prato na mão de um lado para o outro?
- Não, claro que não, mas não ficava mal vê-los por aí a passear, a divertirem-se com as animações de rua, percebes?
- Claro que percebo Luísa. Assim uma coisa tipo Castro Marim, com comediantes e saltimbancos, donzelas e nobres todos bem vestidos e engalanados.
- Exacto, a dar um ar medieval às coisas.
- Pois minha santa, por aqui não há disso, duvido até que os nossos autarcas saibam que isso existe.
- É uma boa forma de animar os dias dedicados à lampreia meninas.
- Credo Mário, entraste por aí dentro, tão sorrateiro, que ninguém deu por ti.
- É verdade Susana, sorrateiro é o meu nome do meio. Então, fartas de arroz de lampreia?
- Fartíssimas Mário, tão fartas que, nos próximos tempos, nem no nome queremos ouvir falar.
- Mas por aquilo que percebi, também não gostaram do fim-de-semana a ela dedicado.
- Claro que não. Só de imaginar que nem sequer um bailarico para animar foram capazes de fazer.
- Tens razão Luísa, o que realmente fez falta foi um baile dedicado à lampreia. E para ti Luísa, o que mais fez falta nestes dias?
- Olha Mário, tirando o baile que sempre dava para aquecer um bocadito, gostava que os nossos autarcas tivessem feito uma coisa tipo o Fluviário de Mora, onde fosse possível explicar aos visitantes o percurso da lampreia, desde a foz até ao local de desova, isso sim, seria interessante.
- Bem pensado Susana, talvez para o ano essas tuas ideias sejam uma realidade.
- Só se mudarem os autarcas Mário e, mesmo assim, quem sabe se os que para lá forem conseguem mudar alguma coisa.

terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

CUBA LIBRE - LA REVOLUCIÓN CONTINUA

Pancho Cajas

segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

ROSA COM TOMATES

- Afinal não existem motivos para alarme no que toca ao ensino e à saúde no nosso país.
- Achas Mário?
- Claro Luís, se assim não fosse, o homem não estava para ali a vender o seu peixe, como do melhor se tratasse.
- Podes ter razão Mário mas, a julgar pelo descontentamento manifestado pelas classes mais visadas pelas reformas, não creio que as coisas sejam assim tão cor-de-rosa, como pinta o nosso primeiro.
- Olha amigo Luís, conheço alguns professores e outros tantos profissionais da saúde que estão de acordo com a maior parte das reformas nos sectores que mais directamente lhes dizem respeito, por isso, e partindo do princípio que todas as reformas são feitas sob um clima de desconfiança e descontentamento por parte dos "poderes instalados" é perfeitamente natural que exista algum ruído sempre que são levadas à prática.
- Depreendo então que estás de acordo com as mudanças entretanto ocorridas em ambos os sectores.
- Meu caro Luís, aquilo que eu sei é que o país não podia continuar na direcção em que caminhava, sob pena de agravar ainda mais a sua posição face aos demais parceiros europeus e até mesmo mundiais, por tudo isso havia necessidade de agitar as águas ou se preferires, sacudir o pó, que estava há já demasiado tempo a ser varrido para baixo do tapete.
- Mas não te preocupa o facto de haver cada vez mais indecisão quanto ao futuro?
- Não, não me assusta nada, até porque a minha situação e o meu medo antes deste governo assumir funções eram bem maiores do que actualmente.
- Achas?
- Claro que sim!!! Pelo menos sinto que, por exemplo, os serviços públicos estão cada vez mais voltados para servir o cidadão e que a "caça" aos prevaricadores continua a ser eficaz.
- Não sejas assim tão ingénuo Mário porque as coisas não são tão óbvias como aparentam.
- Até poderás ter razão naquilo que me dizes Luís, porém acredito que não são 3 anos de governação que podem definir em absoluto o perfil dum governo quando o que havia para fazer era tanto e tão difícil de concretizar.
- Quer então dizer que está preparado para reconduzir este governo nas próximas eleições?
- Este governo, na totalidade, não direi, mas este 1º ministro com toda a certeza.

domingo, 17 de Fevereiro de 2008

AJUDA (AUTO)DETERMINANTE

- Então Paulo, o jantar estava bom?
- Maravilhoso Mário!!! A Susana não pára de me surpreender. Aquele medalhão de vitela de leite como molho de trufas negras, estava divino.
- E agora, presumo que queiras tomar um digestivo.
- Sim, pode ser.
- Preferes aguardente ou whisky?
- Se calhar vou alinhar numa aguardente. Pode ser uma S. Domingos em balão aquecido.
- É para já Paulo.
- E tu não me acompanhas?
- Também vou beber uma, só que mais pequenina.
- Então os Kosovares lá declararam, unilateralmente, independência.
- Unilateralmente para aqueles lados, porque para estes tiveram muito apoio que, naturalmente, os vai ajudar na nova tarefa de se afirmarem numa região muito complicada.
- Bastante complicada até Mário. Não é por acaso que todos têm algum receio das convulsões sociais naquela zona do mundo.
-Pois, e com razão, porque sempre que as coisas ficaram "fuscas" para aqueles lados, deflagraram duas guerras mundiais.
- Os Balcãs são um autêntico barril de pólvora Mário!!!
- Mas quem levou a que independência fosse declarada unilateralmente, foram os E.U.A. quando manifestaram o total apoio a essa pretensão.
- Olha Mário, esses indivíduos são uns malandros. A custa de quererem meter o bedelho em tudo, em nome da democracia, arrastam países para a confusão e depois, se a coisa dá para o torto, levam todos por tabela.
- É só recordar o caso dos prisioneiros do Iraque que passaram pelos Açores.
- Mas Mário, acho uma grande hipocrisia os nossos governantes andarem a tentar não falar sobre o assunto, a dizer que desconhecem o que realmente se passou, que não têm elementos capazes de comprovar a veracidade de certas afirmações.
- Sejamos honestos Paulo. Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe perfeitamente da necessidade de reabastecimento que qualquer meio de transporte tem para cruzar o Atlântico e o Carlos César deixou isso muito claro quando disse que, mesmo não tendo a certeza, quase que poderia garantir que isso acontecera.
- Naturalmente que sim. Todos sabemos que é necessário fazer rota nos Açores ou na Madeira para fazer tal travessia, por isso, só não vê quem não quer. Agora aquilo que o governo português fez, a meu ver muito bem, foi permitir que fosse possível o reabastecimento das aeronaves que transportavam os prisioneiros iraquianos, sob pena de, caso não autorizassem, poderem vir a ser acusados de ter contribuído para a morte em alto-mar de todos eles.
- Visto por essa perspectiva até és capaz de ter razão Paulo, tal atitude até devia ser considerada como um elevado contributo para a manutenção da vida por parte do governo português.
- Não duvides que ainda saíamos a ganhar desta confusão toda.
- Olha amigo, vamos acabar por aqui com essa conversa acerca das coisas do mundo e dessas confusões geradas pelo descontentamento do povo, e prestar atenção a mais um episódio do "Conta-me como foi".
- Também gostas Mário?
- Não perco um amigo Paulo.
- Então estás como eu Mário, também me delicio a ver essa série e a forma como retrata a sociedade portuguesa dos anos 68.
- Nos anos do salazarismo queres tu dizer.
- Pois, anos antes de derrubarmos aquela ditadura.

sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

CAPITAL (POLÍTICA) DA LAMPREIA

- Então Mário, está tudo bem?
- Tudo mais ou menos Filipe, quando mal sempre assim. Então, decidiu passar o fim-de-semana na pensão?
- É verdade meu caro. Acredite que só aqui consigo descansar convenientemente.
- Acredito que sim, o mesmo se passa com os restantes hóspedes que fazem questão de nos visitar. Então e novidades?
- Não há muita coisa nova para contar, apenas que, pela primeira vez, durante esta semana, consegui ter acesso ao programa do fim-de-semana da lampreia em Penacova.
- E o que é que achou?
- Olhe Mário, para lhe ser sincero, achei-o muito pouco ambicioso e pobre, e mais pobre ainda por ser esta terra a Capital da Lampreia.
- Isso é porque nós fomos os primeiros. Agora, se me disser que existem outros concelhos que, por esse país fora, fazem muito mais pela lampreia do que Penacova, isso acredito.
- E existem mesmo Mário. Durante esta semana tive a oportunidade de visitar alguns sítios onde esta iguaria se confecciona e verifiquei que todos eles oferecem muito mais do que Penacova, mesmo não sendo Capital.
- Dê-me exemplos.
- Olhe, por exemplo, Vila Nova da Cerveira, Penafiel, Montemor-o-Velho, Gondomar, ou até Tomar, para não falar noutros que aproveitam o facto da lampreia ser abundante nesta época, para fazerem as suas mostras, os seus festivais ou até mesmo as suas semanas gastronómicas dedicadas a esse ciclóstomo.
- Tem razão Filipe. Se compararmos o conteúdo dos programas que frisou com o nosso, então até me atreveria a dizer que deveríamos abdicar do título de Capital da Lampreia e oferecê-lo a uma dessas organizações.
- Não duvide daquilo que lhe estou a dizer. Qualquer dia, um qualquer indivíduo lembra-se de dizer que a sua terra é a Capital Universal da Lampreia e Penacova fica logo esquecida como destino gastronómico.
- Aí mais devagar Filipe, isso não funciona bem assim.
- Acha que não? Então espere para ver. Consegue mostrar-me o que é que o vosso município está a fazer pela promoção da lampreia?
- Bem....fez uns prospectos, pendurou uns cartazes nas árvores e....
- E...?
- Bem, deixe-me pensar um pouco.
- Pois nem que esteja toda a noite a pensar consegue descobrir o que mais, para além disso, fez o município para divulgar e promover a lampreia.
- Então, oferece uns pastéis e sorteia um fim-de-semana nas unidades hoteleiras do concelho.
- Se para si, toda essa promoção é suficiente, então começo a compreender porque razão é tão pobre e tão sem graça o evento mais importante para Penacova.
- Espere aí Filipe, eu também acho que devíamos ser mais ousados na organização deste fim-de-semana mas...
- Consegue explicar-me porque razão a Pensão Viseu não aderiu ao evento como restaurante e alojamento associado?
- Bem, ouvi dizer à D. Rosalinda que o programa era pouco ambicioso e que, por tal facto, não aceitava participar nessa qualidade.
- Vê Mário, está a dar-me razão!!! Até a D. Rosalinda já percebeu que assim não vale a pena. Não basta ter lampreia para cozinhar que faz de uma qualquer terra a sua Capital, é necessário aproveitar esse facto para fazer mais do que apenas oferecer uns doces e vender lampreia a preços módicos.
- Talvez os nossos autarcas tenham sido convidados para, nesse fim-de-semana, irem visitar outros concelhos que entretanto também escolham a lampreia para se projectarem.
- E talvez por esse motivo não pretendam enriquecer o programa do seu concelho, por não terem oportunidade para cá estarem. Olhe que é bem capaz de ter razão Mário.

quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

DESESPEROS

Regresso à Pensão Viseu, em mais uma viagem a caminho de uma conferência sobre arquitectura, em Lamego.
Na sala de estar, onde converso habitualmente com o Mário e na falta dele, procuro sinais da imprensa de Penacova, enquanto "faço tempo" para descansar...
Por entre os jornais do dia, um nacional e outro de Coimbra, surge o "Nova Esperança", o jornal que afirma estar ao serviço de Penacova há 28 anos.
Ora o que este respeitável jornal nos oferece é mau de mais para valer o tempo que gastei com ele.
Péssimas fotografias, mal enquadradas, mal tratadas, literalmente más de mais e que corariam a própria vergonha. Má redacção, frouxa opinião e temos o mais "certo" jornal desta bela terra.
O jornal sobreviverá, não pela sua qualidade, que não tem, mas por ser mantido por um statos quo benzido a hossanas e hóstias consagradas (tudo coisas respeitáveis também) mas que misturadas com imprensa e supostamente informação, formam um apócrifo caldo de bizarrias.
Um desespero.
Por outro lado, o Jornal de Penacova, surge um pouco como as névoas e definha, admitiu o seu director num editorial, face à ausência de interesse dos empresários do concelho e ao corte no Porte Pago, uma medida (mais uma) daquelas que o governo espumou na sua raiva controladora, higienizadora e economicista.
Portanto, Penacova assume assim, também pela via da imprensa escrita, a sua tradição eucalíptica, isto é, seca tudo o que lhe nasce no regaço.
Sendo eu um amante desta terra, sinto esta amargura ao não ver na sala de estar desta Pensão Viseu, algo que faça parecer descabido este desabafo que aqui vos deixo.
Outro desespero.

quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

FEVEREIRO NAMORADEIRO

- Como é que conheceste o avô?
- Olha minha querida, o teu avô era um rapaz muito bonito e quando chegou à entrada da pensão, acompanhado pelo pai e pela mãe, logo disse para os meus botões que aquele moço, tão bem apessoado, iria ser o meu marido.
- Assim tão decidida avó?
- Claro minha filha, naquele tempo namorar era uma coisa muito séria. Nada se fazia abertamente e qualquer compromisso assumido era para durar até ao altar.
- Então como explicas a enorme quantidade de filhos de "pai natural" que existiam?
- Porque naquela altura os homens não assumiam nada, eram uns palermas. E depois as pessoas também se calavam, porque as crianças eram filhas dos srs. “fulanos tais” que tinham as suas aventuras por fora e depois era uma vergonha, para a mulher, claro…
- Com sempre. E os filhos?
- Bem, os filhos lá se iam desenrascando. Os que tinham sorte safavam-se, os menos afortunados tinham que fazer por isso.
- Mas hoje é diferente avó.
- Claro filha, só podia ser. Com tanta publicidade a isto e àquilo, com tanto chamamento às coisas que dão prazer sem luta, sem paciência, “só por dá cá aquela palha” é fácil para qualquer adolescente sentir-se atraído por essas "luzes" todas, tanto mais que vocês agora parece que têm 18 anos, são umas "calmeironas", já se maquilham, enfim coisas que no meu tempo, com a tua idade, nem sonhávamos que viessem a suceder.
- Mas nós hoje, com a informação que temos, devemos ser mais responsáveis e não entrar logo de cabeça nas coisas.
- Pois, bem sei, mas há sempre aquele medo.
- Bom avó, seja como for, amanhã o Rui convidou-me para jantar e eu aceitei.
- Mas não fiques por lá até muito tarde, e não te esqueças de te proteger, ouviste?
- Fica descansada avó, que mal possa, venho logo para casa acabar a noite convosco para celebrar o dia que, afinal, ainda é um dia muito bonito para todas as mulheres que se sentem amadas.
- E que amam Alice, nunca que esqueças que o amor se alimenta todos dias, tal como as flores mais frágeis.
- Mas mais bonitas.

segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

DE PARIS AO MUNDIAL, PASSANDO POR PORTUGAL

- Então Mário, gostaste da decisão dos responsáveis pela organização do "Paris-Dakar"?
- Ex-"Paris-Dakar" queres tu dizer Paulo.
- Pois, de facto tens razão. Sabes é o hábito, foram tantos a ouvir falar dele que, mesmo sendo na América do Sul, será sempre o "Paris-Dakar".
- Pois, o "Paris-Dakar" da América do Sul. Sabes, concordo plenamente com a decisão, contudo, só lamento a sorte daqueles que, tal como tu, desciam até ao Algarve para ver as máquinas...
- Ver e ouvir, ou tu achas que me contentava só com o ver, para isso não saía de casa.
- Está certo, sim senhor. Era como ir para a Serra de Arganil, a dois passos daqui, passar lá a noite toda a ouvir os devaneios daquele pessoal e a ver a serra toda “salpicada” com fogueiras.
- É diferente Mário, a sensação é outra, estamos mais perto da emoção.
- Pois é Paulo, foi essa busca cega de emoções que deu origem a que o "Rally de Portugal" saísse daqui para fora.
- Contribuiu, não digo que não, mas não nos podemos esquecer dos mercados emergentes e dos investimentos que representam este tipo de provas, tanto a nível do consumidor final, como a nível da criação de empregos resultantes dos eventuais contratos celebrados.
- Todas as pessoas passam bem sem essas provas mas, quando toca a ver quem é que poderá vir a ficar com elas, acabam-se logo as coisas más e todos as querem ter no seu país. Olha, não vamos mais longe, ainda agora os preparativos para o Mundial de 2010 começaram e já Portugal teve a ideia de, acompanhado com a Espanha, vir a organizar o Mundial de 2018.
- E a Espanha quer assim ou é só mesmo uma ideia?
- Pelos vistos (ainda) é só uma ideia, mas quando se começa a falar muito sobre uma coisa, é porque já está mais adiantada do que aquilo que se imagina.
- Mas olha Mário, acho isso uma tremenda parvoíce. Já não chega a má experiência que retirámos do "Euro 2004", com a construção de estádios super caros e com uma manutenção que esgota o orçamento das câmaras que os tem a seu cargo, e já estão a pensar em meter-se noutra.
- Mas o Gilberto Madail, afirma que tudo isso seria uma mais-valia para Portugal, até porque os estádios já nós cá temos.
- E tu achas que, vaidosos como são os portugueses, alguma vez admitiriam aproveitar os estádios de futebol herdados do Euro? Nunca na vida...
- Até bombas lá colocavam só para obrigar as entidades a construir uns novos, sim porque era necessário construir uns melhores, mais económicos, etc.
- Mas se a Espanha entrar na corrida com Portugal, ou melhor, Portugal com a Espanha, de certeza que os jogos se vão realizar no país dos “nuestros hermanos”.
- Sem sombra para dúvidas Paulo, Portugal passaria a ser zona de praia, de golf e de alguns treinos para algumas das equipas participantes.
- Sim, tens razão, era o castigo que sofreriam aquelas que chegavam atrasadas aos estádios espanhóis.

TÉCNICAS DE SOBREVIVÊNCIA

- Então é este o jornal cá da terra?
- É verdade Filipe e olhe que não estamos mais ricos por isso....
- Ah não Mário, e porquê?
- Olhe, a começar pelo grafismo, passando pela estruturação dos temas, pela abordagem dos assuntos e acabando na qualidade da impressão, vê-se mesmo que os responsáveis pela sua edição, não estão muito ao corrente da evolução da imprensa, nem sequer muito preocupados com a opinião daqueles que os lêem.
- Sim Mário, à primeira vista tem razão. Não é um suporte de informação muito digno para representar uma região.
- Mas o objectivo desse órgão de comunicação social não é o de representar o concelho a que se dedica, com qualidade, isenção e espírito crítico.
- Ah não, então para que serve um jornal regional senão para isso?
- No caso do "Nova Esperança", além de ser um fiel interlocutor entre a igreja penacovense e os seus paroquianos, também é um suporte para a publicação de (quase) todos os actos notariais que se praticam no nosso concelho.
- Daí ter apenas 8 páginas?
- Exacto, as suficientes para todas aquelas publicações, mais meia dúzia de publicidade e umas quantas fotografias de pouca qualidade. mais um ou dois textos de opinião “et voilá”, está feito um jornal.
- Então, nesse caso deveria existir outro jornal em Penacova!!!!
- E existe, só que a qualidade já não é tão acessível quanto era até ao momento em que o governo decidiu acabar com o porte-pago para a imprensa regional e quem prima por ela, não consegue prestar um bom serviço aos leitores.
- Pois eu bem sei o que isso é Mário, ainda por cima quando tal incentivo era um importante balão de oxigénio para a imprensa regional.
- Daí que os únicos jornais que ainda conseguem manter à tona as suas edições, são aqueles que, apesar de constituírem um mau exemplo de jornalismo, mantêm o monopólio das publicações, mesmo informando com má qualidade, e conseguem andar sem fazer muitas ondas.
- É uma das técnicas de sobrevivência. Não se fazem ondas, não se incomodam as instituições e os interesses instalados, e as coisas acabam por se arranjar.
- Mas também, tirando um ou outro caso muito útil para o cidadão, é um jornal onde a crítica não existe e onde os problemas do concelho não são verdadeiramente abordados, ficando no ar a sensação de que tudo está bem, que não se passa nada de anormal.
- E assim conseguem sair incólumes desta crise que afecta toda a imprensa regional.
- O mundo é dos espertos meu caro Filipe, o mundo é dos espertos!!! Mudando de assunto, toma algo mais para acabar a noite?
- Não amigo Mário, vou subir porque amanhã vai ser a minha primeira visita oficial pelo concelho.
- Então veja lá se trás algumas novidades.
- Vou tentar Mário, vou tentar...

sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

DA JANELA DO BOM FILHO


- Olhe meu caro Matias, poder ser fotógrafo por opção é uma dádiva...
- Sim, tens as suas coisas boas......
- Pois imagino que coisas serão essas. Singulares belezas captadas pela insensibilidade objectiva de um profissional.
- Pois, foi para me libertar de tudo isso que eu escolhi passar uns tempos em Penacova.
- Um regresso às origens, portanto, tipo “o bom filho à casa torna”...
- Mais ou menos isso Mário, mas aquilo que me levou a tomar essa decisão foi saber que ainda encontraria as coisas como as deixei há 20 anos atrás.
- É o que todos dizem meu caro Matias...Penacova é bonita tal como está, para que, quando forem velhos, poderem regressar e encontrá-la tal como a deixaram, o que é uma merda, convenhamos!!!
- Para quem cá está, claro!!!
- Pois concerteza, mas ao menos que fosse construída uma vila com essas características, adequada à qualidade exigida por esses senhores que sofrem de gota .
- Mas olhe Mário, não se esqueça aonde vai, para podermos continuar a nossa conversa porque, neste momento, só penso em deitar-me a ver luz da noite e adormecer ao som do vento.
- Durma então muito bem Matias, até amanhã.
Cá para os meus botões, continuei a pensar que estes indivíduos vão e voltam para, quem sabe, fazerem algo mais do que aquilo que fizeram pela sua terra quando cá estiveram. De qualquer maneira, não deixei de reparar na magnífica fotografia que tirou hoje de manhã, da janela do seu quarto e que me levou a pensar a nunca ter quer partir para não ter que voltar.

terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

A IMPORTÂNCIA DA LIQUIDEZ

- E as “passajolas” Mário, não se realizam este ano?
- Parece que não Susana, pelo menos a julgar pelo que ouço, ou melhor, pelo que não ouço.
- Era engraçado ouvir do "Penedo da Carvoeira" aquelas piadas acerca deste ou daquele, daquilo que todos sabiam que acontecia, mas que ninguém tinha coragem para contar.
- Pois, mas houve alguém que não achou tão engraçado assim e acabou-se o espectáculo.
- Tal como todos os espectáculos nesta terra.
- Então e a lampreia, vai ou não vai?
- Vão-se vendendo mais ou menos, se bem que ainda não começou a "Semana da Lampreia"...
- E o preço também não ajuda, convenhamos!!!
- Claro que não. Sabes que desembolsar 80 euros de repente, não é nada fácil.
- Deixa lá que, "enquanto há visa há esperança", como dizia um amigo meu.
- Olha Mário, o que eu te digo é que já se vende lampreia por todo o lado, e aqui nada.
- Tem calma contigo Susana, a estratégia é deixar os outros começar a publicitar a iguaria para depois se dar início à verdadeira "Semana da Lampreia".
- Pois, tens razão, a D. Rosalinda até falou que vai caprichar este ano e fazer uma coisa mais de acordo com a época.
- Claro, basta juntar a tua competência à da Cristina, para obter um resultado excelente.
- Obrigado pela parte que me toca. Outra coisa que eu gostava de te perguntar era acerca do Filipe.
- Filipe?
- Sim, o caixeiro viajante.
- Bem sei, que parvoíce a minha. Passa-se alguma coisa com, ele?
- Não, não, isto é, espero que não. Era só para saber que produtos é que ele vende.
- Ah, já percebi. Para se ter franco nem eu sei muito bem, ouvi falar de algo que tem a ver com comida biológica, daquela saudável que agora só em estufas é que se produz.
- Pois, antes era na horta que se tinha no quintal, depois começaram a vender os herbicidas e os pesticidas para combater as pragas, agora aquilo que produzimos não vale nada e eles, cheios de razão, vêm dizer que aquilo que vendem é que é bom.
- Mas são bons e de qualidade Susana, temos que admitir.
- Claro, bons e caros....
- Era com dizia o Director Nacional da P.J. em entrevista à Rádio Renascença, a propósito da justiça. Quem quer boa saúde tem que a poder pagar.

segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

CAIXEIRO SONHADOR

- Quer dizer então, que gostou do que viu, não é verdade caro Filipe?
- Sim, mais ou menos. É certo que por onde andei, nem sempre encontrei a receptividade desejada mas, só pela viagem foi gratificante.
- Acha que sim?
- Claro que acho, principalmente aquela a parte sul da Serra do Buçaco.
- Bem sei, toda aquela zona da freguesia de Sazes do Lorvão.
- Mas também reparei que há muita rusticidade nessas aldeias um pouco mais afastadas de Penacova.
- No sentido positivo do termo, imagino...
- Claro que sim Mário, não andei por aí a avaliar graus de desenvolvimento.
- Não esperaria outra posição.
- Naturalmente que sim, que me agrada toda esta ruralidade, toda esta simplicidade!!!
- Estou muito admirado consigo Filipe. Para quem cá está há tão pouco tempo e já conseguiu analisar as coisas tão profundamente. Olhe que não é fácil...
- Apenas a experiência adquirida no contacto com os outros.
- Pois claro, só poderia ser. É sinal que aprendeu bem a lição. Mas olhe que é sempre a primeira impressão de todos aqueles que por cá passam. Todos ficam com uma imagem magnífica desta terra mas (há sempre um mas) se permanecerem por cá durante muito tempo, vão aperceber-se que, tirando toda essa beleza, esta terra nem sempre é sinónimo de progresso, ou evolução.
- É sempre assim em todo lado Mário. Daqui a uns dias, vou entrar por aqui adentro a lamentar-me da falta de alcatrão nas estradas, das obras que interrompem qualquer pedaço de estrada, enfim, o habitual. Por isso meu caro, deixe-me sonhar um pouco.
- Sim, claro que sim. Não foi por acaso que escolheu a Pensão Viseu.

domingo, 3 de Fevereiro de 2008

O NOVO HÓSPEDE

- Ai Susana, não te digo nem te conto...
- O que foi mulher, parece que viste um fantasma!!!!
- Antes fosse, porque assim ainda teria aquela possibilidade que todos os fantasmas têm para se deslocarem para todo o lado, através das paredes e das portas.
- Mas que raio de bicho te mordeu Luísa?
- Olha rapariga, para mim não serve porque já estou de núpcias marcadas com o meu António, mas para ti, livre e desimpedida, vinha mesmo a calhar um homem como aquele que eu vi a falar como o Mário junto à recepção.
- Então e olha lá, por acaso passei-te procuração para andares à procura de marido para mim?
- Não, claro que não, mas como sou tua amiga e de vez em quando reparo que andas para aí a suspirar, e julguei que se desse um empurrãozito, as coisas poderiam ficar mais fáceis.
- Pois não te preocupes com isso Luísa porque quando eu quiser quem me aqueça os pés durante a noite, tratarei de arranjar alguém. Enquanto isso, dispenso a tua preocupação.
- Fica descansada que já não está cá quem falou.
- Mas Luísa, já que tocaste no assunto, diz-me lá quem é o rapagão.
- Eu vi logo Susana. Quem desdenha quer comprar...
- Vá lá, deixa-te de palermices e começa a desenvolver….
- Olha Susana, só sei que é caixeiro-viajante, tem cerca de 40 anos, veste que é uma maravilha e que pretende um quarto para cá passar duas a três vezes por semana.
- E é assim tão.....
- Bom?
- Sim, pode ser esse o termo.
- Bem, como já te disse, para mim não serve porque já tenho o meu António mas, a julgar pela aparência do indivíduo, se fosse a ti tentava, pelo menos distraidamente, sujar-lhe a camisa com sopa ou as calças com vinho...estás a perceber?
- Claro que estou. E a seguir oferecia-me logo para lhe lavar a roupa que lhe sujei e por aí adiante.
- Olha Susana, eu não preciso de te ensinar nada mas, se quiseres dar uma olhadela no moço, sobe até ao cimo das escadas para satisfazeres a tua curiosidade.
- E aliança, reparaste se tem?
- Não reparei nem isso interessa, ou achas que sim?
- Bem nos dias que correm, quando ainda continuam a existir 7 mulheres para um homem, talvez não.

sábado, 2 de Fevereiro de 2008

O ESPLENDOR DA ARQUITECTURA SOCRÁTICA

- Amilcar diz-me cá uma coisa. Se alguma vez fosses o responsável pelas obras cujos projectos, hipoteticamente, o nosso primeiro tenha assinado, conseguirias em consciência estar à frente dos destinos de um país???
- Bom, para te ser franco Mário, em primeiro lugar, qualquer indivíduo que consiga tocar no coração dos portugueses é, à priori, um potencial candidato a primeiro ministro, em segundo lugar, as pessoas que aceitaram um projecto assinado pelo Sr. engenheiro, só poderiam ter a certeza absoluta que o destino de tão conceituado indivíduo, só poderia ser o de 1º ministro.
- Sendo assim, achas que tais projectos de arquitectura, estariam em condições de ombrear com qualquer outro elaborado, por exemplo, por Siza Vieira.
- Absolutamente meu caro Mário, sem qualquer sombra para dúvidas.
I

quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

NOVA POLÉMICA ENTRE INEM E BOMBEIROS

terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

SINOS, CARRILHÕES E DUAS CONSTELAÇÕES

- Que grande ajuntamento junto à igreja era aquele menina Alice?
- Olha Mário, parece que estão a colocar os sinos da torre.
- Os sinos na torre?
- Sim, os sinos na torre. Então não sabias que tinham sido retirados para serem restaurados?
- Não imaginava menina Alice. Sabe que eu pouco ligo a essas coisas e mais, até lhe vou contar uma coisa, arrepio-me sempre que eles tocam principalmente a anunciar a morte, o que ultimamente tem sido bastante frequente.
- Não te preocupes Mário porque brevemente vai ser colocado um carrilhão para tornar mais apelativos todos os chamamentos dos cristãos.
- Ainda bem que, pelo menos, o novo padre tem sensibilidade suficiente para tornar agradável a nossa relação com esses tais chamamentos. Será que também vai mudar o coro, ou pelo menos, algumas das vozes do coro.
- Não sei bem Mário mas pelo menos podia pensar em dar umas aulitas de canto a alguns elementos que dele fazem parte.
- Também acho que sim, pois os cânticos religiosos querem-se melodiosos, agradáveis e quase a roçar o celestial.
- Talvez ocorram mudanças nessa parte, e noutras claro.
- Então e o novo brinquedo, tem feito bom uso dele?
- Se estás a referir-te ao telescópio que os meus pais me ofereceram, posso dizer-te que sempre que o céu, durante a noite, está todo cheio de estrelas, não resisto a dar uma olhada a toda essa imensidão resplandecente.
- E o que é que mais gosta de observar?
- Para já estou na fase de conseguir identificar as constelações.
- E já identificou algumas?
- Sim claro, as mais vulgares e que se encontram no hemisfério norte, tais como Andrómeda ou Cassiopeia.
- Puxa menina Alice, pelo que estou a ver tem-se dedicado muito a observar os astros.
- Tem que ser Mário, para combater o stress.
- E já tem stress com essa idade?
- Claro que sim Mário!!! Como é que achas que conseguimos viver no mundo dos adultos?

segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

LAMPREIAS APREENSIVAS

A D. Rosalinda já tinha manifestado alguma preocupação acerca da possibilidade de podermos vir a ser visitados pela A.S.A.E.. Segundo ela, apesar de ter quase a certeza que tudo estava conforme o previsto na Lei, sentia invariavelmente um arrepio pela espinha acima, sempre que via aqueles fiscais, disfarçados de brigada anti-terrorista, a entrar por tudo o que era estabelecimento comercial e a levar tudo o que não tivesse a etiqueta respectiva.
- Mas o que mais me preocupa Mário, são as lampreias que estão no tanque à espera de serem consumidas na semana que se avizinha.
- Não se preocupe D. Rosalinda que quando eles cá chegarem o olharem para os bichos, muito compridos e escorregadios, não se vão atrever sequer a tocar neles quanto mais a levá-los para algum lado.
- Já não digo nada Mário, da maneira que isto anda eles levam tudo e mais alguma coisa.
- E, além das lampreias, ainda temos as Nevadas e os Pastéis do Lorvão que, também eles, não devem estar de acordo com as regras de higiene e salubridade exigidas por Lei.
- Ainda mais essa para me apoquentar Mário, já não bastavam as lampreias, ainda hão-de levar também a doçaria conventual.
- Olhe D. Rosalinda, tenho um amigo que me contou que, A.S.A.E. decidiu inspeccionar uma missa na Sé de Lisboa para verificar as condições de higiene dos recipientes onde é guardado o vinho e as hóstias usadas na celebração.
- Ai Deus meu, e o que é que aconteceu depois?
- Bom, D. Rosalinda, segundo esse meu amigo, o oficial que comandava as forças, sugeriu ao cardeal que se assegurasse se as hóstias tinham um autocolante a informar a composição e informaram-o que o vinho deveria ser guardado em garrafas devidamente seladas.
- Credo Mário, que até me benzo com a mão esquerda!!!
- Mas como se isso não bastasse, ainda acabaram por prender o D. José Policarpo, depois de terem reparado que ele não procedia à necessária higienização do seu anel após cada beijo de um crente.
- Olha Mário não estou a acreditar em nada do que estás para aí a dizer mas, da maneira que as coisas estão a ficar, não de admira que até a casa de Deus seja profanada por esses polícias das mercearias.
- Não se admire que isto piore, pelo menos a julgar pelas declarações de alguns políticos da nossa praça, que já compararam a A.S.A.E. à extinta P.I.D.E./D.G.S.

sábado, 26 de Janeiro de 2008

A SAÚDE É ALIJÁ(Ó)

- Acho bastante inquietante toda esta polémica à volta do socorro prestado quer pelos bombeiros quer pelo i.n.e.m. em algumas localidades do país.
- Olha Mário, na minha opinião, os principais interessados em alimentar este tipo de situações são aqueles que pretendem chamar a si a responsabilidade pela administração dos cuidados de saúde.
- Bom Afonso, tu estarás em melhores condições do que eu para opinar sobre o assunto, pois trabalhaste algum tempo numa central de 112.
- O que eu sei Mário, é que quando as urgências funcionavam durante toda a noite, não ocorriam tantas situações dessas o que só prova, que nessa altura, os bombeiros prestavam um serviço eficaz e conseguiam "dar conta do recado" sempre que eram chamados para alguma emergência.
- Tens toda a razão Afonso, agora sempre que acontece algum acidente mais grave, em que a pessoa necessita de cuidados urgentes, as ambulâncias têm que esperar pela viatura do i.n.e.m. para que sejam prestados os cuidados necessários à vítima, não estando autorizadas a seguir de imediato para o hospital.
- Queres tu dizer então que tudo isto são guerras de capelinhas?
- Claro que são. Se as urgências fecham é necessário garantir às populações uma assistência médica eficaz, o que só será possível fazer com unidades móveis estrategicamente colocadas.
- Então Afonso, se bem percebo, o que se pretende com tudo isto é tentar mostrar às pessoas que a alternativa às urgências é o sistema de socorro feito por unidades móveis que se deslocam da sede até ao local do sinistro ou até a um ponto previamente definido com os bombeiros.
- Pois, basicamente é o que acontece.
- Mas assim o sistema é muito falível!!! Qualquer contratempo pode ter consequências irreversíveis para as vítimas e depois é um 31 até encontrar os responsáveis.
- Não Mário, aí é que tu te enganas. Ainda não percebeste que os responsáveis hão-de ser sempre os bombeiros e nunca o i.n.em.?
- Pois claro Afonso, até pode ser esse o resultado esperado, mas tenho toda a certeza que as populações dão muito mais credibilidade àqueles que sempre estiveram ao seu lado nos momentos mais difíceis do que àqueles que ainda agora apareceram com a solução para todos os problemas de saúde, como se eles nunca tivessem existido.
- Tudo se há-de resolver Mário, só temos que nos esforçar por estarmos todos à altura uns dos outros para que cada um saiba ocupar o seu lugar com responsabilidade pois só assim conseguimos zelar por aquilo que é o mais importante, a qualidade de vida das pessoas.

VULNER(H)ABILIDADES

- Já viste isto Mário? Os professores são aqueles em quem os portugueses mais confiam para governar o país.
- Muito à frente dos políticos?
- Sim, a julgar pelas sondagens, bastante à frente!
- Mas há uma coisa que eu não compreendo. Se todos consideram os políticos pessoas de mau carácter, porque razão é que continuam a votar neles???
- Olha Mário, cá para mim, os que mais participaram nas sondagens, foram os professores.

terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

O ÓRGÃO TERRORISTA

- Então D. Rosalinda, acha que o Sr. Presidente foi satisfeito com a estadia?
- Olha Cristina, pelo menos, o que me foi transmitido pelo chefe da casa civil do Sr. Presidente da República, foi que sua Exª. foi daqui completamente deliciado, tanto com a lampreia, como com as Nevadas de Penacova. Mas aquilo que mais o impressionou, foi a magnífica vista sobre o Mondego que ele conseguia ter da suite presidencial que lhe foi atribuída para pernoitar na pensão.
- E prometeu voltar?
- Sim, mas creio que não na qualidade de Presidente.
- Bom, nesse caso, só daqui a 8 anos.
- Provavelmente Cristina mas, pela minha experiência, virá muito antes disso pois dificilmente esquecerá o arroz de lampreia da Susana.
- Desculpe estar a meter-me na conversa D. Rosalinda, mas parece que Sua Exª. o Sr. Presidente foi um bocadito "apertado" com a questão do órgão do Mosteiro do Lorvão.
- Pois parece sim Mário, mas o homem não tem culpa que andem nessas andanças há mais de 10 anos, portanto....
- Portanto, nem daqui a mais 10 a coisa fica resolvida, pelo menos a julgar pelas palavras da Srª. Ministra da Cultura.
- Então Mário, quais foram elas?
- Então não leste Cristina? Ainda nem sequer fizeram as peritagens necessárias à sua recuperação, quanto mais o seu início.
- E agora com o aeroporto de Alcochete e com o campo de tiro, ainda vai ser pior D. Rosalinda.
- Qual campo de tiro Mário?
- Então a Srª. não ouviu falar que vai ser construído na Quinta de Carrazedos?
- Não digas parvoíces!!!!
- É verdade, pelo menos segundo alguns entendidos no assunto que terão tido acesso a informações sigilosas, a coisa está para breve.
- Olha Mário, não estou para ouvir essas tolices todas até porque tenho bastante que fazer.
- Até mais logo então D. Rosalina.
- E tu Cristina, estás bem-disposta?
- Mais ou menos Mário. A Sara anda com diarreira e um febrezita que não a deixa sossegada, por isso não durmo nada de noite com a miúda sempre muito agitada.
- Vais ver que agora com a chegada do tempo mais quente as coisas vão melhorar. Além disso essas idades são muito complicadas para as crianças por causa das defesas do organismo que ainda não estão suficientemente fortes para combater esses vírus todos que por aí andam.
- Puxa Mário, até parece que já foste pai.
- Não fui mas estou a preparar-me para o ser.
- Por falar em vírus, não achas que essa onda de terrorismo que agora por aí anda está a ser demasiado levada a sério?
- Bom, não deixa de ser preocupante pensarmos que poderão por aí andar uns indivíduos a querer rebentar com alguma coisa ou com alguém, portanto, e partindo do princípio que Portugal fez parte da famigerada Cimeira dos Açores, ficamos sujeitos a uma dessas situações.
- O meu receio é que as ameaças se concretizem.
- Pois também o meu mas, a partir do momento que nos metemos nelas, por intermédio dos nossos estúpidos governantes, temos que aguentar com as consequências, sendo certo que eles são os que menos sofrem porque são os que mais possibilidades têm de poder fugir a uma eventual situação mais complicada.
- Mas as nossas polícias não poderão evitar que isso aconteça?
- Tal como evitaram a existência de uma célula terrorista da E.T.A. no Algarve, durante 30 anos?

domingo, 20 de Janeiro de 2008

A VISITA DO SR. PRESIDENTE

- Bons olhos te vejam Paulo, finalmente regressaste de Marrocos!!!
- Já estava com saudades Mário, dá cá um abraço.
- Então, foste triplicar o saldo da tua tia a Marrocos?
- Não percebi essa Mário....
- Deixa lá, é um slogan que uma operadora de telemóveis adoptou por altura dos Reis e que ficou no ouvido. E então novidades?
- Por lá nada de especial. Tirando a areia e o calor, a única coisa que me fez ficar triste foi terem cancelado o "Paris Dakar".
- Pois é amigo, por cá também foi um balde de água fria para muita gente.
- E prejuízo...
- Claro, prejuízo e de que maneira.
- E por cá Mário?
- As novidades estão à vista meu caro. Nova pintura, madeiras envernizadas, nova decoração, mobiliário novo e algum restaurado e, claro, novas pessoas na pensão.
- Ah sim, a quem te referes?
- Vez aquela menina pequena que está ali entretida a fazer aquele puzzle?
- Sim claro.
- É filha da Cristina e tem quatro anos, a caminho dos cinco.
- Qual, a tua mais que tudo?
- Exactamente, foi fruto de uma relação atribulada que a Cristina teve.
- E agora?
- Agora, faz parte da família.
- Ainda bem para ela e para vocês, claro!!!
- Obrigado Paulo.
- E o resto do pessoal está todo bem de saúde?
- Tudo em forma amigo. A D. Rosalinda teve cá o filho e a nora o que para a menina Alice foi extraordinário pois recebeu como prenda um telescópio.
- Sim eu lembro-me de ser uma das coisas que ela gostava de ter como presente.
- A Luísa ficou noiva do António, tendo até recebido um anel de noivado.
- E a Susana?
- Bom, a Susana ficou um bocado triste com a tua ida para Marrocos mas, são coisas que vocês, a seu tempo, resolverão.
- Então está tudo a correr bem, não é assim?
- Claro que está Paulo, a qualidade da pensão está cada vez melhor, os hóspedes estão cada vez mais satisfeitos e as reservas não param de aumentar.
- Óptimo para todos então.
Nisto chega à recepção a D. Rosalinda e, de imediato, deu as boas vindas ao Paulo não deixando de salientar a tez morena que ele trazia norte de Marrocos e a magreza que aquelas paragens lhe deram ao corpo.
- É do calor D. Rosalinda, seca-nos a gordura toda.
- Pois é Paulo, devias ter levado também contigo uma boa cozinheira.
- Pois devia D. Rosalinda mas, nesse caso, a Srª. teria ficado sem ela. (risos)
- Olha Mário.
- Sim D. Rosalinda.
- Está tudo preparado para a visita do Sr. Presidente da República amanhã?
- Tudo preparadíssimo D. Rosalinda.
- Não quero que falte nada a Sua Excelência, compreendeste?
- Claro que sim D. Rosalinda, nada faltará.
- Ai vem cá a Penacova o nosso Presidente?
- Vem a Lorvão, depois de ter passado por umas quantas localidades da zona centro.
- Sim senhor, muito bem. Na volta vai ver o que falta no órgão.
- Pois, tal como os que vieram cá antes dele.
- Bem, enquanto o órgão estiver como está temos sempre visita garantida.
- E depois Mário?
- Depois vem almoçar à pensão.
- Não me digas que vem ao cheiro da lampreia?
- Penso que não a vem só cheirar.
- Naturalmente que não meu caro.
- E o Hotel Penacova?
- Bom, o Hotel Penacova acolheu o reveillon e, depois, dispensou onze trabalhadores com o argumento de que não eram necessários na época baixa.
- Não foi muito bom começo mas, até certo ponto, tem a sua razão.
- Vamos ver se vinga.
- Pode ser que sim, para variar, porque nesta terra tudo morre à nascença.
- Tens razão Paulo. A princípio é tudo muito lindo, cheio de boas perspectivas mas depois vai-se tudo embora a dizer que Penacova não presta, que não há incentivo, que não há acompanhamento nem infra-estruturas para apoiar os grandes investimentos que aqui se têm feito.
- Quais Mário?
- Olha, enquanto eu penso, vamos comemorar o teu regresso.
- Boa ideia Mário.

quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

POBRES FANÁTICOS, LOUCOS ASSASSINOS

- Então D. Rosalinda, ouvi dizer que adorou a Missa do Galo?
- É verdade Mário, nunca tinha visto coisa igual!!! Imagina que até houve um momento de teatro.
- Mas isso é coisa nunca vista realmente, não estará a senhora a confundir as coisas?
- Não estão não Mário, eu própria nem queria acreditar quando o Sr. padre anunciou aquela novidade.
- Mas Luísa, isso é passar do 8 para o 80, numa paróquia em que as coisas se mantinham demasiado austeras muito distantes dos menos beatos .
- Tens razão Mário, talvez com esta mudança de atitude o novo pároco queira cativar os irmãos desavindos.
- Talvez tenhas razão Luísa mas, mesmo assim, não me sinto muito cativado a ser um católico praticante. Então e conte-me lá, tiveram muitas prendas no sapatinho?
- Nem por isso Mário. Na minha idade já não são de esperar muitas prendas. Para mim bastou-me a presença do meu filho e da minha nora e a felicidade da minha neta.
- E tu Luísa, também és da opinião da D. Rosalinda ou, pelo contrário, aprecias umas coisas mais...como direi, valiosas?
- Olha meu querido, recebi do meu António um anel de noivado extraordinariamente belo.
- Então estás de parabéns!!!! Espero que seja aquilo que mais queiras.
- Obrigado pela tua simpatia. Já agora, desculpa lá se pergunto, também tu recebeste a prenda que desejaste?
- Bom, mais uma vez o euro milhões me falhou mas, em contrapartida, recebi um agradável perfume oferecido por alguém muito especial.
- Não me digas que....
- Não comeces a inventar Luísa.
- Vamos para baixo Luísa, que já chega de conversa.
- Sim D. Rosalinda, é para já.
Entretanto, a Cristina pede-me para preparar uma aguardente velha em copo aquecido para o cavalheiro que está sentado na mesa 10.
- Olha Cristina, adorei o teu presente!!! Foi a primeira coisa que coloquei no meu corpo assim que tomei banho.
- Gostaste? Eu também achei que cheirava muito bem e que, acima de tudo, tinha tudo a ver contigo.
- Também adorei conhecer a tua filha. Acho que para uma menina de 4 anos está muito crescida e muito desenvolvida, além disso é muito bonita.
- Sai à mãe!!!!
- E ao pai, claro.
- Claro que sim, mas não quero falar nisso porque esse indivíduo já me causou problemas de sobra.
- Pronto então, não falemos nisso. Olha, toma a aguardente, tal como pediste.
- Obrigado Mário, és muito eficiente.
Quando me voltei, já o Luís estava ao balcão do bar da pensão. Não sei se terá reparado no momento de carinho mas também já é novidade para ele o meu relacionamento com a Cristina.
- Então amigo, tiveste um bom Natal?
- Muito bom amigo Luís espero que o teu também tenha sido.
- Olha meu caro, que seja sempre assim, com saúde e junto da família.
- E novidades?
- Olha, tirando o trágico assassinato de Benazir Bhutto, só mesmo a luta pelo domínio do maior banco privado português.
- Pobres fanáticos, loucos assassinos aqueles que conseguem perpetrar tão repudiante acto.
- É o preço que se paga por ter coragem meu caro Mário.
- É bem verdade Luís e que vais beber?
- Pode ser um whisky velho, com uma pedra de gelo.
- Também te acompanho Luís, apetece-me um bom e macio whisky. Voltando à conversa, falaste do B.C.P. e da luta quase fratricida pela liderança desse gigante português.
- É verdade Mário, quando cheira a dinheiro montam logo o circo para ver quem há-de ser eleito o melhor palhaço.
- A propósito, também li hoje, num espaço que habitualmente frequento, uma opinião muito realista e directa acerca desse assunto. Raramente se engana aquele amigo e, além disso toca na ferida sem constrangimentos.
- Também por lá passei e, confesso que concordo com ele sobretudo quando diz que "é tudo a mesma merda".
- Tens razão Luís, só as moscas é que mudam.
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terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

UM NATAL BANAL

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domingo, 23 de Dezembro de 2007

DOCES DE NATAL

Na pensão vive-se um ambiente muito especial. Imbuídos do espírito natalício, todos fazem questão de transmitir aquela paz que só nestas alturas (infelizmente) parece tomar conta de todos, deixando toda a gente feliz, mais condescendente para com o próximo e mais receptiva à resolução dos problemas dos mais carenciados. Não é incomum irromperem pela pensão adentro algumas pessoas à procura de algo para melhor passarem estes dias festivos. A D. Rosalinda faz sempre questão de ter à disposição de quem nos visita, um sem número de doces tradicionais desta quadra. Curiosamente, este ano, não se ficou pelas tradicionais broinhas de natal ou pelas deliciosas filhoses ou até mesmo pelo indispensável Bolo Rei. Desta vez foi mais além, aproveitando a chegada do filho e da nora, optou por colocar na mesa, onde habitualmente se encontram todos esses doces, um delicioso Panettone, que a Susana tão bem soube fazer e, imagine-se, "raclete", uma espécie de tosta de queijo, com uma elaboração especial e com um queijo, tradicionalmente suiça.
Lá fora a iluminação não abunda, diria mesmo que está sobriamente instalada, a contrastar com o exagero do passado ano. Talvez a contenção de despesas a isso tenha obrigado mas, um pouquinho mais não faria a diferença e aquecia alma.
Como era de esperar, não faltou a cabana onde nasceu Jesus que, pese embora a falta de espaço, foi originalmente construída junto à torre da igreja matriz pelo Agrupamento de Escuteiros de Penacova. O burro, esse não está presente, nem poderia pois, para além de não ter espaço, foi utilizado para transportar o Pai Natal. Quanto à vaca também nem sinal, por um lado, porque a dificuldade em colocar tal animal em tão exíguo local prejudicava a sua presença, por outro, não havendo "menino" para aquecer, deixa de ser fundamental a presença daqueles seus habituais companheiros de presépio.

quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

RESIGNADAMENTE DE ACORDO

- Então Mário, se bem percebi, a partir do próximo ano, vamos ter que aprender a escrever de novo?
- Mais ou menos Alice, apenas algumas palavras vão sofrer alterações.
- E sabes quais?
- Bem, segundo o acordado entre os Estados cuja língua oficial é o português, vão desaparecer da nossa escrita as letras mudas e algumas palavras com hífen, assim, se agora escreves "afectivo", com a entrada em vigor do novo acordo, passarás a escrever "afetivo".
- Ou "batismo" em vez de "baptismo".
- Exacto. Quanto àquelas que habitualmente escrevemos com hífen, como por exemplo "mini-saia"...
- Passaremos a escrever "minissaia".
- Nem mais Alice, apesar de ter consciência que vai ser um bocado complicado aplicar as novas regras, sobretudo para mim que sempre escrevi desta maneira, não creio que vá ser um bicho-de-sete-cabeças ou bichodessetecabeças. (riso)
- Para mim e para os meus colegas também vai ser um bocado difícil mas, aos poucos e com o hábito, vamo-nos habituando.
- Claro Alice, o "hábito faz o monge", já não me atrevendo a dizer o mesmo relativamente à tua avó, cuja aprendizagem e mecânica vai ser mais difícil.
- Mas Mário, eu também li que algumas palavras vão perder o acento circunflexo, estou a lembrar-me por exemplo, das palavras "vêem" ou "crêem" que com as novas regras vão deixar de ter aquele sinal diacrítico.
- São inúmeras as alterações de que vai ser alvo a nossa forma de escrever mas, convém dizer que este acordo foi assinado pela primeira vez em 1990 e que só agora, após sucessivos protocolos modificativos, vai finalmente entrar em vigor.
- E concordas com todas essas alterações?
- Bom, para ser franco gosto muito da nossa forma de escrever, além disso, convém não esquecer, que a língua portuguesa "nasceu" em Portugal e, como é lógico, quem devia ditar as regras acerca desse assunto seríamos nós, contudo somos apenas dez milhões de portugueses para um universo de cento e noventa milhões, como é o caso do Brasil, o que naturalmente nos coloca num situação desvantajosa.
- E...
- E..., como contra factos não há argumentos, quando não os podes vencer, junta-te a eles, tal como aconteceu com o Euro quando substituiu o Escudo.
- Posso então concluir que está de acordo com este “acordo”.
- Mais resignado do que de acordo, será essa a forma que caracterizará a minha posição acerca do assunto.

terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

O RISCO DE QUEM QUER CASA (R)

- Foi uma boa notícia para quem tem crédito à habitação, não achas Luísa?
- Se acho Susana. Eu estava a ver que esta fase da subida das taxas de juros nunca mais parava a ponto de eu e o meu António temermos pela nossa própria casa.
- Mas parece que não vai ser por muito tempo, porque a situação dos mercados internacionais não é nada favorável a que as taxas se mantenham assim por muito mais tempo.
- Quer dizer que estão previstas novas subidas?
- Claro Luísa, mas também, quando as novas regras entrarem em vigor, os empréstimos para a aquisição de habitação podem ser negociados com qualquer banco da União Europeia e, dessa forma, as prestações passarão a ser mais baixas o que, como bem deves saber, isso permite-nos respirar com um pouco mais de alívio sem temer o pior cenário.
- Tomara que sim Susana porque, da maneira que as coisas estão a ficar, qualquer dia vou ter que ir viver para casa da mãe do meu António, coisa que eu nunca desejaria.
- Porquê, também não gostas de sogras?
- Não é esse o caso Susana, a questão é que, quem casa quer casa e, como eu e o meu António estamos a pensar casar para o próximo Verão, não calhava muito bem que isso acontecesse.
- Então não te preocupes que tudo se irá resolver. Além disso, sempre podes falar com a D. Rosalinda e pedir-lhe um aumento.
- Achas? A D. Rosalinda nem sequer quer falar no assunto. Diz ela que o recente aumento do ordenado mínimo nacional já é mais do que suficiente e já se esteve a chorar a dizer que as coisas estão más, que o negócio não corre. Aquelas coisas de patrão, sabes?
- Claro que sei Luísa. Pensas que eu também já não passei por isso? A D. Rosalinda tem que gerir o negócio da melhor maneira para ver se a pensão se mantém a navegar em águas calmas como até aqui.
- Outra coisa Susana. Tu não achas que se passa alguma coisa com a Cristina?
- Como assim?
- Penso que ela está a esconder alguma coisa?
- Achas?
- Então tu não achas estranho que ela tenha recusado uma ida para o estrangeiro sem motivo aparente?
- Olha Luísa, a seu tempo saberás porque razão a Cristina não foi para a Inglaterra. Depois, compreenderás porque motivo ela optou por cá ficar.
- Então sempre há alguma coisa?
- Sim, de facto há uma coisa, que não é uma coisa propriamente dita, mas sim alguém muito próximo da Cristina e de quem ela gosta muito e de quem todos nós também iremos gostar concerteza.
- Quer dizer que a revelação está para breve.
- Sim, para muito breve.
I

segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

DA PENSÃO PARA O HOTEL

Em mais uma passagem por Penacova, regresso ao meu quarto da Pensão que o Recepcionista sempre me acautela, mais os cuidados da D. Rosalinda. Tudo está posto no seu lugar e a temperatura dentro da Pensão faz esquecer a guieira que bate à porta da rua, pelo lado de fora.
Na recepção, os jornais e os panfletos do costume. Um, em particular chamou-me a atenção.
O Hotel Penacova, "concorrente" desta pensão, vai reabrir com festa de arromba e fogo de artifício e tudo...
O motivo é, de facto, para festa e o fogo de artifício na passagem de ano poderá ser uma novidade nesta tão pacata vila.
O que se espera é que a festa dure para lá do segundo da passagem de ano. É preciso dinamizar esta terra e o Hotel, sozinho, vai conseguir pouco se não existirem bares dignos desse nome, se não existir um fio condutor cultural que justifique a vinda a Penacova. Não basta ter um Hotel, por muito bem localizado que esteja na paisagem se não há nada do ponto de vista da ocupação do tempo e do lazer.
A menos que se queira que o Hotel sirva apenas para as pessoas virem para aqui dormir e descansar dormindo... Porque não há mais nada para ver ou fazer, sobretudo à noite.
Eu até nem me queixo. Passo cá em trânsito para outras paragens e basta-me o conforto do "meu" quarto de Pensão...

Foto

domingo, 16 de Dezembro de 2007

NOVO BLOGUE EM PENACOVA

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Notícias de Penacova
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sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

AS ESTRELAS DE BALI

- Parece que em Bali as coisas estão um bocado "quentes", não achas Mário?
- Quentes e de que maneira Luís, principalmente depois da tomada de posição do presidente Bush em tentar protelar ainda mais as limitações às emissões de gases que contribuem para o efeito de estufa.
- Sabes Mário, acho uma perfeita parvoíce estarem a contar com aquele paspalho para decidirem alguma coisa em benefício do planeta.
- Tens razão Luís, aquele indivíduo não tem um pingo de vergonha e muito menos respeito pelo nosso futuro. A economia norte-americana está basicamente dependente do petróleo, tudo nela gira à volta do ouro negro e para ele impor regras severas às suas empresas é o mesmo que estar a ditar-lhes a morte prematura e a hipotecar o seu futuro político.
- Tudo bem, até pode ser assim Mário, mas não vamos sacrificar o equilíbrio ecológico do nosso planeta por existirem meia dúzia de energúmenos que temem pelas suas fortunas ironicamente construídas à custa dos constantes atentados contra o planeta.
- E se o presidente Bush não mudar de posição, a E.U. ameaça não comparecer na reunião agendada para o final de Janeiro no Havai.
- Alguém tem que tomar uma posição de força para ver se todos invertem a tendência poluidora a que todos estávamos habituados. Até mesmo Portugal ultrapassou em 15,8 por cento o limite de emissões estabelecidas pelo Protocolo de Quioto.
- Quando o exemplo vem de cima todos se sentem no direito de prevaricar, pena é que, para muitos e sobretudo para os mais pobres, o desenvolvimento, ainda depende das energias poluidoras e, no nosso caso, com estamos praticamente dependentes do exterior, estamos reféns dessas tecnologias que, apesar de baratas e poluidoras, contribuem para o nosso desenvolvimento.
- Olha amigo, enquanto eles não chegam a consenso, vamo-nos preparar para saborear o polvo no forno com batatas que a Susana confeccionou para o jantar e beber um espumante da "Quinta da Calçada Bruto" que a Cristina fez questão de aconselhar para acompanhar aquele magnífico manjar.
- Depois Mário, vamos esperar ter sorte com o céu para ver se conseguimos observar a chuva de estrelas que está prevista para esta noite.

foto: Yusuf Ahmed Tawil/Reuters

quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007

(T)RATADO DE LISBOA

- Finalmente a Europa viu-se livre da presidência portuguesa.
- Não sejas assim Paulo, não me digas que não gostaste da prestação dos nossos governantes durante os seis meses em que estiveram à frente dos destinos da União?
- Bom, para falar a sério, acho que nem nos portamos muito mal. Resolvemos o imbróglio do Tratado de Lisboa e conseguimos reforçar as relações com África.
- Estás a ver que afinal não foi assim tão negativa a presidência portuguesa da União Europeia.
- Só acho que escusávamos de ter sido o país que mais ditadores e facínoras conseguiu reunir de uma só vez e em tão pouco tempo, no mesmo espaço.
- Mas agora vem a melhor parte Paulo, os nossos partidos da oposição já lançaram o desafio ao governo para referendar a ratificação do novo tratado.
- Eu acho muito bem que ele seja referendado.
- Ai sim, e porquê?
- Porque se o novo tratado vem substituir a constituição da europeia, então deve ser analisado antes de ser ratificado, para assim ver se serve ou não aos cidadãos.
- Mas isso é perder tempo e dinheiro. Nós temos, de uma maneira ou de outra, que ter regras que nos unam nas nossas diferenças e que estabeleçam as metas de actuação para a sustentabilidade da união.
- Mesmo assim Mário. Mesmo sabendo que isso é necessário não podemos acreditar nos políticos porque só se protegem uns aos outros sem olharem para a verdadeira resolução dos problemas que nos afectam todos os dias.
- O problema Paulo, não está no facto de eles não olharem mas sim no facto de eles não fazerem, porque fartos de saber o que se passa estão eles.
I

quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007

PROIBIR SEM FANATISMOS

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- Parece que a partir do próximo dia 1 de Janeiro vai ser mais difícil fumar nos locais abertos ao público.
- Tudo indica que sim D. Rosalinda, vamos lá a ver é se os fumadores vão respeitar as limitações que a Lei vai impor.
- Olha Mário, pelo menos aqui na pensão não vão ter esse problema, uma vez que existem espaços para todos se sentirem bem. Quem quiser fumar pode fazê-lo na sala onde é permitido, sem se sentir minimamente deslocado ou rejeitado por, ainda, ser um fumador. Quem, por sua vez, não quiser fumar, ou por não ter esse vício, ou por achar que não o deve fazer e assim preferir a sala onde é proibido fumar, também tem todas as condições para se sentir em casa.
- Sem fanatismos não é D. Rosalinda?
- Claro que sim Mário, aliás até condeno bastante esse olhar de soslaio vindo daqueles que não fumam para aqueles que, ainda, fumam.
- Em alguns casos até pode causar mau estar entre uns e outros.
- Exactamente Mário e, no nosso caso, não pretendemos que os nossos hóspedes se sintam incomodados por tal motivo, se bem que, depois de analisadas as coisas, todos temos o direito de zelar pela nossa saúde e não aceitar de bom grado que nos estejam a mandar baforadas de fumo para cima.
- Sabe uma coisa D. Rosalinda? Eu acho que o Estado é o grande culpado desta situação toda.
- Ah sim Mário, e porquê?
- Então D. Rosalinda, está bom de ver, se o Estado é quem tem o monopólio da venda do tabaco, se é ele que arrecada a maior parte dos lucros, então devia por e simplesmente acabar com a venda de algo que prejudica gravemente a saúde, não acha?
- Não totalmente Mário. Em certo aspecto és capaz de ter razão, pois o Estado que agora condena, severamente diga-se, o consumo do tabaco, foi aquele que durante décadas o promoveu mas, por outro lado, é ao Estado que cabe salvaguardar a saúde dos seus cidadãos e zelar para que as regras para a proteger sejam efectivamente cumpridas, portanto, temos um Estado que, por um lado está a pagar as consequências de anos de incentivo ao consumo e, por outro, um Estado que procura evitar a todo o custo a tentação de consumir através de campanhas antitabágicas bastante severas e extremamente dispendiosas.
- Posso assim concluir que o Estado age sempre em função dos seus interesses, dependendo das tendências e das conclusões a que se vai chegando com a constatação dos erros que resultaram de políticas que, na sua maior parte, só são tomadas para favorecer grandes grupos económicos com a promessa de postos de trabalho e de outras contrapartidas que, grande parte das vezes, não dão em nada.
- Infelizmente é aquilo que se passa Mário, somos todos cobaias das "experiências" que aqueles que nos deviam defender levam a cabo para agradar não se sabe muito bem a quem, mas de certeza a alguém que, em algum momento, os beneficiou.
I

segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

OS BURROS DO PAI NATAL

- Alice, parece que afinal também vamos ter a visita do Pai Natal.
- A sério Cristina, em que dia?
- Pelo prospecto que entregaram ao Mário, será no dia 22.
- Que beleza, pelo menos este ano vamos ter algo de diferente em Penacova.
- Diferente e de que maneira, vê lá tu que além do Pai Natal, também vai haver um espectáculo ao ar livre com vários personagens que vão percorrer as ruas da vila durante toda a manhã.
- Estou ansiosa para que chegue o dia 22.
- Mas há mais!!! O Pai Natal chegará de burro, acompanhado pelos seus ajudantes, e as crianças poderão dar umas voltinhas pelo Terreiro.
- Será um daqueles burros que normalmente são utilizados para fazer os passeios?
- Provavelmente será?
- Mas Cristina, há uma coisa que eu não compreendo, o Pai Natal não se faz transportar de trenó puxado por renas?
- Sim normalmente é o que acontece, mas numa terra em que abundam esses animais, é natural que os utilizem quando é necessário transportar alguém.
- E os ajudantes do Pai Natal, serão duendes?
- Talvez não, tudo depende do Pai Natal.
- Como assim Cristina?
- Se por exemplo o Pai Natal for o Presidente da Câmara, então os seus ajudantes serão, como é natural, os vereadores.
- E o burro?
- Bom, o burro....fica ao critério de cada um mas, a julgar pela abundância com que os vemos por aí, não será necessário puxar muito pela cabeça para imaginar quem seja.
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sábado, 8 de Dezembro de 2007

O QUE ÁFRICA ESPERA DA UNIÃO EUROPEIA


sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007

ESTRELAS DE NATAL

- O Espírito do Natal começa a tomar conta de nós, não achas Alice?
- Acho sim Cristina. As pessoas começam a ficar mais simpáticas, mais compreensivas e mais tolerantes.
- Eu adoro quando vamos buscar os enfeites e começamos a pendurar as gambiarras e a preparar a Árvore de Natal. Todo este ambiente me faz lembrar os momentos que passava com a minha família e sobretudo com os meus irmãos, sempre ansiosos que estávamos por chegar a hora de abrir as prendas.
- Este ano a minha avó comprou uma enorme Árvore de Natal branca para colocar no centro da sala de estar, decorada com bolas vermelhas e com uma estrela igualmente grande e dourada.
- E onde vai ser construído o presépio?
- Normalmente é construído junto à recepção para que seja a primeira coisa que os hóspedes encontram quando entram na pensão. Além disso, o Mário gosta muito de ver todas aquelas miniaturas a movimentarem-se como se de uma comunidade ao vivo se tratasse e também por ali está, sempre que for necessário dar um jeito.
- Mas olha que este vai ser o fim-de-semana em que muitas localidades vão dar início aos festejos do Natal.
- Ai sim Cristina, então quais?
- Olha, por exemplo, estou a lembrar-me da Vila Natal em Óbidos da Feira de Natal na Lousã ou até mesmo do maior presépio animado do país em Penela.
- Que giro como alguns municípios se empenham em celebrar de forma diferente o Natal, aproveitando as características da sua paisagem e até mesmo a singularidade dos seus edifícios para os adaptarem à quadra festiva que se aproxima.
- E por cá Alice, como costuma ser o Natal?
- Olha Cristina, por cá as ruas são iluminadas, as crianças nas escolas têm as suas próprias festas e, além disso, pouco mais acontece. Aqui na pensão, decoramos tudo a preceito, saboreamos as rabanadas, as filhoses e as broinhas feitas pela Susana e vestimo-nos com aqueles pequenos gorros vermelhos que têm um pompom branco na ponta, sabes?
- Claro que sei e, confesso que me sinto muito bem assim. Gosto de transmitir a paz natalícia aos outros e, principalmente, aos nossos hóspedes.
- Olha, estás a ver esta Estrela de Natal?
- Sim estou, é grande e brilhante, faz lembrar a Estrela Polar.
- Foram os meus pais que ma deram para que todos os natais me lembre deles.
- E eles, onde estão?
- Estão na Suiça, país dos Alpes e da neve.
- Há muitos anos?
- Sim, há cerca de 12.
- Eras pequena então, quando eles foram.
- Sim, tinha apenas 4 anos, mas este ano vêm cá passar o Natal.
- Então, este Natal vai ser magnífico para ti.
- Assim espero Cristina.
I

quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

CONTADORES DE PLÁSTICO

-Então, se bem percebi, vamos ter que pagar 5 cêntimos por cada saco de plástico que trouxermos com as compras do supermercado.
- Claro Susana, agora de cada vez que quiseres ir comprar a mercearia ou outra coisa qualquer, tens que levar uma cesta para trazer as coisas que comprares.
- Sabes uma coisa Luísa, também vou ser sincera contigo, a mim incomodava-me imenso que os sacos fossem dados sem qualquer tipo de controlo e tu bem sabes que a D. Rosalinda era a que mais trazia. Ou porque precisava deles para a lã dos arraiolos, ou para pôr as folhas caídas do jardim, enfim, por qualquer coisa lá trazia um saco e isso, a multiplicar por centenas senão milhares de pessoas, imagina só a poluição que não significa.
- Mas, por exemplo, na Irlanda esse imposto já foi criado em 2002 e não foram só 5 cêntimos por cada saco mas sim 15. Cá em Portugal, se por exemplo fores ao LIDL, também tens que os pagar e sempre me lembro, de cada vez que lá vou, de ver as pessoas com as caixas vazias que por lá vão encontrando para trazerem as compras.
- Vês Luísa, a moda já não é nova, nós é que estamos habituados à fartura, por isso é que eu concordo com o pagamento dessa taxa ecológica.
- Pois tens razão Susana e se alguém quiser, que os leve de casa ou que vá de cesta, como tu disseste, para o hipermercado. Havia de ser giro tu entrares num hipermercado qualquer com uma cesta à cabeça.
- Uma cesta não direi mas um carrinho com rodas. Há-de ser mais uma maneira para eles inventarem alguma coisa que nos leve mais dinheiro.
- Meninas acalmem-se que, afinal já houve recuos na cobrança da taxa dos 5 cêntimos por saco.
- Oh D. Rosalinda, nem a ouvimos chegar. Então quer dizer que já não teremos que pagar para trazermos os sacos do hipermercado?
- Sim é verdade, mas estão em estudo campanhas de sensibilização para evitar o uso desnecessário dessas "bombas ambientais" que, ao ar livre e sem tratamento, podem demorar até 500 anos a desaparecer por completo.
- É horrível D. Rosalinda, longe de mim imaginar que um simples saco de plástico durasse tanto tempo até se desfazer.
- É verdade Luísa, mas agora, o que mais me preocupa, é termos que pagar os novos contadores que a E.D.P. quer instalar em substituição dos actuais e que custam quase 200 euros.
- Então os que temos não servem?
- Parece que não Susana, os novos são contadores de telecontagem que comunicam a leitura à distância.
- Afinal o que eles pretendem é não ter o trabalho de andar de contador em contador a fazer a leitura.
- Pois deve ser, mas não é justo que se pague uma coisa que nunca é nossa pois, o que actualmente acontece, é que descontamos todos os meses para o contador e nunca somos donos dele.
- Éh, os contadores em Portugal são muito caros, parece que andamos a pagar uma casa, só somos donos dela quando formos velhos e, se calhar, até depois de mortos a continuamos a pagar.
I

quarta-feira, 5 de Dezembro de 2007

(RE)INSERÇÃO (A)SOCIAL

- Então Mário, alguém ficou a dever um "favaios"?
- É verdade D. Rosalinda, imagine a Srª. que, na 2ª feira, o Xavier, saiu daqui esbaforido, sem sequer pagar o que bebeu?
- Mas ele agora faz o quê?
- Olhe D. Rosalinda, até há bem pouco tempo, andava a dar serventia a pedreiro, agora parece que lhe pagam o rendimento social de inserção.
- Mas será que ele e a família se conseguem governar apenas com esse tal rendimento?
- A julgar pela aparência, tudo indica que sim.
- Olha Mário, eu não concordo nada com esse subsídio que dão a pessoas que, tal como o Xavier, ainda têm forças e idade para trabalhar.
- Oh D. Rosalinda, não seja assim tão mazinha.
- É verdade Mário, então admite-se, que quem aufere desse rendimento, se considere inapto para trabalhar?
- Bom, nessa perspectiva sou capaz de lhe dar razão.
- E tem que dar mesmo Mário. O exemplo do Xavier é óptimo para ilustrar a minha opinião. O Xavier era um pobre coitado a quem a segurança social deu a mão. Não se sabia governar, o que ganhava era todo para o vinho e os filhos em casa a gemer com a fome. Depois lá lhe arranjaram uma casita, com quartos para as crianças e com tudo aquilo que uma casa de família deve ter.
- Até aí tudo bem D. Rosalinda.
- Pois sim, até aqui tudo bem, contudo, o Xavier está nessa situação há quase um ano, não se vê que ele tenha gosto por fazer alguma coisa, mas continua a receber as ajudas da segurança social que, além de lhe entregar um dinheirão por mês, ainda lhe enchem a casa de mercearia. Diz-me só se não é uma injustiça aos olhos de quem trabalha?
- Sim, é certo, tanto mais que o Xavier podia andar aí, por exemplo, com as pessoas da PENSAR, a limpar o mato das serras ou a fazer outra coisa para, ao menos, mostrar que tem vontade de trabalhar e que merece o dinheiro que lhe dão.
- Sabes uma coisa Mário, as pessoas falam e com razão. As assistentes sociais e os responsáveis pela atribuição desses subsídios, haviam de levantar o traseiro da cadeira para ir ao local onde vivem as pessoas e avaliar a verdadeira necessidade que elas têm e até que ponto elas são realmente carenciadas.
- Tem toda a razão D. Rosalinda. Em vez de andarem para aí a pavonear-se para trás e para diante, deveriam era ir para o terreno, ver os casos de miséria gritantes que arrepiam qualquer um e, aí sim, atribuir esse rendimento a quem realmente precisa.
- Exactamente Mário, além disso, tal subsídio faz com que as pessoas que o recebem nunca abandonem os vícios que têm porque sabem que aquele é certinho e que com ele podem continuar a fazer uma vidinha sem problemas.
- Olhe D. Rosalinda, a Srª. pôs-me tão nervoso que até vou pagar já o "favaios", apesar de saber que nunca mais vou ver este dinheiro.
- Deixa lá Mário, “quem ajuda os pobres, empresta a Deus.”
- Pois sim, D. Rosalinda, pois sim.
I

segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007

MÍSCAROS COM ENTRECOSTO

- E a confusão ontem na feira da Espinheira?
- Deixe-me aqui D. Rosalinda. Quando vi aqueles homens todos encapuzados, com armas a tiracolo a apontar para toda a gente, confesso que fiquei de tal maneira apavorada que só me apeteceu largar tudo e vir embora.
- Mas oh Luísa, tu não achas que todo aquele aparato foi desnecessário?
- Claro que acho D. Rosalinda. Se andassem à procura de terroristas ou de indivíduos violentos ou de criminosos evadidos, ainda se compreendia, agora, chegar ali naquele preparo, a querer assustar toda a gente, só por causa de material contrafeito, acho que foi muito exagerado por parte da ASAE. Por causa disso acabei por não comprar umas calças de ganga ao meu António e o último CD do Toni Carreira, tudo por 15 euros.
- Pois minha cara, foi exactamente por causa disso que eles lá foram.
- Mas D. Rosalinda, umas calças de ganga parecidas com aquelas que eu queria comprar, não custam menos de 50 euros e o CD do meu Toni, não o trago para casa por menos de 15 euros, por isso, vale a pena aproveitar.
Nisto, chega Xavier à recepção. É um indivíduo pacato, pouco falador, e metido consigo, apenas sai do seu "casulo" quando falam do seu Benfica que, por sinal, não foi muito bafejado pela sorte neste fim-de-semana que passou.
- É assim a vida caro Xavier, quem não marca sofre.
- Pois é Mário, mas para castigo, haviam de receber o ordenado mínimo durante dois meses para saberem o que custa a vida.
- E tu Xavier, quanto é que ganhas por mês?
- Pouco mais que 500 euros.
- E mesmo assim, ainda foste ao Estádio da Luz ver o teu Benfica.
- Bem...., sabes como é, um homem não se pode privar de tudo.
- E também fumas, gostas de beber o teu copinho com os amigos e além disso a tua mulher está desempregada.
- Sabes que um homem não é de ferro Mário.
- Claro que sei Xavier, como também sei que esses vícios todos, aos quais tu (legitimamente) tens direito porque não és de ferro, não te ficam nada baratos.
- Claro que não, só quem tem dinheiro é que tem vícios.
- Mas os teus filhos andam um bocadito mal vestidos e, segundo me consta, as refeições lá em casa não são nada por aí além. Além disso deves 2 meses de renda à D. Rosalinda que, ao que tudo indica, vão passar a três.
- Olha Mário, eu não vim aqui para receber lições de moral, nem para que tu me lembres aquilo que eu devo e que posso vir a dever, por isso, aponta aí o meu "favaios" que eu vou-me embora.
E saiu disparado pela porta fora, sem pagar o "favaios" e, ainda por cima, a vociferar acerca da minha pessoa.
Parece que já o estou a ver a chegar a casa e a correr toda a gente à bofetada e ao pontapé, sem receio que dele façam queixa porque, nestes pequenos meios, "entre marido e mulher, ainda há quem não meta a colher".
- E tu Paulo, está aí há muito tempo?
- Olha meu caro, há tempo suficiente para ver que te ficaram a dever um "favaios".
- Aquele rapaz não tem emenda.
- Nem adianta estares com isso preocupado. Então e o Chávez?
- Lá levou por tabela, sinal que o povo ainda não esqueceu que aconteceu recentemente no Chile.
- E o que está a acontecer em Cuba.
- Mas mesmo assim, aquela derrota ainda não o convenceu.
- Não duvides Mário, vais ver que daqui a uns tempos vai voltar à carga.
- Na Rússia foi o esperado, com o Putin a vencer confortavelmente os seus opositores, apesar das alegadas irregularidades e das manifestações de força que antecederam as eleições.
- De lamentar meu caro Mário, de lamentar que os opositores continuem a ser calados tal como acontecia no tempo da U.R.S.S.
- Tens razão Paulo só que neste caso, é um silenciamento democrático.
- Olha, sabes uma coisa, apetece-me um "favaios", mas desta vez a pagar.
- Acompanho-te Mário, para ver se fico mais relaxado, porque o apetite já cá tenho. Sabes o que é que a Susana preparou para o jantar?
- Arroz de Míscaros, com entrecosto.
- Jura?
- A sério, só que de viveiro, claro.
- Pois, bem sei, mas ao menos servem para matar saudades daqueles que tu e eu íamos apanhar por esses pinhais fora, fossem amarelos ou pretos.
- Velhos tempos Paulo, mas desde que começaram a plantar eucaliptos por todo o lado, sem qualquer tipo de coerência, desapareceram essas e outra maravilhas que a terra nos dava.
- É o progresso meu caro.
- Claro que é o progresso, mas o progresso também não pode servir de desculpa para tudo. Não ouviste o que disse ontem o Sr. Arquitecto acerca do caos urbanístico que tomou conta de Penacova?
- E tem toda a razão, só quem manda não quer saber disso, constroiem-se depois ficam para aí às moscas como aquele edifício que foi construído junto à "Fonte do Castanheiro".
- E nas "Malhadas" também. Naquela zona só se vêm imóveis edificados em total desencontro com os já existentes e em desrespeito pela harmonia paisagística.
I

domingo, 2 de Dezembro de 2007

ARQUITECTURA DESAFIADA


Foto: (c) Arquitecto

Nas minhas passagens por Penacova, como Arquitecto, não fico indiferente ao caos urbano em que, paulatinamente, se está a transformar a Cheira e os "arredores" da vila de Penacova.
As perguntas que se me colocam são muitas, mas algumas delas, pelo seu carácter dramático, erram sistematicamente em busca de respostas.
Se é certo que o progresso tem muitas caras, não me parece evidente que "este" progresso se construa ao arrepio de elementares regras estéticas e de integração na paisagem.
Quem permite estas "singularidades" arquitectónicas, espalhadas pelas encostas de Cheira e Penacova?
Bem sei que a morfologia do terreno não augura nada de fácil, mas o bom senso, nestes casos, deveria ser muito mais acautelado.
Portanto, o desafio está colocado. Ou Penacova cresce de braço dado com a sua paisagem, ou estamos a criar um "monstro" e a semear de abencerragens um lugar singular, onde deveria ser obrigatório cumprir com as regras estabelecidas pela própria natureza.
Pelo que se vê, o caminho não está a ser esse...

sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

GREVE EM TRÂNSITO

-Bom dia Mário.
- Bom, dia António. Então de greve, não é verdade?
- Pois, não podemos ceder às políticas laborais deste governo.
- Mas custa um bocadito, não custa?
- Claro que custa, mas o que mais custa é estarmos a ser constantemente penalizados, quando sabemos, e vemos, que a atitude do governo em relação à contenção das despesas não é, nem de longe nem de perto, exemplar. Portanto, se os srs. ministros estão à espera de reduzir o déficit à custa do funcionário público, digo-lhe já, que comigo não contam.
- Independentemente de saber que eles não cedem nas propostas apresentadas?
- Independentemente disso. Só condeno o facto de a greve ter sido marcada para uma 6ª feira mas, espero eu, se esta não resultar, que avancem com outras mais ousadas, durante mais dias e com objectivos mais bem definidos.
- Pois é meu caro António, só assim poderão vir a conseguir alguma coisa e, mesmo assim, não sei.
- Pois nem eu, mas, em todo o caso, vamos tentando. E o que é aquilo que está a passar na televisão da pensão.
- Olha António, é sobre o festival de música do mundo que, desde 4ª feira, está a decorrer em Aveiro e que se vai prolongar até dia 1 de Dezembro.
- Interessante Mário, talvez lá dê uma saltada, pelo menos promete ser interessante, pois com o actual estado das coisas, nada melhor que uma voltinha pelo mundo, para nos esquecermos, um pouco, as misérias que grassam este país.
I

quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

DERROTAS, EMPATES, REGRESSOS E DISPARATES

- Então Mário, o teu Porto não conseguiu aguentar o empate?
- Não me digas nada Paulo que eu nem estou em mim.
- Quatro bolas a uma é muita coisa.
- Tens razão, mas o que mais me revolta, é que o empate nos era suficiente e, mesmo assim, não conseguimos travar a investida do Liverpool.
- Não te preocupes meu amigo porque, pelo menos, o Benfica "salvou a honra do convento".
- Valha-nos isso meu caro, valha-nos isso.
- Vejo que andas a ler um romance?
- Olha Paulo, comprei o último livro do Miguel Sousa Tavares e pela leitura do resumo, confesso que me agrada.
- Também já ouvi falar muito bem acerca do sucessor do "Equador", mas para mim acho que são ambos muito grandes e confesso que já não tenho pachorra para ler durante muito tempo.
- O meu problema é não ter disponibilidade e, como bem sabes, aqui na recepção é difícil ler tudo de seguida, por isso, estou apenas a dar uma vista de olhos, a ler uns parágrafos, para depois, no conforto do meu quarto, ler mais amiúde este que eu espero ser um bom romance.
- Olha Mário, há dias que te ando para perguntar uma coisa?
- Então?
- Não tinhas sido convidado pela D. Rosalinda para frequentar um curso de iniciação à prova de vinhos?
- Sim, fui convidado, mas a Cristina acabou por mudar de ideias quanto à ida para a Inglaterra e o convite ficou sem efeito. E sabes que mais Paulo, até acabei por ficar satisfeito porque, aqui para nós, não me estava a apetecer muito ir para Aveiro e, além disso, mantenho-me ao pé da Cristina....
- Confessa lá Mário, tu tens um fraquinho por ela, não tens?
- Mais ou menos Paulo, mais ou menos. Desde que a vi entrar pela porta da pensão, que nunca mais fui o mesmo.
- Foi o que eu imaginei, mas ainda bem que assim é porque vocês os dois já começam a necessitar de quem vos aqueça os pés durante a noite.
- Olha Paulo, mudando de conversa, conheces o grupo que está a tocar?
- Claro que conheço, são os Madredeus.
- Exactamente, pena é que vão terminar.
- Não me digas? Um grupo daqueles, tão singular e com tão bonitas melodias, tão marcante no panorama musical português dos anos oitenta e noventa do século passado.
- É verdade Paulo, também eu fiquei chocado com a notícia, mas parece que a Teresa Salgueiro quis abraçar outros projectos e os restantes membros do grupo acharam que não fazia sentido continuarem sem ela, daí terem decidido parar por uns tempos.
- É pena que assim tenha sido mas, como é natural, só a eles cabe analisar a possibilidade de continuar com um projecto que já dura há vinte e dois anos.
- Tens razão Paulo, mas do que tenho mais saudades é daquela magnífica e incomparável voz que eu pensei poder vir a ser uma potencial candidata a ocupar o vazio deixado pela Amália.
- Deixa lá Mário, pode ser que um dia voltem, tal como os The Police, os The Who ou os Sex Pistols.
- Pois, parece que é moda regressarem passados vinte anos de terem acabado.
- Sabes como é, existem sempre aqueles saudosistas que nunca esqueceram os momentos que tais bandas lhes proporcionaram e, além disso, tal regresso sempre serve para, quem sabe, equilibrar as contas. Além disso as editoras discográficas estão sempre à espera de ganhar mais uns cobres.
- És capaz de ter razão Paulo, param durante uns anos e depois regressam mais velhos, claro, mas com força suficiente para fazer vibrar os fãs e ainda para venderem uns milhares de cópias dos álbuns que entretanto editarem.
- É a prova de que, quando se quer alguma coisa, consegue-se sempre alcançá-la, a não ser, claro, que a saúde nos atraiçoe.....

segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

SÓ DE IMAGINAR A VOLATILIDADE...

- Olha Susana, só de imaginar a situação daquela mulher a ser agredida por um brutamontes sem se poder defender, fico toda a tremer.
- Também eu Luísa, nem consigo imaginar como me comportaria numa situação dessas, acho que desatava a fugir e só parava quando não visse ninguém atrás de mim.
- Já nem numa sala de espera de um hospital se pode estar em segurança, isto não é normal num país de "brandos costumes" como gostamos de ser intitulados.
- Pois é Cristina, mas a verdade está à vista e não há volta a dar, parece que estamos no Far West, onde impera a lei do mais forte.
- Paira sobre nós uma sensação de insegurança e que se tem vindo a alastrar por todo o país, pelo menos é o que dizem os jornais.
- Sabes Luísa, tudo isto é o reflexo da crise que estamos a atravessar. As pessoas vêm-se sem dinheiro, sem emprego e sem futuro. A continuar assim, muitos lares vão ficar sem o bacalhau ou o peru do Natal.
- Tens razão Susana, imagina tu que até os patrões se estão a associar aos sindicatos para se manifestarem contra o (inevitável) encerramento das suas empresas, facto inédito no mundo esta derradeira união. Nunca em algum país se sentiu tanta necessidade de travar a crescente degradação do tecido económico do país.
- Olhem meninas, vim agora da recepção e, imaginem só, que está a passar na televisão da pensão um filme sobre um fantasma que apareceu numa estação de serviço do Ohio, Estados Unidos.
- Cruz credo D. Rosalinda, que até me estou a arrepiar toda só de pensar nessas almas penadas.
- Olha Luísa, se calhar também eles necessitam de combustível para se deslocar.
- Não vá mais longe D. Rosalinda, eu tinha um amigo que quando estava mais divertido, dizia que “só lhe apetecia beber gasolina e acelerar”.
- Então deve ter sido por isso que aquele fantasma escolheu aquele local para se revelar Cristina, mas como não tem recipiente, anda por lá a a ver se, pelo menos, consegue sentir a volatilidade dos gases.
I

domingo, 25 de Novembro de 2007

BENFICA, PORTO E OUTRAS EMERGÊNCIAS

- Bom dia menina Alice.
- Bom dia Mário.
- Então menina Alice, correu bem o encontro de coros?
- Não correu mal Mário.
- Pelo menos, a julgar pela quantidade de carros que se encontravam no Terreiro, parece que tiveram uma plateia bem composta. E, além disso, já o salão estava aberto, com as luzes já acesas, tudo arranjadinho, o que só prova que em Penacova, o jazz não é apadrinhado pela classe política, embora se compromentam a fazer, atabalhoadamente, a sua divulgação.
- Sim, é verdade Mário mas, além disso tudo, as camisolas que o muicípio ofereceu desta vez, eram apenas camisolas e não vestidos, como no ano passado.
- Ainda bem que assim foi.
- Não foste lá Mário?
- Não menina Alice, preferi ficar aqui na pensão a ver o Benfica, ou melhor, a Académica, aquele grande clube.
Bom dia a todos, disse o Paulo quando entrou.
- Bom dia. - respondemos
- Então Mário, o Benfica lá ganhou à Académica!!!
- Parece que sim meu caro, para muita pena minha.
- Deixa lá que o Porto vai ganhar ao Setúbal.
- A ver vamos, a ver vamos.
- Então Paulo, que mandas?
- Olha, pode ser um café curto e um pastel de Lorvão.
- E novidades?
- Olha, fiquei contente por saber que o Paquistão foi suspenso da Commonwealth até regressar à democracia.
- Então, isso é fácil, agora o Musharraf vai chegar ao parlamento paquistanês e diz: "Meus amigos, a partir de agora, somos uma democracia" e ficam satisfeitas as exigências daquela comunidade e o Paquistão vê assim, pela segunda vez, a sua suspensão levantada.
- Sim, é mais ou menos assim que funciona mas, o que a Commonwealth devia ter logo feito, era impedir, ou pelo mesmo manifestar o seu repúdio, quando o Musharraf decidiu alterar as regras da democracia para se eternizar no poder decretando para isso o estado de emergência.
- E por cá meu caro amigo?
- Olha Mário, por cá achei interessante a entrevista dada ao Expresso, pelo Inspector-Geral da Administração Interna, Clemente Lima.
- Éh, eu também achei interessante, interessante e preocupante.
- Ainda há muita coisa que aqueles que são pagos para zelar pela nossa segurança têm que fazer para que nos inspirem confiança
- Olha Paulo, tenho um amigo que nunca foi à tropa, nunca disparou uma arma de fogo e, quando acabou o curso de polícia, mandaram-no para a rua fazer patrulha com uma arma à cinta com a qual apenas tinha dado tiro duas vezes. Diz-me só se esse agente da autoridade, estava em condições de defender alguém ou de se defender a ele?
- Não se admite que as coisas sejam encaradas assim com tanta ligeireza. Depois é o que se vê, mortes acidentais, tanto de um lado como do outro, excesso de autoridade com as tendências violentas que lhe estão adstritas e, por fim, o excesso de corporativismo que impede o apuramento de responsabilidades.
- É muito complicado. Então e aquele sujeito que estava aqui na quinta-feira a falar contigo acerca do caso Esmeralda?
- Aquele que reflectiu duas vezes sobre o assunto?
- Sim Mário esse, por acaso achei interessantes as posições dele acerca do assunto. Revelou-se uma pessoa esclarecida e com opinião formada, pena é que não tenha dito quem era.
- Pois é Paulo, às vezes é assim, aparecem, conversam um pouco e depois vão-se embora sem sequer dizer quem são.
- Pode ser que volte.
- Pode ser que sim, é sempre agradável ter um interlocutor tão esclarecido.
- E talvez até se identifique.
- Isso era óptimo Paulo, isso era óptimo.
- Olha Mário, que interessante, só agora reparo que na televisão da pensão está a passar mais uma daquelas iniciativas levadas a cabo pela Greenpeace para, mais uma vez, alertar o mundo para o problema do aquecimento global.
- Sim Paulo, é mais uma tentativa das muitas que aquele organismo leva a cabo para alertar ou sensibilizar, os poderosos.
- Sabes Mário, eu acho que os poderosos não são sensíveis a esse ponto, infelizmente.
I

quinta-feira, 22 de Novembro de 2007

CANTORIA DA LEGALIDADE

- Avó, posso fazer-te uma pergunta?
- Claro que sim minha filha.
- Achas que a menina Esmeralda vai ficar bem o pai biológico?
- Bom minha querida, as crianças devem estar sempre com os pais, biológicos ou não, desde que eles as eduquem, não as maltratem e nem delas abusem.
- Então, nesse caso posso concluir que concordas com a decisão do tribunal?
- Se estiver de acordo com a legalidade, sim, concordo.
- É interessante essa coisa da legalidade... Quer dizer então,
que os sentimentos das pessoas, aos olhos da Lei, pouco importam, não é?
- Olha minha querida, eu não sou jurista, mas acho que, se todas as pessoas tivessem a oportunidade de considerar de sua propriedade um ser humano que, biologicamente, sabem não lhes pertencer, creio que estaria aberto um precedente.
- Desse modo, o caso da pequena Esmeralda pode servir de exemplo?
- Sim, talvez para prevenir situações futuras.
- Olha avó, queria perguntar-te outra coisa.
- Hoje estás muito perguntadeira, o que queres saber?
- Achas que os meus pais vêm cá este Natal?
- Olha minha filha, espero que no Natal e no Fim-de-Ano.
- Estou com muitas saudades deles, dos carinhos do papá e da mamã....
- Está descansada que virão, aliás, como sempre fazem.
- Espero por eles a toda a hora.
- Também eu minha filha, também eu.....e por falar em hora, não achas que já devias estar na cama?
- Já é tarde, tens razão avó, mas ainda tenho que ir treinar um pouco a minha voz.
- Oh filha, olha que amanhã tens que te levantar cedo e, além disso, sabes como fica a Luísa quando tu a acordas com as tuas cantorias.
- Mas avó, a actuação é no Sábado às 21 horas e, começo a ficar nervosa.
- Não te preocupes com isso porque, até lá, ainda vais ter muito tempo, além disso estás a ficar constipada e tens que ir para a cama logo depois de beberes o leite quente com mel.
- Tens razão avó, acho que vou mas é descansar.
- Mas olha, se cantares, canta só para ti.
- Está bem avó, um beijo.
I

quarta-feira, 21 de Novembro de 2007

DIPLOMACIAS

Quando pernoito na Pensão Viseu, dou comigo a pensar na actualidade, longe do ruído mediático que tanta poluição faz.
Este sossego do quarto explica-me quão hábil tem sido a diplomacia lusitana a lidar com o senhor das venezuelas, esse grande democrata que, finado Fidel Castro, será o novo líder do mundo livre e justo.
Fizémos acordos para todos os gostos, com os 400 mil emigrantes e o escuro petróleo a patrocinarem as assinaturas e a intervalarem as batatas com bacalhau.
Os comentaristas/moralistas do regime trataram de excomungar o senhor Chávez e o Governo português, numa atroz falta de sentido patriótico, ainda as criaturas não tinham parido tão importantes acordos.
O interesse da nação portuguesa sobrepõe-se, obviamente, à pequena e reles trica diplomática, aos meandros semi-explicados do exercício do poder por parte do presidente Chávez. Isso é secundário por cá e genuinamente doméstico do lado de lá do Atlântico. Do lado de cá, tratamos dos nossos problemas com a sageza costumeira e com a visão profética e salvadora que este governo vem demonstrando cristalinamente de há dois anos e meio para cá.
Tudo o resto é espuma e sujidade que esta chuva e uma vassoura devolverão ao local apropriado!

terça-feira, 20 de Novembro de 2007

CHEIAS REAIS

I
- Afinal D. Rosalinda, a chuva não fez muitos estragos para a nossa zona.
- Pois não Mário, mas no Alentejo o mau tempo ainda provocou umas quantas inundações.
- Em todo o caso D. Rosalinda, o verdadeiro Inverno ainda não começou, embora as autoridades alertem para a possível ocorrência de situações adversas até amanhã.
- É perfeitamente natural que isso venha a acontecer mas, mesmo que aconteça, nunca se irá comparar aos rigorosos Invernos que ocorriam quando eu era mais nova.
- A Srª. lembra-se como eram esses Invernos?
- Óh se lembro, era tanta a chuva que as margens do Mondego invadiam as ínsuas quase entrando pela porta das casas dentro.
- Por falar nisso D. Rosalinda, ainda há pouco, quando estava a dar uma olhada nas minhas fotografias antigas, peguei numa que retratava precisamente essa época. Nela, a "Barca do Concelho" aparece rodeada de água como se duma ilha se tratasse.
- Deixe ver se me recordo Mário.
Pegando na foto, a D. Rosalinda quase chorou, não pela fotografia em si, mas pelas memórias que lhe traziam aquela imagem.
- Olha Mário, neste tempo, apenas as barcas conseguiam garantir o transporte das pessoas, eram épocas em que a pobreza ainda era uma constante, principalmente junto às zonas ribeirinhas. Hoje, com a Barragem da Aguieira tudo mudou, as cheias já não nos afectam tanto, os caudais são controlados e, claro, as pessoas andam mais descansadas.
- Mais descansadas diz a Srª., olhe que quando os técnicos fazem estimativas, muitas das vezes são apanhados desprevenidos porque não contam com a imprevisibilidade da natureza, não conseguindo por isso evitar o pior.
- Tens razão Mário, basta recordarmos o que aconteceu no Baixo Mondego em 2001 para percebermos que a natureza, às vezes, nos prega umas partidas, revelando toda a sua força e capacidade destrutiva.
- E o que é que acha relativamente à fotografia?
- Queres a minha opinião?
- Claro que sim D. Rosalinda.
- Acho que fica muito bem ao lado das outras que, na pensão, mostram as paisagens e os locais de interesse de Penacova.
- Também achei que sim mas primeiro pretendia ouvir da sua boca essa sugestão e, nesse caso vou já tratar de a emoldurar para depois a pendurar.
I

domingo, 18 de Novembro de 2007

SÓ MESMO UM PADRE

- Parece que afinal vamos ter chuva amanhã.
- Finalmente vamos poder poupar um pouco mais de água D. Rosalinda.
- Olhe Mário, eu não sei onde é que isto ia parar se não chovesse por estes dias.
- Ainda não é certo mas, a julgar pelas previsões, as chuvas vão ser persistentes e fortes as rajadas de vento.
- Tomara que não venham estragar mais do que aquilo que possam vir a arranjar, pois estas chuvas tardias tendem a levar tudo por diante.
- Bem D. Rosalinda, os solos estão secos e nus e, quando assim é, as primeiras chuvadas arrastam as terras mais soltas e, em alguns casos, causam graves derrocadas e inundações.
- Pode ser que não Mário mas, à conta disso, ainda vou rezar o terço, não vá o diabo tecê-las.
Entretanto, na sala de refeições já a Cristina ultimava as mesas para o jantar. Bonitos candelabros, os melhores talheres e a melhor louça. Os vinhos já se encontravam a respirar como se esperassem a hora certa para acompanhar o cherne no forno com batatas aloiradas e uns grelinhos de nabo ou o cabrito assado no forno à padeiro que a Susana já tinha pronto a servir e cujo cheiro nos fazia crescer água na boca.
- Então Cristina esperamos por alguém importante para o jantar?
- Nem por isso Mário, se bem que hoje à tarde, dois sujeitos que não se quiseram identificar, perguntaram se era possível reservar uma mesa para o jantar.
- E não se identificaram?
- Tiveram que o fazer pois, se assim não fosse, não era possível fazer a reserva.
- E disseram os nomes?
- A mesa ficou em nome de Paulo Durão e fizeram questão de frisar que a queriam num espaço reservado da sala de jantar.
- Paulo Durão.....esse nome não me diz nada, se bem que o último me é familiar.
Se mais depressa perguntasse, mais depressa obtinha a resposta. Entraram na pensão dois sujeitos trajando com gabardina, do estilo daquelas com que os detectives se vestem. De imediato nelas peguei e com, a mesma rapidez, fui colocá-las no vestiário da pensão, cuja porta directa fica mesmo ao pé da recepção. Para meu espanto, constatei que o nome que deram à Cristina, aquando da reserva da mesa para o jantar correspondia ao primeiro e último nome de cada um deles.
- Boa noite. - disseram eles quando chegaram à recepção
- Boa noite. - respondi educadamente
- Vínhamos para jantar - disse o que tinha menos cabelo e que procurava com o pouco que lhe restava, cobrir a cabeça toda.
- Reservaram mesa?
- Sim, reservámos.
- Então façam o favor de me acompanhar.
- Olhe, se não for muito incómodo....
- Diga, diga.
- ...Se não for muito incómodo gostaria de lhe perguntar se por acaso não têm por aí uma fotocopiadora? - perguntou o que se chamava Paulo
- Fotocopiadora, scanner, fax, internet, tudo que os senhores desejarem.
- Óptimo. - respondeu alegremente.
- Só mais uma questão. - perguntou o que se chamava Durão
- Faça o favor de dizer.
- Por acaso seria muito descabido perguntar-lhe se era possível falar com um padre?
- Com um padre???
- Sim, com um padre!!!- Mas para que quer um padre a estas horas???
- Olhe meu caro, necessito de alguém que me ouça e me perdoe. - respondeu o Durão
- Mas porquê???
- Porque, não há muitos anos, fiz uma má interpretação de uma informação que me deram e, com essa interpretação, contribui para instalar o caos numa região do globo bastante cobiçada e para que milhares de pessoas fossem mortas e ainda possam vir a morrer.
- Pois, compreendo que deverá estar com um grande peso na consciência. E já agora, o seu amigo não quererá aproveitar a vinda do padre para, também ele, se possa redimir de alguns pecados que tenha cometido?
- Não, para ele não é preciso.
- Como assim? – perguntei admirado
- Não é preciso porque ele (ainda) goza de imunidade parlamentar.
- Percebi muito bem, até bem demais, vou já tratar de lhe arranjar um padre e, se calhar, também um sacristão.
I

COLABORADORES PRECISAM-SE

No âmbito da inauguração, ontem no Porto, da maior árvore de natal da Europa, foi divulgado o seguinte aviso:
Por motivos relacionados com a forte pressão para que o Natal vá sendo gradualmente antecipado, até (idealmente) coincidir com a festa de aniversário de cada português, o chefe de gabinete de um dos ministérios do governo da Lapónia, informa todos os interessados (carteiros, preparadores de embrulhos, renas, duendes, anjos, fadas e indiferenciados) que se encontram abertas inscrições para auxiliares do Pai Natal, pelo período de 10 dias úteis a contra da publicação do presente aviso.
Tais candidatutas deverão ser enviadas, por carta registada com aviso de recepção, para o gabinete de recursos humanos do ministério dos assuntos lucrativos, até ao próximo dia 30 do corrente mês, sob pena de exclusão.
I

sábado, 17 de Novembro de 2007

NÃO HÁ MISÉRIA QUE NÃO DÊ EM FARTURA

- São cansativas estas idas a Coimbra ao hiper-mercado, não são D. Rosalinda?
- Podes crer que sim Luísa, que o digam os meus joanetes.
- Mas, segundo sei, vamos ter para breve dois novos supermercados para abastecer Penacova.
- Ai sim Luísa, onde?
- Olhe D. Rosalinda, um vai abrir na Espinheira, junto ao nó do IP 3, e outro vai começar a ser construído na "Quinta do Peixes", junto à zona escolar de Penacova.
- Que maravilha Luísa, assim já não temos necessidade de ir a Coimbra às compras.
- Às compras de produtos alimentares claro está, porque há outras compras que não podem deixar de ser feitas lá.
- Logicamente Luísa, até porque gosto de ir a Coimbra comprar vestuário e calçado, além disso a menina Alice adora ir para aqueles lados de Taveiro, ao Retail Park porque, diz ela e muito bem, há mais variedade e os preços são mais acessíveis.
- E tem razão D. Rosalinda, ante de comprar devemos comparar preços e, em Penacova, embora já existam vários estabelecimentos comerciais, os preços não variam muito entre uns e outros, já para não falar no risco que se corre quando pensamos que comprámos alguma coisa única e, quando saímos da loja, parece que pertencemos a uma irmandade qualquer, tal é a quantidade de pessoas que pensa que comprou uma coisa única e original.
- É um dos problemas dos meios pequenos, por isso é que temos que, inexoravelmente, continuar a ir às compras a Coimbra.
- E aquele terramoto que assolou Bangladesh na passada quinta-feira?
- Horrível Luísa, só de imaginar o sofrimento constante de todas aquelas pessoas.
- O mundo está para acabar D. Rosalinda.
- Pelo menos para aquelas 1723 pessoas que, até agora, já perderam a vida, já acabou.

sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

VALIA MAIS TRINCAR A LÍNGUA

- Não são todos os dias que se fazem 85 anos, pois não Cristina?
- Pois não Mário, e eu que apenas lhe dava uns 70 e poucos.
- Eu também nunca imaginei que fosse assim tão "usado", sim porque velhos são os trapos.
- Está com uma carinha laroca sim senhor e, além disso, escreve que é uma maravilha.
- Boa noite Susana, ainda bem que vieste, também gostas de Saramago?
- Olha Mário, as leituras para mim resumem-se a assuntos relacionados com comida e a sua confecção porém, confesso que José Saramago é uma figura incontornável da nossa história actual, com inúmeros reconhecimentos literários, entre os quais, aquele que lhe deu mais projecção mundial.
- O Nobel da Literatura em 1998. - disse a menina Alice
- E não só - disse a Susana -, também ganhou o Prémio Camões em 1995. Assim, movida pela curiosidade, porque quem é alvo de tanto reconhecimento tem que ser muito bom, decidi dar uma olhadela em alguma das suas obras.
- Mas olha Susana - disse eu -, este dia significa muito para a vida daquele senhor e também para todo o povo português, não só pelo facto dele próprio ser nosso compatriota, mas também por contribuir para a divulgação e engrandecimento da língua portuguesa e do seu povo, contudo, algo, ou melhor, alguém o manchou com declarações quase ofensivas à língua de Camões.
- Não percebo onde queres chegar? - disse a Susana
- Eu vou explicar melhor. Um dia, como o de hoje, com tanto significado para a língua portuguesa ficou manchado com as declarações do presidente Bush, a propósito dos cortes orçamentais que ele considera serem necessários fazer.
- E então Mário? - perguntou a menina Alice
- Vai daí, aquele presidente vetou uma proposta orçamental apresentada pelo partido democrata, alegando que, entre outras coisas igualmente supérfluas, um programa de português como segunda língua era perfeitamente dispensável. - expliquei
- Quer dizer então, que para aquele Senhor, tudo que cheire a cultura é de dispensar? - pergunto indignada a menida Alice
- Exactamente - disse eu -, para aquele indivíduo, tudo o que não seja Iraque e Irão, não deve ser tido em consideração.

DEONTOLOGIAS DE 2ª TEMPORADA

Eram quase horas de fechar. O Paulo e eu estávamos a saborear o último trago de whisky que ainda restava no copo. Para trás, ficou a conversa sobre o (novo) braço-de-ferro que envolve a ordem dos médicos e o ministro da saúde.
Os dois tínhamos os olhos postos na televisão, a ver a "2ª temporada" da série "TheLword".
- Simpáticas as raparigas!!! - exclamou o Paulo
- Simpáticas e jeitosas. É pena não gostarem de homens. - respondi
- Porquê? - perguntou o Paulo -. Se por acaso gostassem de homens, achas que vinham ter aqui à pensão?
- Claro que não - respondi -, faz-me é um bocado de confusão.
- Olha...não te rales com isso e acaba de beber o pouco que já tens no copo, para irmos embora.
- Tens razão, mas já agora espera para vermos até ao fim. - disse eu
- Bom, nesse caso acompanho-te noutra bebida, porque parece que vai demorar.
I

terça-feira, 13 de Novembro de 2007

OS CAPRICHOS DO MINISTRO

O Luís acabava de chegar à pensão, vindo acompanhado pelo António. Ambos são funcionários públicos e, desde que provaram os magníficos pratos confeccionados pela Susana e depois de saberem que a Cristina era especialista em vinhos, tornaram-se clientes habituais da pensão. Almoçavam, quando calhava, jantavam e, de quando em vez até pernoitavam. Pelo semblante carregado que traziam, reparei que não vinham para muitas falas e, como bom recepcionista que pretendo todos os dias ser, apenas lhes dei as boas-noites sem esperar alguma resposta, que inesperadamente acabou por vir. Educadamente, acompanhei-os à mesa onde habitualmente gostam de estar, quer seja ao almoço ou ao jantar.
- Inadmissível Luís, uma coisa nunca vista!!!!
- Tens toda a razão António, e o mais caricato de tudo é que isto só acontece normalmente naqueles países africanos, com muitas riquezas no subsolo e com níveis de desenvolvimento e educação muito baixos. Nesses países é que os governantes, enquanto exigem ao povo que representam, contenção nas despesas, maior flexibilização das regras laborais, com a consequente precariedade do vínculo laboral e lhes dão cada vez mais piores remunerações, exibem os mais recentes modelos, quer de automóveis, quer de "gadgets", quer de fatos feitos por costureiros famosos, como se de uma demonstração de uma passarele se tratasse.
- E o mais ridículo e insuportável de tudo, é tratar-se de um governante cujo ministério que tutela é um dos que menos condições oferece, tanto aos funcionários que para ele trabalham, como aos contribuintes que, por obrigação, têm que frequentar os serviços públicos do seu ministério.
- Não vás mais longe António, no tribunal da nossa terra, os funcionários que lá trabalham, de tão pouco e miserável espaço que têm, estão em cima uns dos outros e movem-se com extrema dificuldade, tal é a confusão em que aquilo se encontra. Tu por acaso achas que uma qualquer empresa privada conseguiria o alvará necessário para laborar, se por acaso a sua sede tivesse aquelas condições? Nunca na vida!!!
- E anda um ministro desses num automóvel topo de gama, quando o contribuinte que lhe paga o ordenado a fim do mês, tem que andar a pé ou porque não tem dinheiro para o combustível, ou porque não tem dinheiro para o bilhete do comboio que, ao que sei, vai aumentar mais 30 cêntimos.
- Mas Luís, o edifício onde está instalado o Tribunal de Penacova, nem sequer pertence ao ministério da justiça.
- Áh não, então a quem pertence?
- À autarquia, claro!!!
- Então nesse caso, também tem "culpa no cartório".
- São tão bons uns como outros e, quando o assunto não interessa, sacodem a água do capote e saiem, ou pensam que saiem, ilesos da situação.
- Mas António, também está para breve o fecho do Tribunal em Penacova, não está?
- Claro que está Luís, mas o que mais me espanta, é que ninguém diz nada, ninguém apresenta soluções ou alternativas, admira-me, por exemplo, um concelho como o de Vila Nova de Poiares, com uma área menor à da freguesia do Lorvão, consegue em cerca de 5 anos, instalar na sede do concelho, um julgado de paz e uma esquadra de polícia municipal!!!
- Sabes porquê António, porque o Jaime Soares não se chama Maurício e, ao contrário do nosso, tem feito por aquele concelho o que este nunca faria, nem que estivesse lá a vida toda.
- Tens razão Luís, o concelho de Vila Nova de Poiares tem uma pujança que o de Penacova nem daqui a vinte anos consegue alcançar.
- E sabes porquê António, porque os que governam em Poiares são de lá e gostam de lá estar, fazendo daquele concelho um sítio agradável, enquanto os daqui são uns palermas, sempre ao olhar para o relógio a ver se chegam as horas para se irem embora.
- Podiam era ir-se embora definitivamente em vez de andarem para aí a tentar colocar piso sintético nos campos de futebol, como se isso fosse sinónimo de progresso.
- Mas não vão porque os penacovenses são uns tótós, se lhe derem umas concertinas, uma castanhas e uns pipos de vinho para se entreterem, não pensam em mais nada.
- Olha Luís, quando vim trabalhar para Penacova, há já vinte anos, gostei muito da terra quando cá cheguei. Muito pacata, como belas paisagens e gente simpática. Passados esses anos todos, continua a ser muito pacata, a ter belas paisagens e as pessoas continuam a ser simpáticas.
- Sabes António, é para não te desabituares.

ALIVIANDO A ESPERA

A menina Alice já vinha pedindo há uns tempos, que a D. Rosalinda providenciasse pela colocação de um televisor na recepção da pensão, para que os hóspedes não desesperassem enquanto esperavam. Sabia perfeitamente quão dura era a espera daqueles que aguardavam a sua vez, fosse para o restaurante, fosse para o S.P.A. da pensão onde, neste caso, teriam ainda que aguardar a realização de um check-up, o que naturalmente causava alguma irritação. Além disso, as crianças também gostavam de ter ali algo que as mantivesse, por momentos, distraídas, coisa que os pais muito agradeciam.
- O que é que acha Mário?
- Acho que é uma boa ideia D. Rosalinda. Uma televisão na recepção da pensão pode ser útil para quem gosta de estar informado, enquanto espera de ser recebido. Além disso também existe a possibilidade de mostrar vídeos relacionados com a nossa terra e as suas riquezas e com os eventos que nela possam vir a ocorrer, apesar de não serem muito frequentes.
- Também acho que sim. A minha neta tem muito jeito para o negócio, não acha Mário?
- Tenho a certeza que sim, aliás está-lhe no sangue e, como diz o ditado, "filha de peixe sabe nadar".
- Além disso Mário, agora que me lembro, também pode ser muito útil para informar os hóspedes das condições de alojamento e das actividades que a pensão pretende levar por diante durante o ano.
- Naturalmente que sim D. Rosalinda, tem inúmeras vantagens e, quando achar que não resulta, basta retirá-la do local em que se encontra.
- Exactamente Mário.
Entretanto chega o João, meu companheiro de há anos, sempre com disposição para falar um pouco de política e não só de política claro, mas principalmente acerca dela.
- Já reparaste na nova televisão da pensão?
- Sim Mário, já reparei, fica muito bem no sítio onde está.
- Foi ideia da menina Alice, disse à avó que os hóspedes necessitavam de algo que os distraísse enquanto esperavam e pronto, aí está!!!
- Fez muito bem. Agora reparo que estão a mostrar as imagens do puxão de orelhas que o rei de espanhol deu ao presidente venezuelano, engraçado como ainda existe coragem para manifestar (publicamente) algum descontentamento.
- Pois é Mário, independentemente de ter existido uma relação quase umbilical, ou melhor, colonial, entre uns e outros, não deixa de ser curioso que aquele ímpeto paternalista falou mais alto.
- Acerca disso João, li um texto publicado num blog que habitualmente visito e o retrato que é feito de Chávez não engana. O homem é mesmo "atravessado de gineto" e com aquele comportamento, só empurra o povo para o isolamento internacional e para o abismo do socialismo cubano que todos sabemos o que é, e no que deu.
- Mas também não é muito correcto da parte de sua majestade, repreender um público um chefe de estado.
- Claro que não João, mas talvez o chefe de estado a que te referes, não esteja assim tão preparado para o ser, tendo apenas do lado dele uma das maiores reservas petrolíferas do mundo e uma (grande) parte do povo habituado a viver com mão-de-ferro e na miséria.
- Mas, convenhamos que com o eminente desaparecimento de Fidel, o homem tem necessidade de se afirmar como o novo rosto do comunismo na América Latina e, nada melhor do que o fazer à custa de atitudes descabidas e excessivamente populistas.

domingo, 11 de Novembro de 2007

TARDES CONSOLADAS

Sempre que passo aqui pela Pensão, converso com a menina Alice.
É uma jovem que por norma me esclarece algumas dúvidas que tenho, mesmo que isso possa parecer estranho.
Há dias, numa conversa com ela, perguntei-lhe:
- Alice, vais ao magusto no Largo do Terreiro, no próximo domingo?
Alice foi rápida e certeira...
- Eu não! Deus me livre. Aquilo é para os velhotes!
Gelei.
Ainda assim, arrisquei tentar fazer-lhe ver as coisas de outro prisma.
- Repara, Alice, acho que não tens razão. Não está escrito em lado nenhum que "aquilo é para velhotes". O magusto é um espaço de convívio, inserido numa "Feira do Mel" e que já é uma tradição aqui em Penacova. E é triste que uma jovem como tu esteja já a atribuir rótulos a um acontecimento que, por muito criticável que possa ser, é para respeitar. Há muitas pessoas que esperam todo o ano por este dia, não só para a feira do mel, como para comer umas castanhas, conviver, enfarruscar a cara e beber uma água-pé!... E já agora, o que vais ficar a fazer?
Alice demorou uns segundos a arrumar a sua cabeça que, por momentos, deu a ideia de ter sido algo desarrumada com o que lhe disse.
- Olhe, vou ficar em casa a jogar consola e depois vejo um filme na televisão!
Alice desarmou-me. Não que achasse o seu plano para a tarde uma glória, não! Acho até que é uma prática comum aos jovens que vivem agarrados às consolas, não convivem, não se entusiasmam e se fecham num pequeno círculo existencial, dentro das divisões de uma casa, parados, pouco reflexivos, enfim...
Mas se calhar sou eu a exagerar na análise e isto não passa de um sinal destes tempos, sendo que me apresento, assim, como um bota de elástico e sem piada nenhuma!

sábado, 10 de Novembro de 2007

CASTANHAS AO DESAFIO

I
A Luísa já andava numa lufa-lufa terrível. Subia e descia as escadas da pensão como uma velocidade tal que eu julguei tratar-se de alguma urgência.
- Então Luísa, porque corres?
- Olha Mário, porque tenho que ter tudo pronto até às 11 horas.
- Mas vais a algum lado?
- Claro Mário, tenho que ir às compras com a D. Rosalinda, buscar as castanhas ao Chainho, dois centos de pastéis a Lorvão e outros dois centos de Nevadas à Ronqueira.
- Então, mas isso é óptimo, estará relacionado com o magusto de amanhã.
- Sim Mário, deve estar porque, além do magusto, também vêm os representantes da Casa do Concelho de Penacova, em Lisboa e sabes como a D. Rosalinda é, faz questão de lhes oferecer o almoço...
- A preços módicos, claro.
- Sim, como é óbvio, e também gosta de lhes oferecer a doçaria característica do nosso concelho.
- Pois, a ser assim, vocês as duas têm muito que fazer.
- E sabes que mais Mário, agora com carta de condução, sou o braço direito da D. Rosalinda, que nada faz sem que eu ande sempre atrás dela.
- Pois fazes muito bem Luísa, porque a D. Rosalinda é boa senhora e nós temos que lhe estar muito agradecidos.
- Tens razão Mário e tu bem sabes que, enquanto vivermos, temos para como ela uma grande dívida, por isso, tudo o que ela quiser, será por mim satisfeito com todo o prazer.
- E jeropiga, sabes de alguma coisa Luísa?
- Ceio que a Cristina já está a tratar disso.
- Claro que está, e não só da jeropiga como também da água-pé. Que bem que sabe uma boa jeropiga e um (ou dois) copo de água-pé quando estamos a comer castanhas.
- E além disso Mário, ainda vamos ter o Ruizito e as Raízes do Minho, banda que o acompanha.
- Então vai ser um festa engraçada, com aquele rapaz a puxar pela assistência para cantarem com ele à desgarrada.
- Estou convencida que sim, até o meu António cá vai estar. Ele adora estas coisas tradicionais.
- Pronto então Luísa, vai lá com a D. Rosalinda às compras e façam boa viagem, que eu vou tratando das coisas por aqui.
I

sexta-feira, 9 de Novembro de 2007

PINGO NO NARIZ

A D. Rosalinda regressava do jardim com o cesto de jardinagem, que habitualmente leva quando para lá vai, cheio de bonitas rosas. Trazia um pingo no nariz, sinónimo de que estava a ficar constipada.
- Então D. Rosalinda, parece que está a chocar alguma?
- Acho que sim Mário, este tempo mais fresco apanhou-nos desprevenidos e de um momento para o outro, ficamos com arrepios de frio pelo corpo todo.
- Mas olhe que o mau tempo está a afectar grande parte da Europa, pelo menos os meios de comunicação deram notícia de que se esperam para hoje grandes inundações devido a uma forte tempestade no Mar do Norte, que atingiu também a Alemanha e a Escandinávia.
- Também ouvi qualquer coisa acerca disso. O clima está todo mudado e sabe quem eu culpo Mário, aqueles americanos que se recusam a assinar o Protocolo de Quioto.
- Tem toda a razão D. Rosalinda, são eles e outros que, tal como eles, sacrificam o saúde do planeta só para não colocarem em risco a sua riqueza.
Nisto, entra o Daniel, homem que já conhecem por ser quem abastece de gás a pensão. Também ele entrou na conversa, manifestando a sua preocupação com estas alterações de clima.
- E nessas inundações ninguém se magoou ou teve necessidade se ser evacuado por via aérea? - perguntou
- Não Daniel, creio que não. - respondi
- Ainda bem que não porque, caso isso tivesse acontecido em águas territoriais portuguesas, o evacuado teria que preparar uma boa quantia para pagar ao Estado.
- Como assim Daniel? - perguntou a D. Rosalinda.
- Então a Srª. não quer saber que a Força Aérea Portuguesa apresentou uma factura de 13.000 euros a um indivíduo que, em Outubro de 2002, foi por eles resgatado de alto mar.
- Mas isso é ridículo!!! - exclamou a D. Rosalinda
- É ridículo mas aconteceu. - disse o Daniel
- Talvez por temerem o não pagamento da operação de salvamento, é que não fizeram atempadamente a evacuação dos tripulantes da embarcação "Luz do Sameiro". - conclui
- Ou então, trata-se de mais uma forma que o governo de Sócrates arranjou para reduzir o déficit. - disse a D. Rosalinda.
- Todos os dias há-de aparecer alguma coisa que nos faça suspeitar das "boas intenções" dos nossos governantes.
- Tens razão Daniel - respondi -, ainda ontem, por exemplo, o reitor da Universidade de Lisboa, veio a terreiro denunciar uma situação em que o governo português dá mais dinheiro às universidades estrangeiras, do que a algumas portuguesas.
- E depois andam sempre a aumentar as propinas, a dizer que as universidades têm que se transformar em fundações e que o Estado não pode andar a subsidiar constantemente os estabelecimentos de ensino. - disse a D. Rosalinda.
- Este país caminha não sei para onde, com os governantes a exigirem aos portugueses cada vez mais contenção e as coisas a aumentarem cada vez mais, começando pelo petróleo e acabando...
- No gás Daniel.
- Exacto D. Rosalinda, no gás.

quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

À MESA COM GREVE

- Não me digas que, desta vez, não vais aderir à greve geral do dia 30?
- Ainda não sei António, provavelmente nada vai adiantar.
- Pois é Luís, a pensar assim é que nunca vai resultar.
- Mas ouve lá António, tu não achas que um único dia de greve geral é pouco?
- Bom, não acho que seja muito, mas é necessário transmitir a mensagem de união e descontentamento ao governo.
- Sim, podes ter muita razão, mas união e descontentamento sem resultados práticos, não levam a lado algum. Se fosse uma greve que paralisasse os serviços durante uma semana, aí sim, era vê-los a vir comer à mão dos funcionários públicos.
- Pois é Luís, mas isso representava um arrombo no orçamento de quem a ela aderisse, e tu sabes tão bem como eu que uma semana sem receber é muito dinheiro.
- Claro que sim António, mas menos do que isso não assusta nem este, nem outro governo que seja.
- Ainda hoje o meu pai diz que quando, há uns anos, os funcionários das finanças decidiram fazer uma greve de 15 dias, o ministro da tutela veio logo com falinhas mansas perguntar-lhes afinal que exigências eram as deles.
- Naturalmente que só assim é que resultaria, mas hoje em dia, nem os sindicatos fazem exigências tão ousadas.
- Olha amigo Luís, vamos é terminar este magnífico cabrito assado que a Susana confeccionou, antes que arrefeça.
- Tens razão António, mas não sem antes pedir à Cristina que traga mais uma garrafa deste excelente tinto da "Herdade da Comporta".

MENINO MAROTO

I
«O Irão entrou na fase da escala industrial do combustível nuclear e o caminho para o progresso da nação iraniana é irreversível», lia o Paulo sentado ao balcão do bar da pensão.
- Pois, parece que sim, parece que o presidente do Irão está mesmo obcecado com o nuclear.
- Na verdade Mário, penso que nem sequer a ameaça de sanções, por parte da comunidade internacional, fazem recuar Mahmud Ahmadinejad.
- Mas Paulo, o homem insiste em dizer que é um programa pacífico e que apenas pretende criar alternativas energéticas para o país.
- Talvez ele até tenha razão naquilo que diz Mário mas, por exemplo, o estado de Israel não pensa dessa maneira e, segundo li há dias num semanário nacional, está mesmo disposto a atacar aqueles que considera os seus inimigos mais ameaçadores.
- Eu até li, que a força aérea israelita já está a fazer treinos intensos para se preparar para um (eventual) ataque ao Irão.
- Quer então dizer que poderá estar por um fio essa ofensiva.
- Tudo indica que sim Paulo e, se isso acontecer eu nem quero, ou melhor, não consigo imaginar as consequências que trará para o mundo esse confronto e penso muitas vezes se haverá potências que se irão juntar a um lado e a outro ou se, muito simplesmente, os beligerantes não ficarão sozinhos a lutar um contra o outro.
- Bem Mário, a ter que ser, que seja assim. Que eles se entendam uns com os outros e que limitem os danos àquela zona do globo, já de si tão fragilizada.
- Pois é Paulo, mas tu bem sabes que as repercussões desse (possível) confronto, se vão estender a todo o mundo e, como é bom de ver, quem vai sofrer vão ser sempre os mesmos.
- Claro, os pobres, as crianças, os idosos e todos os que, sem nada terem a ver com isso, vão levar por tabela.
- Como sempre meu caro amigo, como sempre.

terça-feira, 6 de Novembro de 2007

BARRICAS OLEOSAS

A Susana veio dizer-me à recepção que, caso aparecesse alguém para entregar umas barricas de plástico, a avisasse.
- Barricas como?
- Barricas grandes e cinzentas.
- Mas para que é que tu queres isso?
- Então não sabes que a nossa autarquia assinou ontem um protocolo com uma empresa que transforma óleos alimentares usados em biodiesel e agora essa empresa anda a distribuir os recipientes para, no nosso caso, colocarmos o óleo que utilizamos na pensão.
- Mas a D. Rosalinda sabe disso?
- Claro que sim Mário, até foi ela que pediu ao engº. Pedro Marceneiro que lhe fosse entregue, ainda hoje, uma ou duas daquelas barricas.
- Engº. Pedro Carpinteiro, rapariga!!!
- Ou isso, mas não interessa o nome do homem, o que interessa é que ele está muito entusiasmado com a ideia e vai oferecer barricas a todos os estabelecimentos de restauração existentes no nosso concelho.
- Bom Susana, se o entusiasmo manifestado na recolha de óleos alimentares for tão grande como o entusiasmo manifestado na recolha do papel, do vidro ou do papelão, então estamos desgraçados porque nunca, nas nossas viaturas, vamos colocar uma única gota desse biodiesel.
- Não sejas mau Mário, a nossa autarquia até se tem esforçado por pôr em prática uma política eficaz de recolha de desperdícios recicláveis.
- Não noto nada Susana. Então admite-se que, por exemplo, junto à Escola Beira Aguieira, um local onde todos os dias se produz desse lixo biodegradável, não exista sequer um ecoponto.
- Pois, realmente não se admite, mas também não podemos exigir que eles coloquem ecopontos em todo lado.
- Claro que não Susana, apenas que os coloquem nos locais onde são mais necessários.
- Pronto está bem Mário, parece que tens sempre razão. Não te esqueças é de me chamar, quando chegar o homem com as barricas.

segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

RESISTENTES

Quando hoje, a caminho do meu atelier, passei perto da vila de Penacova, no IP3 e sobre o rio Mondego, fui sobrevoado por um bando de Patos ou Gansos que, numa formação em V, subiam o rio, enfrentando uns farrapos de nevoeiro que resistia à secura destes dias.
No IP3, carros e camiões faziam o exercício diário da paciência, uns rumando Norte, outros rumando o Sul, mas todos eles artificiais, envoltos em fumos, alguns deles a roer as unhas, outros a praguejar destinos e a mimar os outros condutores com palavras amargas de volante.
Quis ir com os patos, mesmo enfrentando o frio matinal, mas sobrevoando as águas e as árvores em silêncio.
O líder abria caminho sem hesitação e atrás dele, algumas dezenas de semelhantes batiam asas em ritmo certo, buscando boas paragens ignorando o ruídos dos homens e a sua ganância.
Bichos resistentes que desafiam a paulatina entrega ao caos do mundo em que (ainda) vivemos, num jogo de possíveis que recomeça todos os dias enquanto a vontade e a força assim o quiserem.
Resistir, mesmo sendo difícil, é sinal de vida!
-
Crédito da foto: aqui

domingo, 4 de Novembro de 2007

EM CIMA DO JOELHO

A D. Rosalinda entregou-me uns pequenos livrinhos sobre Penacova para colocar em cima do balcão da recepção e também nos outros espaços da pensão onde os hóspedes gostam de passar um pouco do seu tempo a relaxar. Depois de os desfolhar rapidamente, a primeira impressão que tive foi positiva, tinham a capa brilhante, em tons de azul e, ao tacto, senti que o papel era de qualidade, quanto ao grafismo, também houve alguma preocupação em escolher um tipo de letra agradável e adequado ao fim que se pretendia atingir com aquela edição. No que respeita à parte que ficou a cargo da empresa encarregue de produzir o trabalho, nada há a dizer porque, parto do princípio que o fez de acordo com as orientações de quem o pagou e de certeza que se preocupou em manter ou aumentar o seu prestígio. Já quanto a quem teve a ideia e forneceu os elementos e as informações que iriam constar daquele "veículo" de promoção de Penacova, não posso dizer o mesmo.
- Lamento D. Rosalinda mas, após esta breve olhadela, não os vou poder colocar à disposição dos nossos hóspedes.
- Então porquê Mário?
- Olhe D. Rosalinda, em primeiro lugar, quem forneceu as informações que neles constam não o fez correctamente, deturpando algumas delas. Em primeiro lugar, permitiu que fosse impresso um brasão de Penacova que, embora se pareça, não corresponde ao verdadeiro, o que demonstra não estar minimamente informado e, mais grave ainda, estar a prestar uma informação falsa a quem, desconhecendo, pensa ficar a conhecer. Limitou-se assim a indicar o sítio onde esse brasão (erradamente) aparece o que, naturalmente, lhe deu muito menos trabalho. Em segundo lugar, apenas são identificados, com fotografia, os autarcas de três freguesias das onze que o concelho de Penacova tem, transmitindo a sensação de que, ou os outros são todos feios e as suas caras apenas serviriam para espantar os turistas da freguesia que representam ou então a "obra" que fizeram foi de tão baixa qualidade que, pensaram eles, seria melhor não os dar conhecer, para assim evitar possíveis represálias. Em terceiro lugar, e como não podia deixar de ser, a inevitável gaffe. Em vez de se fazer referência ao EXECUTIVO da junta de freguesia de Penacova, faz-se referência à EXECUTIVA, não que eu tenha algo contra o sexo feminino, muito pelo contrário, apenas a prova de que, por parte da autarquia houve urgência em distribuir um documento sobre Penacova, sem que, previamente, tenha havido uma rectificação dos eventuais erros. Em último lugar, mas não menos importante, destaco o facto de se fazer publicidade a, pelo menos, uma empresa cuja gerência é da responsabilidade de um dos autarcas eleitos para uma das onze freguesias do nosso concelho, logo, fácil é de concluir, que, talvez não inocentemente, se tentou favorecer uma empresa que é gerida por um autarca em exercício de funções o que, naturalmente não é admissível.
Além do mais, a informação sobre Penacova em nada diverge da já existente. É feita referência aos já conhecidos monumentos que (sem dúvida) enriquecem o património do nosso concelho, às romarias que durante o ano animam a gentes de cada terra e, quanto a eventos mais ousados como o Festitradições ou a Capital da Lampreia, duas linhas chegam para os descrever e dar a conhecer portanto que, em Penacova, nada de novo.
- Se assim é Mário, tem toda a razão, arrume-os debaixo do balcão da recepção e ficaremos a aguardar pelas verdadeiras novidades, se é que algum dia isso vai acontecer. Entretanto, assim que tiver oportunidade, devolva-os à procedência.

sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

CONDUTORES A CORES

A Luísa já há muito que andava entusiasmada com o facto de, finalmente, poder tirar a carta de condução. Para ela era demais importante, sobretudo porque o seu António nem sempre tinha disponibilidade para a levar a visitar os pais, pessoas idosas que residem na aldeia do Piódão. O rapaz trabalha como motorista de longo curso e apenas a pode acompanhar quando cá fica durante o único fim-de-semana que tem por mês, daí que, para a Luísa, seja importante tirar a carta de condução. Além disso, a Luísa é a companhia da D. Rosalinda, quando esta vai às compras à cidade de Coimbra, logo, já não há necessidade de estar sempre espera da minha ou da disponibilidade da Susana para ir aonde precise. Assim, é óptimo para todos que a Luísa tire a carta de condução.
- Então Luísa, estás contente por ter tirado a carta?
- Claro que sim Mário, a partir de agora já poderei ir até onde bem me apetecer.
- Pois é, agora podes ir ver os teus pais com mais frequência e os concertos do teu querido Toni Carreira.
- Sabe Mário, mas o que mais me preocupa é esse novo programa do governo que prevê a divisão dos condutores em 3 níveis.
- Bem sei Luísa, aquele que nos informa do grau de perigosidade dos condutores em função de número de acidentes a que terão dado origem.
- Esse mesmo Mário. Já viu se eu não tenho sorte na condução e, por minha culpa ou não, tenha algum acidente?
- Pois é, se isso acontecer, o seu carro vai logo ficar mais colorido em função do grau de perigosidade que representa para os demais utentes da via.
- Acho que até vou ter medo de pegar no carro, ou então, se o fizer, vai ser apenas nas horas mortas e em estradas secundárias e, antes de alguma curva, vou sair do carro para ver se vem algum em sentido contrário.
- Não seja exagerada Luísa.
- Claro que não Mário, estava a brincar.
- Mas olhe Luísa, apesar de eu achar que essa tentativa de rotular os condutores é exagerada, considero que ela, se for por diante, também poderá contribuir para limitar os instintos de alguns automobilistas que se consideram donos da estrada e não respeitam as mais elementares regras de urbanidade na estrada e, para esses, acho muito bem que exista algo que os faça pensar duas vezes antes de voltarem a cometer infracções que ponham em risco a vida das outras pessoas e deles próprios claro.
- Pois é Mário, tal indicação também pode ser útil para quando alguém quiser apanhar boleia de um desses condutores, ficar logo avisada que a viagem poder turbulenta.
- Mas, não vá mais longe Luísa porque, de acordo com o código da estrada, os condutores com título provisório de condução, devem colar um na parte traseira do carro o conhecido "ovo estrelado", mas creio que ainda não foram regulamentadas as suas características.
- Credo Mário, o meu carro não será nunca uma frigideira.

quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

DE BRAÇO DADO

Como católica praticante que é, a D. Rosalinda não deixa passar este dia sem que, pelos cemitérios vá visitar a última morada daqueles que lhe foram mais queridos. Levava consigo a menina Alice para, segundo diz, "lhe mostrar onde jazem os seu familiares", claro que a menina Alice não ligará muito a estas coisas dos adultos, para ela tudo isto tem o significado que tem para uma menina de 14 anos. Sabe que os cemitérios ficam todos iluminados, que as sepulturas ficam todas enfeitadas mas, também sabe, que ao lado desse bonito sentimento, também há quem ganhe imenso dinheiro. Aliás, não é só ela que é dessa opinião, eu também considero que este dia é extremamente lucrativo para todos aqueles que vendem flores e velas. Mais uma vez a religião é um negócio.
Seja por altura dos Santos, seja por altura da Páscoa ou do Natal ou até mesmo por altura das peregrinações, todos os comerciantes esfregam as mãos de contentes porque sabem que essas épocas são boas para o negócio. Não quero, como é natural, questionar a fé das pessoas até porque todos temos a nossa fé porém, ter muita fé também faz mal, à carteira pelo menos, e nestas alturas os mais devotos, não se privam de abrir os cordões à bolsa. Gostam de olhar para as suas coisas e achá-las mais bonitas do que as do vizinho, nem que para isso tenham que exagerar na dose e no gosto.
Só de pensar que nas grandes superfícies comerciais, os comerciantes, ávidos de clientes e com a corda na garganta por não ganharem para renda, além de já estarem a fazer os saldos de Inverno, já decoraram as suas montras com motivos alusivos ao Natal, de Dezembro, claro, pois não conheço outro.
As crianças quando passam, já vão dizendo aos pais que brinquedo é que preferem, não encarando sequer a hipótese de poder vir a ser outro que não aquele. Para elas o Natal já não é Natal, mas sim natal, assim como a Páscoa já não é Páscoa, mas sim páscoa e nem os casamentos fogem à regra. Portanto, o dia dos Santos já não será o dia dos Santos, mas sim o dia em que se compram umas velas grandes e vermelhas (de preferência) e o dia em que se compram as mais bonitas flores com os mais bonitos bouquets para colocar em cima de uma pedra igualmente linda e cara para assim lembrar os que já não estão entre nós, nem ali nem em lado algum. Deste modo, não sei qual dos dois resistirá isoladamente, se o negócio sem a religião, se a religião sem o negócio.
Talvez ambos vivam em função um do outro e, por ser tão ténue a fronteira entre eles, fica a dúvida se o Deus (deles) não será o capital e a Religião (deles) o dinheiro.

quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

ALICE NO PAÍS DOS COITADINHOS

Já fui professor. Às vezes erro em escrever com letra maiúscula o "P" inicial. A sua condição tem-se dado às maiores menorizações...
Quando venho à Pensão Viseu, e quando tenho possibilidade, falo um pouco com a menina Alice.
- Então, Alice, agora podes faltar à escola que ninguém se chateia, não é!?
- Pois é, senhor Arquitecto! E até temos oportunidade para recuperar no final do ano. Fazem-nos uma prova global ou um exame, ou lá o que é e podemos passar! É fixe!
- É fixe!? Bom, parece-te justo que não indo às aulas, não querendo saber da escola, te seja dada (por hipotese no caso, porque sei que não és de faltar) a possibilidade de num exame poderes passar, deitando por terra todo um esforço que os teus professores fizeram ao longo de um ano lectivo!? Olha, Alice, ainda és nova, mas a isso chama-se a cultura dos coitadinhos e do facilitismo. Por agora parece, segundo uns iluminados, uma coisa maravilhosa, uma ideia peregrina e cheia de boas intenções. O problema é daqui a uns anos. A factura vai ser paga com juros!...
Alice encolheu os ombros e ficou calada!
Tavez eu tenha exagerado, talvez tenha dito algo que ela não percebeu, talvez!
Temo ter "matado" o sonho de Alice e de muitas Alices neste país de maravilhas. Sou, portanto, uma grandecíssima, insensível e senhorial besta.

POR FIM, ENFIM, NUNCA MAIS

A D. Rosalinda abordou-me no sentido de me perguntar se eu estaria interessado em aprender algo mais acerca do "maravilhoso mundo dos vinhos".
- Bom D. Rosalinda, como recepcionista que sou, não vejo que me possa ser muito útil adquirir conhecimentos mais alargados nessa área.
- Mas está redondamente enganado Mário, hoje em dia, qualquer pessoa que trabalhe numa pensão com as características na "nossa", deverá estar preparado para acorrer a qualquer situação, sempre que lhe seja solicitado.
- Tem toda a razão D. Rosalinda, mais do que nunca, ter um conhecimento alargado sobre as práticas de bem servir e receber que fazem parte do mundo da restauração e do alojamento, são uma necessidade face à concorrência cada vez maior.
- Mas Mário, não se preocupe com a concorrência porque, a maior unidade hoteleira da nossa terra, o Hotel Palacete do Mondego, vai encerrar definitivamente.
- Não diga uma coisa dessas D. Rosalinda!!!
- Verdade Mário, as negociações que estavam a decorrer entre a Santa Casa da Misericórdia e o grupo de ingleses que se mostrou disponível para gerir aquele complexo, não levaram a lado algum por, segundo se diz, aquela instituição ter pedido um preço demasidado elevado.
- Bom, nesse caso, não existe esperança para aquele magnífico hotel.
- Pelo menos é essa a realidade ventilada.
- Mas D. Rosalinda, a Cristina, como chefe de sala da pensão, não satisfaz as exigências dos clientes na área da restauração?
- Claro que faz Mário, não o vai é fazer aqui por muito mais tempo porque está decidida a emigrar para a Inglaterra, onde irá trabalhar para um grande grupo hoteleiro.
- Pois agora percebo porque motivo é que a Srª. está a propor-me um aprofundamento de conhecimentos acerca do "néctar dos deuses".
- Naturalmente que sim meu caro e, se aceitar, poderei inscrevê-lo, desde já, no Curso de Iniciação à Prova de Vinhos que vai decorrer nos dias 23 e 24 de Novembro no Hotel Moliceiro em Aveiro.
- Bom D. Rosalinda, nesse caso, aceito o convite com todo o gosto.

terça-feira, 30 de Outubro de 2007

PORTUGAL MARRÃO

- Será que o novo estatuto do aluno vai trazer ao ensino aquela utilidade que se pretende ou vai apenas ser mais uma tentativa falhada de "preparar" os estudantes para a vida activa? - perguntou o Paulo
- Não sei bem meu caro, apenas considero que as mudanças eram necessárias, como era necessário também inverter a tendência de crescente desinteresse com que os nossos jovens encaravam o ensino - respondi
- Eu lembro-me de, nos meus tempos de liceu, ainda no 11º ano, não saber muito bem que curso havia de escolher. Era um completo desnorte, parecia que andava para ali com os livros debaixo do braço. O que me preocupava era o 2º toque para, partir dali, poder ficar descansado durante 45 minutos.
- Também me recordo dessa situação. Lembro-me inclusivamente de ouvir falar constantemente na Escola Avelar Brotero quando o mote eram os cursos que preparavam os alunos para exercerem uma profissão.
- Mas Mário, tudo isso acabou com o 25 de Abril. O tempo das liberdades perdidas tinha passado à história e os jovens pretendiam afirmar-se a todo o custo e, por norma, a rebeldia, a provocação, o confronto e a contestação, eram as formas mais comuns de dizer basta.
- Tens razão Paulo, os tempos foram de pós-revolução onde uma geração inteira andava à procura de um rumo que os nossos governantes não souberam traçar, preocupados que estavam em apagar tudo o que cheirasse a Estado Novo, fosse bom ou fosse mau. Curiosamente, com esta nova perspectiva, está-se a tentar recuperar o tempo perdido, apostando principalmente nos cursos profissionalizantes e na responsabilização das escolas no que diz respeito ao resultado obtido pelos alunos.
- Não só mas também - disse Paulo -. Como podes verificar, o aumento dos poderes dos professores para com os alunos e a exigência de um maior envolvimento dos pais no percurso dos filhos é pelo governo considerado como a chave para o sucesso .
- Sim, estou a ver que todos chegaram à conclusão de que é necessário dar um forte empurrão ao ensino para que o nosso país não continue a ser aquele onde os jovens passam menos tempo a estudar. Só resta saber se o todo da sociedade acompanha esta preocupação e se os responsáveis pelo ensino, tanto a nível nacional, regional ou local, se comprometem, sem políticas e oportunismos eleitoralistas, a criar infra-estruturas capazes e dignas que permitam alcançar esses objectivos.
- Só espero que, a partir do momento em que não seja possível chumbar os alunos faltosos e expulsar os que constituem casos mais problemáticos, exista coragem para, de certa forma, os reeducar. - disse o Paulo
- Creio que, por parte dos governantes, é a derradeira tentativa de formar os portugueses obrigando-os, mesmo que eles não queiram, a terem sucesso escolar. - disse eu
- Pois é - disse o Paulo -, Portugal tem, a todo o custo, que atingir os objectivos propostos, só não sei se, pelo meio, não vão existir passagens administrativas, tipo aquela acerca da qual se falou bastante e de repente se deixou de falar.

segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

MESMO AO PÉ DA PORTA

- Nunca pensei que nesta pacata terra, alguma vez sentíssemos receio pela nossa integridade física e pelos nossos haveres - disse a Luísa.
- Como assim? - perguntou a Susana.
- Então não queres saber que, durante a noite passada, uns meliantes pegaram fogo a uma série de contentores do lixo e à camioneta de transporte dos "Móveis Viseu". - responde a Luísa
- Mas isso é terrível!!! - exclamou a Susana indignada - Nunca, nem no pós 25 de Abril, altura em que as coisas andavam mais agitadas, tiveram lugar tais actos de vandalismo.
Entretanto chega à cozinha a D. Rosalinda que, ao vê-las tão atormentadas, de imediato lhes perguntou o que se passava.
- Não é possível!!!! - exclamou igualmente - Mas o que é que os agentes de autoridade andam a fazer? - perguntou ela indignada.
- Olhe D. Rosalinda - disse a Susana -, andam a fazer o que sempre fizeram desde que há relatos que, no fundo da vila, recrudescem os actos de vandalismo, com arrombamento de portas, danos no património quer público que privado, distúrbios nocturnos e algazarras constantes.
- Aí mais devagar Susana - disse a D. Rosalinda -, os agentes de autoridade actuam quando para isso são solicitados e, claro, não podem adivinhar o que vai acontecer.
- Claro que não D. Rosalinda mas, se já sabem da frequência com que acontecem esses incidentes, então, a meu ver, deviam levar a cabo acções de vigilância para evitar que se repitam situações dessa natureza. - disse a Susana
- Ninguém os vê durante a noite - disse a Luísa -, apenas durante o dia, à caça da multa e da ocorrência fácil.
- Sim, aí tens razão - disse a D. Rosalinda -, não existe prevenção, apenas reacção e, depois queixam-se quando as pessoas se insurgem contra o estado das coisas e vêem para a rua manifestar-se contra tudo e contra todos.
- Mas D. Rosalinda, não é o presidente da autarquia quem deve zelar pela manutenção da ordem pública e pela estratégia para dissuadir a criminalidade.
- Não sei se é a ele que cabe zelar pela manutenção da ordem pública mas, pelo menos, é ele quem preside ao conselho municipal de segurança, a quem cabe formular propostas de solução para os problemas de marginalidade e da falta de segurança dos cidadãos do município, bem como participar em acções de prevenção através da consulta entre todas as entidades que o constituem. - explicou a D. Rosalinda.
- Puxa D. Rosalinda, a Srª. está muito bem informada!!! - disse a Cristina muito admirada.
- Sabe minha cara, nesta coisa das competências e do funcionamento dos municípios, temos que estar sempre atentos e bem informados para que, quando chegar a altura de olharmos pelos nossos interesses, não sermos apanhados desprevenidos. Além disso - continuou a D. Rosalinda -, as questões da segurança afectam-nos a todos e principalmente a quem tem uma casa aberta e acolhe os que nos pretendam visitar, sejam conhecidos ou desconhecidos.
- Pois é - disse eu entretanto chegado à cozinha, preocupado com a demora do jantar -, o desconhecimento das leis não aproveitam a ninguém, por isso, quando dizemos que não fizemos determinada coisa por desconhecermos as normas que nos regem só nos prejudicamos, pois temos obrigação de as conhecer.
- Ainda bem que chegou Mário - disse a Susana -, estávamos aqui a falar acerca da balbúrdia que foi a noite passada.
- Pois é, foi uma situação muito desagradável e, mais uma vez, coincide com a abertura do ano lectivo, até parece que estamos num subúrbio citadino, onde reina a Lei do mais forte e onde as pessoas se escondem atrás das cortinas com medo de serem identificadas pelos prevaricadores não denunciando, por isso, os atentados à sua segurança e tranquilidade. - disse eu
- Coincidências a mais para meu gosto e que contrariam tudo aquilo que fundamentou a minha educação. No meu tempo, quando o meu pai falava, apenas o ouvia, cabisbaixa, sem me atrever a olhar-lhe nos olhos. - disse a D. Rosalinda enquanto se afastava para receber os novos hóspedes que, entretanto, acabaram de chegar.

domingo, 28 de Outubro de 2007

O MUNDO NO DOMINGO DE MANHÃ

Quando decido pernoitar na Pensão, quando acordo, dá-me sempre vontade de ler a imprensa do dia!
Não costumo perder tempo com as futeboladas da pátria. Nutro por elas algum desprezo, na medida em que são uma coutada falida, onde umas quantas aves de arribação e rapina, tratam das suas vidas. Por isso, passo por cima dos desportivos como cão em vinha vindimada!
Mas o que retive dos dias, foi o balanço nacional-patriótico que foi feito desta semana de glórias, desde a pretérita cimeira do "Porreiro, pá!" até à encomiástica visita do senhor Vladimir Putin, o Czar das Rússias e à cimeira dos sinos de Mafra.
A União Europeia, feita importante, ficou a pensar que Putin quer verdadeiramente o que propôs, seja em matéria de direitos humanos, seja lá sobre o que for.
Coitada e pobre ingénua!
O Sr. Putin quer apenas manter o seu statos quo, pouco importado com as "demandas de Bruxelas", mais preocupado, certamente, em remontar a Rússia como potência político-económico-militar, face ao crescendo Chinês e Indiano. A Europa pouco lhe interessará.
Talvez lhe interesse mantê-la quieta e pouco poeirenta, de modo a não lhe turvar a visão reconstrutiva.
O resto, serão lérias!

sábado, 27 de Outubro de 2007

ARREFECIVENTO GLOBAL

- Sabe D. Rosalinda, o actual prémio Nobel da Paz, na visita que fez a Espanha, previu, entre outras coisas, que devido ao aquecimento global, o sul e o interior de Portugal correm sérios riscos de desertificação.
- Nesse caso Mário, o nível das águas do Mondego, vai descer ainda mais não existindo por isso, o risco de ficarmos sem areal, diria até que vamos ficar com areal a mais.
- Talvez não fosse má ideia começarmos a pensar num novo cartaz publicitário.
- E tem alguma ideia Mário?
- Olhe D. Rosalinda, estive aqui a dar uma vista de olhos e acho que encontrei um que se adapta perfeitamente à situação.

I

sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

PUTINISSES - TENTATIVAS DE APROXIMAÇÃO

- Claro que eu não considero Vladimir Putin um indivíduo sem escrúpulos, antes pelo contrário. - dizia o Paulo
- Eu também não acho que ele seja aquilo que alguns ocidentais consideram que ele seja. Penso até que ele se saiu muito bem como restruturador de uma nação que, em tempos, conseguiu apavorar meio mundo e que agora apenas quer solidificar a sua presença numa zona geograficamente instável e, aí sim, propícia ao aparecimento de forças destabilizadoras que poderiam ameaçar a tranquilidade desejada naquela parte do globo. - disse eu
- Fazia falta alguém que conseguisse restituir o orgulho a um povo que a única coisa que tinha, eram os destroços de um "império" governado pelos ideais marxistas que, com Gorbatchev, começaram a perder e com Iéltsin viram desaparecer por completo. - disse o Paulo
- Agora, não sabendo muito bem o que havia de recuperar para restituir o orgulho ao seu povo, ressuscitou o passado monárquico e toda a sua grandiosidade, como aliás é fácil de perceber pela a exposição que inaugurou hoje no Palácio da Ajuda, em Lisboa, bem como todas as estruturas e organismos que deram à ex-U.R.S.S. o prestígio de que gozou durante as décadas do comunismo russo. - disse eu
- Mas mais curioso ainda, é que aceitou candidatar-se a primeiro-ministro para assim poder continuar a conduzir os destinos da Rússia e se poder candidatar a presidente daquele país em 2012, "caso a situação do país o exija", claro está. - continuou Paulo enquanto bebericava a última gota de whisky que ainda restava no copo.
- Só demonstra então, que o povo russo não abdica de um "imperador" que lhe garanta continuidade política e unidade territorial, numa altura em que a necessidade de uma nação tampão, capaz de forçar a estabilidade naquela zona do globo, é cada vez mais uma realidade. - disse eu tentado abrir a última garrafa do scotch preferido do Paulo.
- Não fosse o poder crescente da Rússia e a sua cada vez maior influência naquela região, já os E.U.A. teriam invadido o Irão e a Coreia do Norte e a Turquia invadido o curdistão iraquiano. - disse Paulo
- Mas Paulo, gostei da proposta que Putin lançou à Europa para que fosse criado um instituto euro-russo para a defesa dos direitos humanos.
- Sim, também achei curioso que um homem, constantemente acusado pelos seus pares, como responsável por violações à liberdade de expressão e de autodeterminação de algumas pessoas e facções consideradas incómodas à sua política, avance com tão ousada iniciativa. - disse Paulo
- Política meu caro, apenas política. - respondi eu deixando escapar um sorriso maroto, como se estivesse a ver aquele cartoon em que Putin aparece caricaturado como um urso pardo a limar as garras.

quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

O REGRESSO DA MENINA DOS CINCO OLHOS

A menina Alice perguntava à avó, D. Rosalinda, se nas redondezas existia alguma escola católica que pudesse frequentar. Espantada, a D. Rosalinda perguntou-lhe porque motivo fazia aquela pergunta já que sempre estudou em Penacova, desde a pré-escola até ao liceu, e com resultados bastante positivos.
- Sabes avó, o que me leva a fazer-te tal pergunta, tem a ver com o facto de as cinco escolas privadas que alcançaram a média mais alta na primeira fase dos exames nacionais do ensino secundário serem todas católicas.
- Pois é minha querida, mas também são aquelas onde se pagam propinas mais elevadas, portanto, desde logo, uma opção secundária .
- Pois, sendo assim - disse a menina Alice -, não será muito boa ideia ir estudar para uma dessas escolas.
- Além disso - disse a D. Rosalinda -, essas escolas têm características que tu não irias gostar.
- Como assim avó? - perguntou a menina Alice.
- Então repara - respondeu a D. Rosalinda -. O estudo da religião e moral é obrigatória desde o primeiro ano e as meninas e os meninos frequentam turmas independentes, isto é, meninas com meninas e meninos como meninos.
- Quer então dizer que não podia partilhar, por exemplo, a minha carteira com o João ou com o José. - disse algo triste a menina Alice
- Exactamente. - retorquiu a D. Rosalinda
- Mas isso é muito desagradável, parece que uns prejudicam os outros e que só é possível alcançar bons resultados se os rapazes estiverem afastados das raparigas e vice-versa. - disse a menina Alice
- Assim parece minha filha, assim parece. - disse a D. Rosalinda
Ao ouvir a preocupação que a menina Alice manifestava em relação às escolas que mais garantias futuras lhe podiam dar, vieram-me à ideia as conclusões a que chegou o sociólogo americano Cornelius Riordan, e a sua equipa, acerca das vantagens que, no ensino, o formato unissexo tem em relação ao sistema misto.
Tais resultados, revelaram que o sistema unissexo é mais vantajoso, pois não existem problemas de assédio sexual, o plano de estudos é especial, existe mais carga horária e o envolvimento dos pais dos alunos é maior.
- D. Rosalinda, peço desculpa por me intrometer na conversa mas não resisto a manifestar a minha opinião.
- Avance Mário, não tenha problemas - disse a D. Rosalinda -, as suas opiniões são sempre bem-vindas.
- Olhe D. Rosalinda, para mim o formato unissexo poderá ter as suas vantagens relativamente àquele que hoje em dia vigora em maior número no nosso sistema educativo. Do lado das vantagens, pesa a falta de possibilidade que as meninas (adolescentes) têm para se encontrarem com os meninos (adolescentes), quer nos intervalos quer fora deles, evitando assim os encontros sexuais, fortuitos ou não, a partir dos 14 anos de idade no recinto escolar. Do lado das desvantagens, pesa a questão da exclusividade e essa mentalidade traz-me à ideia os colégios internos, as fardas e o (aparente) ar bem comportado dos alunos que os frequentam. Além disso, como a D. Rosalinda muito bem referiu, tal clivagem conduz ao encarecimento do ensino, já de si quase incomportável para uma família de rendimentos médios, criando a ideia de que a aprendizagem e o sucesso está reservado a meia dúzia de privilegiados.
- Tem razão Mário - disse a D. Rosalinda -, o tema, já de si polémico, promete longos e, quiçá, inconclusivos debates, os quais levarão à inevitável conclusão que, se fosse assim tão bom, o sistema unissexo não teria sido abandonado.
- Preferências à parte, o que é certo é que cada vez mais países estão a adoptar o que anteriormente foi banido por ser considerado desadequado. - disse eu -, dessa forma – continuei -, se a tendência for a de dar preferência às escolas unissexo em detrimento das escolas mistas, não me espantará que, daqui a uns anos, as professoras só possam casar com autorização do responsável máximo do ministério da tutela, tal como acontecida no tempo da antiga senhora.
- Tudo pode acontecer - disse gracejando a D. Rosalinda -. Não se esqueça que já houve alguém que previu (magnificamente) o regresso do botas, portanto, não se admire que as coisas possam a voltar ao que eram antes, se esse for considerado o caminho para o sucesso escolar.
- Só espero que não seja com recurso à menina dos cinco olhos que os alunos aprendam, por exemplo, todos os afluentes dos rios portugueses, a tabuada, as províncias ou as estações ferroviárias, como acontecia nesse tempo em que as crianças sabiam, porque a isso eram obrigados. Contudo, não esqueçamos, que na lancheira só levavam um pedaço de pão, que nem sempre era do dia, e metade de uma sardinha da cor da fome.

OUTONO

A D. Rosalinda é uma daquelas pessoas cheias de palavras e gosta de as libertar quando elas lhe enchem o saco das conversas.
- Sabe, Sr. Arquitecto, eu não gosto do Outono. Está tudo muito quieto. Parece que os dias nos andam a dizer para ficarmos mais frios, mais mal dispostos, menos atentos à paisagem... É quase como se nos tivessemos embebedado com o Verão e agora estamos a curar a ressaca dos excessos do estio.
- Oh D. Rosalinda, a senhora faz-me lembrar uma música do Fausto! Não, eu não vou cantar para não a assustar. Deixo-lhe os versos:
"Rosalinda se tu fores à praia,
Se tu fores ver o mar,
Cuidado não te descaia,
O teu pé de catraia,
Em óleo sujo à beira mar!"
- Mas oh senhor Arquitecto, aqui não há mar, só há o Mondego!..
- Bem sei, disse. Mas olhe que junto a ele, tenha cuidado. Ele já esteve mais limpo! Mesmo que não haja óleo, pode haver latas, frigoríficos, fogões, plásticos e outras utilidades...
D. Rosalinda sorriu um pouco amareladamente e vergou-se a um silêncio estranho e com que não contava! Ainda assim, eu rematei para a tentar sossegar:
- Olhe, para combater a sua "azia" outonal, partilho consigo esta imagem, obtida há 2 ou 3 dias, junto ao Mondego, e que nos mostra que esta Penacova é bonita em qualquer altura do ano. Até no Outono que a D. Rosalinda gosta pouco.
I

(c) Arquitecto

I

terça-feira, 23 de Outubro de 2007

RADICAIS LIVRES

Como habitualmente acontece, gosto de visitar o site do nosso município para ficar ao corrente dos eventos que vão tendo lugar neste concelho de Penacova. Na visita que hoje por lá fiz, fiquei agradavelmente surpreendido ao ter conhecimento que, no próximo fim-de-semana junto ao açude do Rio Mondego, quase em frente do Porto da Carvoeira, se vai realizar um evento radical. Designa-se por Freestyle Kayak e a organização está a cargo da Federação Portuguesa de Canoagem, em colaboração com outras entidades a quem caberá, naturalmente, proporcionar o sucesso daquela iniciativa.
Lembrei-me das primeiras "pagaiadas" que dei em cima de um kayak. Na altura, há mais de 20 anos, com outros rapazes da minha idade, recebíamos do prof. Canhão e dos seus assessores, os necessários ensinamentos para nos mantermos o mais tempo possível a flutuar em cima daquela coisa que teimava em não se equilibrar (tipo touro de rodeo). Depois, era como andar de bicicleta, nunca mais de desaprendia e passava a ser um divertimento para todos nós e um desassossego quando ficávamos na areia à espera da nossa vez.
- Imprima um exemplar desse cartaz a cores para afixar no placard da pensão.- disse a D. Rosalinda.
- É já de seguida D. Rosalinda. - respondi de imediato.
- E não se esqueça de o colocar num lugar de destaque, para que os nossos hóspedes tomem conhecimento desse acontecimento. - disse a D. Rosalinda.
- Concerteza D. Rosalinda. - respondi novamente, preocupado em alinhar as folhas na impressora.
- E não se esqueça de avisar a Luísa para preparar os quartos do 2º andar, pois queremos que os participantes fiquem confortavelmente instalados. - continuou a D. Rosalinda
- Fique descansada D. Rosalinda que já está tudo a ser tratado. - respondi eu já com dois pioneses numa mão e com o cartaz na outra em direcção ao placard da pensão.

segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

CORTANDO O MATO

A Cristina já tinha dado uns passeios por alguns dos sítios mais bonitos de Penacova. Foi ao Reconquinho, ao Penedo do Castro e também ao Mirante, disse-me que andava a tentar construir mentalmente um percurso onde pudesse praticar o seu corta-mato diário. A Cristina é natural de Vildemoinhos, Viseu, terra que viu nascer o nosso mais internacional atleta, Carlos Lopes, por isso, não é de estranhar, que também ela se dedique a praticar a modalidade que fez daquele extraordinário atleta o campeão mundial em 1976, 1984 e 1985.
Hoje, sem excepção, a Cristina saiu por volta das 17 horas em direcção a um desses percursos que entretanto consegui elaborar. Penacova com montes e vales a perder de vista e frescos planos à beira do rio, é óptima para a prática dessas e doutras modalidades fazendo as delícias de qualquer atleta. Em tempos, destacaram-se nesta terra indivíduos que, do nada, conseguiram competir ao lado de importantes nomes do atletismo português, lembro-me do Mário Marcelo, do Mário Linhares e do Fernando Sêco, quando corriam com as cores da Casa do Povo, no tempo do Sr. José Pimentel, eu próprio ainda consegui um 2º lugar numa prova de atletismo que decorreu nas Torres do Mondego, à custa, diz a minha mãe, de um cão que não parava de ladrar atrás de mim (coisas de mãe). Hoje, os clubes dedicam-se mais ao futebol, talvez à procura de uma forma mais rentável que os ajude a sobreviver neste presente incerto para tantas colectividades.
Quando a Cristina saiu, eu e a menina Alice jogávamos a nossa habitual partida de xadrez, reparei que o equipamento que vestia, denotava alguma preocupação em se proteger e em tirar o melhor rendimento do seu desporto de eleição.
- A Cristina vai muito bem equipada! - exclamava a menina Alice
- Claro - disse eu -, se o que ela pretende é obter o máximo rendimento sem se prejudicar fisicamente, então tem que se equipar convenientemente.
Escusado será dizer que o meu pensamento foi com a Cristina o que, naturalmente, provocou um ataque furtivo ao meu Rei, mal protegido, por um (simples) Bispo e um posterior xeque-mate com a Rainha, inocentemente deixada à vontade.
Quando chegou, isto passado 1 hora e meia, a Cristina vinha como devia vir, toda suada e algo cansada, mas não muito, o que me levou a concluir que o seu organismo já estava habituado a percorrer grandes distâncias. Subiu para tomar um duche e, quando desceu, já vinha fresca como um alface, perguntando que obras eram aquelas que estavam a decorrer junto aos bombeiros.
- Olhe Cristina, para lhe ser franco, nem lhe sei dizer muito bem. - respondi
- Parece-me um circuito de manutenção. - disse algo entusiasmada.
- Sim, creio que sim, creio que é algo desse género - esclareci -, mas mesmo que a queira ajudar não consigo porque, no local, não fazem qualquer referência ao que dali vai sair.
- Bom...., mas se estão com intenções de fazer algo desse género, pelo menos, deveriam colocar no local um painel informativo acerca do objectivo daquele movimento de terras, acerca de quem o projectou, por quem está a ser levado a cabo e para quando se prevê a finalização da obra. - disse a Cristina.
- Sabe Cristina, em Penacova pouco se sabe acerca daquilo que se passa, os responsáveis vão fazendo o que consideram mais prioritário e os munícipes, um pouco alheios ao que se passa, vão vendo e tentando adivinhar o que vai acontecendo para depois avaliarem o impacto da nova realidade que, de certa forma, lhes é imposta. - disse eu.
- Sim compreendo, ou melhor, não compreendo mas, tudo bem, para mim é suficiente poder aproveitar estas condições que por aqui existem e praticar o meu desporto preferido, é pena que não exista informação suficiente para quem, não sendo de cá, pretenda aproveitar estas magníficas condições. - disse a Cristina enquanto se afastava para tratar da vida dela, ou melhor, do bem-estar dos nossos hóspedes.

domingo, 21 de Outubro de 2007

DE LORVÃO ATÉ AO MAR

A Luísa desceu toda aperaltada como se para uma festa fosse. Perguntei-lhe se ia para algum casamento e ela respondeu (muito bem) que não era necessário um casamento para se "produzir" assim.
Confesso que, por momentos, não conhecia a Luísa que todos os dias vejo vestida de bata e com o cabelo apanhado, hoje parecia-me mais solta, mais fresca e com uma carinha mais laroca. Ainda dizem que um pouco de baton, rímel e alguma maquilhagem não realça aquela beleza que todas as mulheres têm.
- Olhe Mário, vou à missa ao Mosteiro do Lorvão. - disse a Luísa
- Mas a que propósito? - perguntei eu
- Então Mário, não sabe que, naquela vila, durante todo o fim-de-semana, estão decorrer as Festas das Rainhas Teresa e Sancha e que hoje, pelas 11 horas, vai ter lugar uma solene eucaristia, presidida por S. Reverência o Bispo D. Ximenes Belo
- Bom...- disse eu -, que estão a decorrer as festas em honra das santas rainhas eu sei, não sabia era que iria ter lugar, na igreja daquele mosteiro, uma eucaristia presidida por tão distinta personalidade.
- É verdade Mário - disse a Luísa -, e é para lá que eu vou mal chegue o meu António.
- Quer dizer que não vens almoçar à pensão. - depressa conclui.
- Lógico Mário. Depois vou passear com o António até, quem sabe, à Figueira da Foz para ver o mar. - disse a Luísa
- Fico muito contente por vós e parece que vão ter sorte pois o dia está solarengo, coisa que normalmente não acontece nos meses de Outubro. - disse-lhe eu, enquanto preparava a taça de ração para o Riças que, de tanta vontade de comer que tinha, não saía da porta da cozinha só para sentir o cheirinho da chanfana que já começava a tomar conta de (quase) toda a pensão e que nos deixava a todos com água na boca.
I

sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

ACIMA DAS NUVENS


A D. Rosalinda faz questão de manter intactas as máquinas fotográficas que o Sr. Ricardo possuía enquanto fez parte do mundo dos vivos. Era um hobby que exercitava constantemente tirando fotografias a tudo aquilo que o rodeava, desde que, como é natural, lhe interessasse e de preferência se o motivo fosse Penacova e as suas belezas.
Depois de cada sessão fotográfica, corria até ao laboratório mais próximo e, sem perder tempo, regressava de imediato à pensão para pendurar as fotos que considerava mais belas porque assim, dizia ele, "os hóspedes poderiam apreciar a beleza de Penacova, sem ter de sair da pensão".
Desde que nos deixou, as fotografias que se encontram penduradas nas diversas paredes da pensão, nunca mais foram substituídas, fazendo com que, desde essa altura, Penacova tivesse parado no tempo, tal como a bela adormecida, contudo não perdeu a beleza com o passar dos anos porque, acima de tudo, o Sr. Ricardo preocupava-se em escolher o papel fotográfico de melhor qualidade para que as fotografias se mantivessem lindas e brilhantes como no primeiro dia.
A D. Rosalinda já tinha tocado no assunto. Disse que, em conversa com a menina Alice, gostava de voltar ver fotografias sobre Penacova para, por um lado, renovar as fotos e, por outro, dar a conhecer aos hóspedes uma Penacova mais actual. Ao saber pela Susana do meu fraquinho pela fotografia, perguntou-me se eu estava na disposição de continuar o "trabalho" que o seu defunto esposo havia começado, respondi-lhe que sim, que o fazia com todo o gosto mas que não prometia uma qualidade tão boa como a do Sr. Ricardo.
- Vá lá Mário - disse a D. Rosalina -, você sabe tão bem quanto eu, que tem fotografias muito interessantes na sua colecção e que podia partilhar connosco.
- Bem sei D. Rosalinda, mas não prometo substituir todas as que existem na pensão de um dia para o outro. - disse-lhe eu.
- Claro que não Mário, nem é esse o objectivo, porém se o for fazendo aos poucos, de certeza que, qualquer dia, vai conseguir criar uma boa colecção e quem sabe até fazer uma exposição na pensão com os seus amigos que, tal como você, gostam de fotografia. - disse ela -
Então está bem D. Rosalinda - disse-lhe eu -, nesse caso, vou começar já hoje a expor aquelas que tenho.
Corri a buscar a minha pequena máquina digital e, de imediato, imprimi uma foto sobre Penacova, por sinal uma daquelas que eu mais gosto.


II

quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

PARADOXILIDADES AMORAIS

O João, o nosso hóspede mais jovem, mostrava à Susana e à Cristina, o que tinha aprendido hoje na escola de hotelaria da nossa terra. Claro que, para elas, o que ele lhes estava a mostrar não era novidade mas, como boas profissionais que são, ouviram atentamente o que João lhes dizia, ajudando-o quando ele não percebia algum pormenor e ensinando-lhe novas técnicas que ele podia utilizar para obter os mesmos resultados. A D. Rosalinda também observava aquilo que os três estavam a fazer e, como reparou que o rapaz tinha jeito para a culinária, prometeu que iria pensar na hipótese de propor ao João um estágio na pensão. Ao encarar como possível essa realidade, quase que deixou cair os ovos que estava a tentar partir para dentro da tijela que iria servir para fazer os crespes de chocolate.
Comigo, no bar da pensão, estava o Paulo. Tínhamos acabado de jantar e preparávamo-nos para tomar um café, quem sabe acompanhado de um digestivo, talvez uma aguardente velha, em balão aquecido.
Na televisão, além da cimeira europeia que está a decorrer em Lisboa, mostravam um pai comovido que, em desespero, apelava à justiça italiana que autorizasse o fim do coma irreversível em que a sua filha se encontrava há já quinze anos. Chocou-nos aos dois esta indecisão por parte da justiça em fazer....justiça.
- Para aquele pai a filha já morreu há bastante tempo. - disse o Paulo
- Desde que entrou em coma. - disse eu
- Eu também não sei como reagiria se tivesse que passar por um situação daquelas - disse eu -, porque, apesar de ser defensor da vida humana, após a dez semanas claro, não consigo aceitar muito bem o facto de, perante a impossibilidade da medicina em proporcionar uma vida digna àquela pessoa, não se optar pela morte clinicamente assistida.
- Eu também sou da tua opinião - disse o Paulo -, mas existem casos em que as pessoas saíram do coma passados 15 ou mais anos.
- Sim claro, mas no caso da moça italiana, as perspectivas de recuperação são praticamente nulas, encontrando-se a senhora em estado vegetativo - disse eu.
- Não é preciso ir mais longe - disse o Paulo -, aqui bem perto de nós, temos um caso idêntico. Uma rapariga bastante jovem, mãe de uma filha com 4 anos de idade, sofreu um acidente há mais de um ano e agora está em casa, a ser limpa, alimentada e acompanhada pela mãe.
- Sim eu recordo-me dessa situação. - disse eu
- Dizem que aquela criatura vai estar assim até ao fim dos dias dela - continuou o Paulo -, vai ter necessidade de acompanhamento constante porque, além de não conseguir fazer rigorosamente nada pelos próprios meios, todos desconhecem se está ou não consciente. Valerá a pena mantê-la nessas condições, sendo certo que, nem ela própria, ao ter consciência da situação em que se encontra, gostaria de se manter assim.
- São tudo questões muito complicadas - disse eu -, para uma mãe ou um pai que todos os dias vêm uma filha naquela situação, sabendo que assim se vai manter por tempo indeterminado, só por muito amor é que aguentam tratar dela, na esperança claro, de algum dia ela reagir.
- Depois, também existe a questão do Vaticano (mais uma vez a religião) que contesta veemente a opção pela eutanásia, por segundo eles, ser "inaceitável o relativismo dos valores, sobretudo quando estes se referem à conservação da vida". - disse eu.
- Sim - disse o Paulo -, também temos que contar com a questão dos valores que "assaltam" os mais devotos fiéis da igreja católica, a mesma que escondeu durante anos os escândalos sexuais dos seu padres e das suas freiras.
- Pois é - disse eu -, a questão da eutanásia que, a meu ver, merece ser analisada e discutida, é mais uma barreira psicológica e moral que a nossa sociedade tem que ultrapassar, contudo, não sou da opinião que, artificialmente, se tente manter a dignidade de um ser humano quando a sua dignidade depende, entre outras, da capacidade que tem para decidir naturalmente e em consciência.
- Tens razão Mário - disse o Paulo - , mas o mais caricato de tudo isto é que, por um lado, o Vaticano defende a utilização de uma máquina, criada pela ciência, para manter, artificialmente, uma vida sem futuro e, por outro, condena o recurso a métodos científicos para impedir o nascimento de outros e, mais grave ainda, para impedir a propagação de doenças que matam milhões de pessoas que, curiosamente, vivem em países onde maioritariamente se professa a religião católica.